Texto de *Cassionei Niches Petry publicado originalmente na Gazeta do Sul

Foto: Divulgação

Costumo dizer que minha religião é a Literatura. Sou devoto, dentre outros, de São Machado de Assis e São Julio Cortázar. Quem seria Jesus? Franz Kafka, claro. Assim como o homem de Nazaré, Kafka teve problemas com seu pai (“por que me abandonaste?”, perguntou Cristo na cruz), não casou, nem teve filhos (por mais que tentem provar que Jesus se envolveu com Maria Madalena) e só teve reconhecimento depois de morto. Além disso, podemos dizer que ambos são o que são graças à traição de um amigo.

Não quero polemizar sobre o evangelho de Judas, tão atacado por conservadores da igreja, mas se o Iscariotes não tivesse dado o beijo delator, provavelmente não conheceríamos hoje o cristianismo e os crucifixos não estariam decorando paredes de milhões de casas em todo o mundo (aliás, é a única religião que tem como símbolo um instrumento de tortura). O judas de Kafka foi Max Brod, a quem foi confiada a missão de queimar todos os escritos que não foram publicados em vida pelo escritor tcheco. Se tivesse cumprido o que Kafka pedira, não conheceríamos boa parte de seus contos e romances, principalmente O processo, lançado pelo selo Companhia de Bolso, da Companhia das Letras, com tradução de Modesto Carone.

Joseph K. é detido certa manhã sem saber o motivo. Assim como outro personagem de Kafka, Gregor Samsa – que depois de acordar viu que se transformara em um inseto, no texto mais famoso do autor, A metamorfose –, o absurdo da nossa existência pode se manifestar de uma hora para outra. Nesse momento precisamos enfrentar o que não se pode enfrentar: Samsa, a família; Joseph K., a burocracia da justiça.

O anti-herói do romance tenta se defender das acusações (não ficam bem claras quais são), assim como não encontra as pessoas certas que podem dar solução para o caso. Percorre um estranho tribunal com portas que dão a lugares imprevisíveis e corredores com tetos baixíssimos, cuja descrição causa uma sensação de angústia no leitor.

 

RELER – Várias interpretações podem ser dadas à história de Joseph K. Em um ensaio publicado em O mito de Sísifo, Albert Camus afirma que “a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler. Seus desenlaces, ou suas faltas de desenlace, sugerem explicações, mas que não são reveladas com clareza e exigem, para nos parecerem fundadas, que a história seja relida sob um novo ângulo”.

O crítico Erich Heller, por sua vez, é categórico: “Existe apenas um meio de evitar o trabalho de interpretar O processo: não ler o livro”, pois “a compulsão para interpretar é insuportável e tão grande como, para a maioria dos leitores, a dificuldade de abandonar a leitura: trata-se de pressões idênticas”. Já um dos maiores críticos contemporâneos, George Steiner, é categórico: “A idéia de que possa haver algo de novo a dizer sobre O processo de Franz Kafka é implausível”.

 

Vivemos em um mundo cristão e em um mundo kafkiano. Em ambos, a culpa atormenta, fere, impede que tenhamos liberdade. Se não cumprimos as regras, sofremos logo um julgamento, muitas vezes incompreensível como o sofrido por Joseph K. Será que nossa vida, tão absurda como a ficção de Kafka, não foi escrita por ele mesmo?

 

*Cassionei Niches Petry é professor. Além de escrever quinzenalmente o Traçando Livros para o Mix, escreve no blog www.cassionei.blogspot.com. Está triste com a morte de Moacyr Scliar, outro admirador de Kafka.

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