Luciane Mediato

Uma das frases de sabedoria popular mais conhecidas é “antes de morrer, você deve plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho”. Se são essas as tarefas básicas ao longo da vida, a primeira, em época de ações ambientalistas, é mais fácil. Ter um filho pode levar mais tempo ou nunca ser realizado. Já escrever um livro depende apenas de boas ideias, papel na mão e empenho. A única dificuldade é se houver vontade de publicar.

Os obstáculos para os iniciantes afugentam muitos dos autores: altos custos de produção, dificuldades na distribuição e batalha para ser aceito em uma editora. Porém, a presença de novos autores no mercado prova que a tarefa não é impossível.

Exemplos bem-sucedidos de autores nacionais não faltam. É o caso dos curitibanos Gustavo Norris e Gustavo Brasman, da série de ficção Crônicas dos Senhores do Castelo (Verus, R$ 29,90, 236 págs.), o primeiro livro brasileiro a ser vendido em versão digital pelo Kindle, da Amazon. A dupla batalhou por dois anos para conseguir a publicação. “A ideia do livro surgiu em conversa em café depois do almoço, pois trabalhávamos juntos. Descobrimos que tínhamos como hobby escrever. Começamos a criar um personagem e escrever um conto que teria inicialmente dez páginas, mas as ideias foram crescendo tanto que com menos de 200 não conseguiríamos expressar tudo”, lembra Norris.

Depois de enfileirar os pensamentos no papel, chega a hora de buscar imprimir o livro. Os autores passaram por caminhos como a publicação por demanda e parcerias. “Depois de um tempo fomos convidados por editora local. A aceitação foi tão boa que, em apenas nove meses, a primeira edição foi esgotada e fomos convidados pela Record para a publicação da obra pelo selo Verus”, diz Norris.

Autor de um dos romances juvenis nacionais mais vendidos em 2010, Enderson Rafael também passou por dificuldades até conseguir publicar Todas as Estrelas do Céu (Novas Ideias, R$ 29, 160 págs.). O livro ficou pronto em 1999 e durante dez anos o escritor tentou publicá-lo. “Os obstáculos foram tantos que escrevi um livro quatro anos depois ( Propaganda e Marketing para Vestibulandos, Calouros, Curiosos e Simpatizantes, da mesma editora). Acabou sendo lançado antes, em 2006. Só ano passado, após campanha de divulgação em que espalhei 300 exemplares do manuscrito do primeiro livro pelo Brasil e recolhi opiniões das pessoas, a editora se interessou em lançar”, lembra Rafael.

O escritor aconselha quem está começando a enxergar tudo com menos romantismo. “Existe uma indústria por trás dos livros. É empreendimento comercial. Publicar uma obra tem custo alto. Se não for dar lucro, nenhuma editora vai investir. Além disso, a pilha de originais que chegam é enorme. Por isso, quanto mais bem acabado for o livro, mais chances terá de ser publicado”.

Já Eduardo Spohr, autor da ficção A Batalha do Apocalipse (Verus, R$ 39,90, 586 págs), deu início à empreitada por meio de publicação independente do selo NerdBooks, do site Jovem Nerd, do qual o escritor faz parte. “Fazer uma publicação sem editora é experiência que só tem a acrescentar. Acredito que todos os autores iniciantes deveriam agir de forma independente para se aproximar e conhecer diretamente o leitor. Com público formado, fica mais fácil negociar um contrato”, afirma.

Para Spohr, é natural que as editoras não queiram publicar obra de autor desconhecido. “Nesse momento entram empreendedorismo e garra do escritor, que deve correr atrás ele mesmo para ver seu livro nas livrarias. Prefiro não ver isso como uma dificuldade, mas como parte do processo”.

Simone Campos, que teve seu primeiro livro, No Shopping (7 Letras, R$ 15, 72 págs.), publicado quando tinha 17 anos, seguiu caminho mais simples. “Sempre tive vontade de escrever. Quando li uma matéria de editor dizendo que estava interessado em ler e publicar novos autores, decidi que quando meu livro estivesse pronto mandaria os originais para ele. Tive medo de entrar em contato por ser nova e pedi para que minha mãe ligasse para a editora. Duas semanas depois de mandar o material, soube que seria publicado. Hoje são três obras nas livrarias sendo duas com a bolsa de incentivo do Programa Petrobrás Cultural”, conta.

Fonte: Diário do Grande ABC

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