Começo, hoje, uma série de posts que pode ou não ser levada a sério. Depende de quem a lê. A partir da mais fácil, proponho uma escalada através das obras clássicas. Durante a subida, eu também aprendo – é evidente que não conheço todos os livros atemporais, e terei de encarar alguns dos mais difíceis para depois resenhá-los (alguns pela segunda vez, já que, da primeira, acredito que não tenha captado a totalidade do que ali está escrito, ou mesmo os pormenores). Estou, enfim, pouquíssimos milímetros à frente. Não sei se alguma alma irá me acompanhar. Quem sabe? Quem quiser que tenha, por favor, a bondade de me seguir. Sabe-se lá onde vamos parar.

Para início de conversa, representando o primeiro passo, trago Franz Kafka com A Metamorfose. O nome imponente do autor pode assustar, bem sei, mas acreditem em mim quando digo que o livro foi escrito em uma linguagem clara, simples, direta e descomplicada. Se você que me lê é pai ou mãe ou avô ou avó ou tio ou tia ou padrinho ou madrinha de um(a) jovem de 12 anos ou mais, perca dois minutos do seu tempo e questione-se a respeito dos seus desejos para o futuro dessa existência que mal começou. Foi aproximadamente com essa idade, talvez menos, que alguém me presenteou com A Metamorfose – portanto dez anos atrás. E fui obrigada a ler. Embora sempre tenha pendido para as letras e as palavras, quando muito nova eu não tive escolha. Eu devia resumir os livros que ganhava e apenas com argumentos muito bons me safava de uma resenha crítica que devia ser apresentada a minha mãe. Ela sabia que às vezes o esforço me incomodava, porque furar o ócio nessa idade é complicado, e aos 16 ou 17 anos já me entupia com filosofia existencialista só de sacanagem. Eu tinha opção? Não tinha.

Claro que meus livros não constituíram uma redoma de vidro que me resguardou da idiotice da adolescência. Nessa fase, os benefícios das leituras só são visíveis na aula de redação. Arrisco dizer, porém, que tudo depende das obras que são despejadas goela abaixo: as que eu resenho nessa série sobre clássicos não formam cordeirinhos educados. Pelo contrário: formam questionadores. Preparem-se.

Depois que a adolescência passa, tudo muda. E vem à tona e explode.

Primeiro vem a dissertação do vestibular. Depois a construção de um currículo com um léxico e uma ortografia aceitáveis. Por fim, veem-se as maravilhas de uma argumentação coerente, racional e precisa em qualquer âmbito.

Quem quiser para os seus descendentes a chatice perfeccionista e pedante que me foi incutida, por favor, tenha em mente que a leitura de bons livros é um dos únicos caminhos. É necessário forçar a barra? É. Mas compensa. E, um dia, vêm os agradecimentos.

Estipulem prazos, exijam resenhas escritas e estruturadas, supervisionem a leitura, tirem dúvidas, arremessem um dicionário, elucidem a importância da ordem e as consequências do descumprimento desta.

Isto posto, retomemos Kafka. A leitura d’A Metamorfose, indicada para o ingresso dos jovens no mundo dos clássicos, é absolutamente tranquila. A história do livro, de qualquer maneira, é conhecida da maioria: Gregor Samsa acorda, certa manhã, transformado em um imenso e grotesco inseto. O resto da obra esmiúça as reações da família do caixeiro viajante ao fato e os pensamentos deste sobre o que lhe havia passado.

O que é complicado a respeito d’A Metamorfose é precisamente sua interpretação. Isso, claro, é estimulante e rende boas conversas com amigos ou familiares ou com quem quer que seja que estiver disposto a ouvir e discutir os pormenores do enredo criado por Kafka. Como há milhares de maneiras de se entender o livro, fica ainda mais interessante propor, ouvir e contrapor.

Embora goste de Kafka, devo salientar que A Metamorfose é só o começo, e um começo opaco e granuloso, perto dos brilhos fascinantes de outros que vêm por aí.

Fonte: Livros Abertos

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