Aparecimento de tablets e e-books não intimidou um aumento do número de lojas

Texto de Augusto Gomes e Guss de Lucca publicado originalmente no Último Segundo

Foto: Getty Images / Loja da Borders no última dia de funcionamento: "Fechando - Tudo precisa ser vendido!", diz a vitrine

Os e-books e os tablets vão matar o livro em papel e, por consequência, fazer sangrar o mercado de livrarias? Nos Estados Unidos, o cenário é preocupante. A Barnes & Noble, maior rede do país, enfrenta queda nas vendas nos últimos dois anos. A condição da Borders, a segunda colocada, é ainda pior: com prejuízos insustentáveis, pediu concordata e terá de fechar pelo menos um terço de suas lojas. No Brasil, no entanto, a situação é diferente. Um levantamento da Associação Nacional das Livrarias (ANL) a ser divulgado nas próximas semanas comprova: o setor cresceu em 2010 em comparação com 2009.

“Para as grandes redes, o momento está muito bom”, afirma Ednilson Xavier, vice-presidente da ANL. “Já as pequenas e médias livrarias estão sobrevivendo, somente”. Segundo ele, a explicação está no bom momento econômico pelo qual o Brasil passa. “Nosso país tem uma classe C se expandindo financeiramente e com o tempo, acredito, irá consumir mais cultura”, aponta Jorge Saraiva Neto, membro do conselho de administração da Saraiva, maior rede de livrarias do Brasil.

Na última década, o índice de leitura no Brasil aumentou 150%, passando de 1,8 livro por ano para 4,7. É o que revela pesquisa feita pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a pedido da Câmara Brasileira do Livro e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, e divulgada no ano passado. Apesar do aumento significativo, o número ainda é bem pequeno se comparado ao de outros países – um levantamento das Nações Unidas sobre leitura e compreensão de textos colocou o Brasil na 47ª posição entre as 52 nações pesquisadas.

Pedro Herz, da Livraria Cultura / Foto: Claudio Wakahara / Divulgação

Outro diferencial do Brasil em relação aos Estados Unidos é o impacto dos livros eletrônicos, os e-books. Enquanto Mike Schatzkin, fundador da Idea Logical Company, uma das principais consultorias do mundo na área editorial, acredita que “os e-books vão matar as livrarias físicas nos próximos dez anos”, Ednilson Xavier aponta o alto valor do aparelhos de leitura como impeditivo de mudanças na realidade brasileira. “Quando o formato for mais acessível, eles serão um fator importante. Mas agora e num futuro próximo, não”, diz. Jorge Saraiva Neto concorda: “Há um consenso no mercado americano de que 50% dos livros lidos em 2014 serão digitais. Acredito que somente em 2019 isso possa ocorrer no Brasil”.

Há quem defenda que os e-books moldarão um novo cenário literário, atraindo novos leitores. Pedro Herz, presidente do conselho administrativo da Livraria Cultura, questiona essa possibilidade: “Eu não acredito. Quem não lê, certamente não lerá. Já quem lê, vai poder escolher a mídia em que quer ler”, diz. Para ele, o problema é a concorrência que o livro, não importa o formato, sofre. “Há um volume muito grande de coisas sendo oferecidas para entretenimento – jogos, cinema, música. E ninguém teve ainda a ousadia de expandir o dia. Ele continua apenas com 24 horas”, brinca.

Na tentativa de se adaptar a esse novo mundo, as livrarias brasileiras estão diversificando sua área de atuação. Em 2009, 53% já vendiam CDs e DVDs e 24% comercializavam material de informática e eletrônicos. Em seu site, a Saraiva vende até pacotes de viagem.

Mas a internet é fundamental também para as lojas físicas. Na Cultura, as vendas virtuais correspondem a 18% do total comercializado pela empresa, colocando o site em segundo lugar na escala de “lojas” da rede, atrás apenas da unidade do Conjunto Nacional, em São Paulo. No caso da Saraiva esse número é ainda maior: 37% da receita é de responsabilidade do site.

Usados e arquitetura

No mercado de livros usados, a internet já representa mais da metade dos negócios efetuados em sebos brasileiros. O dado é fornecido por André Garcia, criador do Estante Virtual, site que reúne mais de 1800 sebos espalhados por todo o país. “Nunca vendemos tantos livros quanto agora. As vendas estão batendo recordes em fevereiro – uma média de oito mil livros por dia, volume que já supera grandes livrarias online”, explica.

E se as compras crescem, o espaço para arquivar as novas obras continua presente nos projetos desenvolvidos por escritórios de arquitetura. “Acho que não aconteceu ainda de fazer casas para clientes que não se preocupam mais com obras físicas. Estamos trabalhando num apartamento cujo proprietário tem 4 mil livros”, comentou Marcelo Ferraz, da Brasil Arquitetura.

“Notamos que o que perdeu espaço é a questão das coleções de CDs, mas não de livros. Hoje é muito comum encontrar pessoas que não compram CDs e muito raro alguém que deixou de comprar livros”, afirma a arquiteta Fernanda Barbara, da Una Arquitetos. “Nos projetos que planejamos, nunca apareceu essa questão. As estantes continuam em alta.”

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