Prática de escrever comentários à margem dos livros, conhecida como marginália, é ameaçada pelos e-books.

Trancado em um cofre climatizado na Biblioteca Newberry, em Chicago, um volume intitulado “A caneta e o livro” pode ser estudado apenas sob a vigilância de câmeras de segurança.

O livro, sobre como lucrar com a publicação de livros, dificilmente poderia ser classificado como uma obra literária. Por outro lado, ele é de grande valia simplesmente porque um de seus leitores fez anotações nas margens de suas páginas.

O leitor era Mark Twain, que escreveu, entre outras observações, uma espécie de argumento contra o autor, Walter Besant, que diz que “nada poderia ser mais estúpido” do que fazer uso da publicidade para vender livros como se fossem “bens essenciais”, como o “sal” ou o “tabaco”.

Em outra página, Twain fez algumas observações maldosas sobre as grandes somas pagas a uma escritora de sua época, Mary Baker Eddy, a fundadora da Ciência Cristã.

Como muitos leitores, Twain estava envolvido em uma prática conhecida como marginália, de escrever comentários ao lado de passagens e, às vezes, até mesmo contrariar o autor. Esse é um passatempo por vezes considerado como uma ferramenta de arqueologia literária, mas tem um destino incerto em um mundo cada vez mais digitalizado.

“As pessoas sempre vão encontrar uma maneira de fazer anotações eletronicamente”, disse Thomas G. Tanselle, ex-vice-presidente da John Simon Guggenheim Memorial Foundation e professor adjunto de inglês na Universidade de Columbia. “Mas há a questão de como essa anotação será preservada. E isso é um problema enfrentado pelos acervos”.

Estes são os tipos de questões ponderadas pelo Clube Caxton, um grupo literário fundado em 1895 por 15 bibliófilos de Chicago. Juntamente com a Biblioteca Newberry, o grupo está patrocinando um simpósio intitulado “Livros de Outras Pessoas: Cópias por Associação e as Histórias que elas Contam”.

O simpósio, que acontece em março, contará com um novo volume de 52 ensaios sobre cópias por associação – livros que pertenceram ou foram anotados pelos autores – e ruminações sobre como melhorar a experiência de leitura.

Os ensaios apresentados falarão sobre as obras que ligam o presidente Abraham Lincoln e Alexander Pope, Jane Austen e William Cooper, Walt Whitman e Henry David Thoreau.

David Spadafora, presidente da Newberry, disse que a marginália enriquece um livro, conforme os leitores inferem outros significados e emprestam contexto histórico ao volume. “A revolução digital é uma boa coisa para o objeto físico”, disse ele. Quanto mais pessoas verem os artefatos históricos em forma eletrônica, “mais elas vão querer encontrar o objeto real”.

 

Autor: Dirk Johnson, The New York Times

Fonte: http://www.ig.com.br/

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