Escrito por Luis Fernando Verissimo, em O Estado de S.Paulo

Eu brincava com o Moacyr Scliar e dizia que ele era a vergonha da classe literária: um escritor que não bebia. Ou, pior, só bebia Malzbier. Ele também tinha horror a peixe, contava com muito humor seu martírio diante de sushis e sashimis quando visitou o Japão. Viajamos juntos algumas vezes mas ele me ganhava em matéria de trotear pelo globo. Certa vez nos encontramos em Carlos Barbosa, no interior do Rio Grande do Sul, mas foi um encontro muito rápido, ele estava indo dali a minutos para Tocantins! O Moacir vivia assim, de Carlos Barbosa para Tocantins com escalas em Nova York e Paris, sem perder os chás da Academia nas quintas. Eu invejava seu talento e sua estampa de príncipe russo mas invejava, acima de tudo, suas milhas acumuladas.

Era uma pessoa extremamente generosa e solidária. Quando um leitor me chamou de antissemita no jornal, o primeiro telefonema que recebi foi do Moacyr dizendo para não dar bola, ele mesmo já tinha sido chamado de antissemita várias vezes pela sua posição no conflito de Israel com os palestinos. Sua preocupação com saúde pública e com a questão social vinha dos seus tempos de estudante de medicina e se refletiu desde o começo na sua obra literária. Que nunca foi panfletária mas sim encharcada de humanismo e compaixão – mesmo quando tratava de personagens em guerra com o mundo. Nenhum outro escritor brasileiro que me ocorra dominou, como o Moacyr, aquela estreita faixa da imaginação entre o cômico e o trágico também frequentada por Kafka, Vonnegut e alguns poucos outros. E ele foi o único praticante, no Brasil, do melhor humor judaico, com suas narrativas urbanas e modernas que nunca deixavam de evocar arquétipos e mitos antigos, como se dispensadas por um xamã tribal num bar do Bonfim, o bairro judeu de Porto Alegre.

Sua obra foi extensa, mas meus Scliars favoritos são A Guerra no Bonfim, O Exército de Um Homem Só e Os Voluntários, talvez por serem dos seus primeiros livros, os que revelaram sua originalidade. Nos enchíamos de orgulho, um pouco por bairrismo gaúcho e muito pela nossa velha amizade, sempre que em qualquer livraria da Europa ou dos Estados Unidos víamos os livros traduzidos do Moacyr numa prateleira. Os livros, pelo menos, vão continuar a andar pelo mundo.

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