Isabel Coutinho

O caso era sério. Luiz Schwarcz, o editor da brasileira Companhia das Letras, tinha prometido que durante as férias não escreveria nenhum post no Blog da Companhia. Teve de quebrar a promessa quando, em Nova Iorque, resolveu ir à livraria Barnes & Noble da sua “predileção”, aquela que ficava em frente ao Lincoln Center, e verificou que ela fechou. “This Barnes & Noble location is now closed. Please visit our store at 82nd and Broadway. Thank you for your patronage over the past 15 years”, lia-se na montra. “Antes lamentávamos o fechamento de cada uma das maravilhosas livrarias independentes, e os vilões eram as cadeias, da qual a Barnes & Noble é a maior representante. Agora são as cadeias que estão mal (…) e, para minha surpresa, a melhor, ou uma das melhores lojas da Barnes & Noble, acaba de fechar. É claro que o vilão da vez é o livro eletrônico. Essa é uma longa discussão, na qual faço me valer do fato de estar de férias para não entrar, pelo menos neste momento”, escreve Schwarcz.

Esta semana, numa coluna de opinião do “The Daily”, a publicação lançada por Rupert Murdoch exclusivamente para o iPad, o romancista Dale Peck voltava ao tema numa coluna provocatória. Para ele, os leitores estão treinados para pensar das livrarias aquilo que os fãs do “rock and roll” pensam dos concertos: é o sítio onde vemos os nossos artistas preferidos e onde nos encontramos com pessoas com os nossos gostos e valores. “À primeira vista parece um sistema excelente. Há espaço para todos os tipos de leitores, quer se goste de Dan Brown e de Stephenie Meyer ou de David Markson e de Angela Carter. Qual é o problema?”, pergunta o autor, que é também fundador de uma pequena editora, a Mischief + Mayhem Books. A seguir analisa todos os problemas do processo de venda de livros (as comissões com que ficam os distribuidores e os livreiros, a lógica da consignação, etc) e vai avisando que a Internet simplifica a compra de livros diretamente aos editores e que, com os avanços tecnológicos na área do print-on-demand (impressão a pedido), os editores já não precisam de imprimir dez mil livros de um título se sabem que só vão conseguir vender cinco mil. “Se o modelo de impressão a pedido, diretamente para o consumidor, for aplicado por toda a parte, sem dúvida que levará a Amazon e a Walmart para fora do negócio do livro, e também vai afastar a Barnes & Noble do negócio, ponto final. Isso seria mau?”, pergunta. Provocador, diz que se as grandes cadeias desaparecerem talvez as livrarias independentes aumentem. “Leitores de todo o mundo, uni-vos. Não têm nada a perder a não ser as cadeias.” Não posso concordar. Eu gosto muito de não precisar de sair do sofá para comprar um livro eletrônico e começar a lê-lo nesse instante. Também gosto da atenção que me dão nas livrarias independentes. Mas não quero que uma cadeia de livrarias como a Barnes & Noble, espalhada por todas as cidades norte-americanas, desapareça do mapa.

Nos anos 90, foi numa Barnes & Noble que percebi pela primeira vez que uma livraria podia ter sofás e um café lá dentro. Passei a ir lá todos os dias, para descobrir novos livros e meter conversa. Quando hoje entro numa livraria, a Barnes & Noble que me marcou naquela época está sempre presente e é o termo de comparação. Ainda não estou preparada para ir ao seu enterro.

Fonte: Ciberescritas

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