Publicada originalmente por Silas Escalione, em O Estado de Minas

Uma estudante de direito carrega pilhas de livros, pega um coletivo e se dirige à faculdade. No trajeto, nenhuma boa alma se oferece para segurar seu material. Quando ela consegue se sentar é quase impossível aproveitar o tempo livre para ler um pouquinho: afinal, no “balanço do busão”, cada curva é uma aventura para vencer as páginas.

Foi assim, há 10 anos, com a advogada mineira Raquel Ferreira. Leitora compulsiva, ela tinha que escolher o que levar para a universidade. As compilações legais foram a alternativa. Poderia ser diferente se ela tivesse em mãos, na época, um e-reader. Na leveza do leitor de livros eletrônicos é possível carregar uma biblioteca inteira. Isso Raquel descobriu há dois meses, quando adquiriu o seu aparelho. Em uma verdadeira lua de mel com o dispositivo, o Informátic@ a encontrou curtindo a leitura dentro de um ônibus, já de volta para casa. No bate-papo durante o trajeto, a advogada contou que comprou o aparelho por US$ 350 (com impostos) em uma viagem aos Estados Unidos, sem nem mesmo conhecer todo o seu potencial.

Não apenas livros, mas principalmente arquivos de estudo e material de trabalho integram a biblioteca virtual de Raquel, que, no entanto, reclama que os livros digitais ainda são caros no Brasil. “A diferença de preços entre os impressos e os digitais ainda é pequena. Por isso, por enquanto baixo somente obras de domínio público disponíveis em bibliotecas virtuais e códigos de lei”, explica. Seu e-reader Daily Edition, da Sony, é compatível com documentos do Office, PDFs e e-Pubs (abreviação de publicações eletrônicas), padrão internacional de e-books. “No aparelho não sinto o mesmo cansaço da leitura no PC. Posso ficar horas lendo. Mas ainda assim o livro impresso tem aquela sensação única de folhear as páginas, do cheirinho… Acredito que cada um tem o seu lugar. Gosto dos dois”, afirma a advogada.

Bruno Henrique é cliente assíduo da Amazon. Para ele, editoras estrangeiras estão anos luz à frente das nacionais (Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )

Maior incentivo à leitura
Desde julho do ano passado, o administrador mineiro Bruno Henrique Viana (foto) também desfruta das vantagens de um e-reader. Com seu Kindle Wi-Fi, ele conta que compra, em média, quatro livros por mês na Amazon. “Só adquiro obras em inglês, muitas da área profissional e alguns romances. Com ele, passei a ler mais. Também entro em sites de notícias e acompanho as principais novidades”, detalha. Vinte dias depois de adquirir seu equipamento, o administrador comprou um iPad.

Comparando a leitura nos aparelhos ele afirma: “O iPad me cansa, eu não consigo ficar atento à tela por muito tempo. Com o Kindle, eu leio a noite inteira”. Questionado sobre a necessidade de ter somente um dos gadgets, a dúvida diminui. “Acho que escolheria o iPad, porque tem muitas outras funções. Mas, pelo recurso financeiro, o Kindle é um ótima pedida.”

Dentre as peripécias de seu Kindle, ele destaca o fato de poder sublinhar trechos do livro e mandar diretamente para as redes sociais. “É tão perfeito que o tempo de virar a página apertando o botão é o mesmo que se gasta em um livro físico. As editoras brasileiras ficam tentando lançar um e-reader. Por que não comercializam o que já existe de uma vez? Os aparelhos criados ficam mais caros e muitas vezes se revelam uma porcaria. Cobrar R$ 800 num e-reader nacional é querer dar um tapa na sua cara”, ressalta.

Numa ida a um shopping, ele conta que viu uma obra em uma livraria no valor de US$ 49. Imediatamente procurou sua versão digital, que saiu por US$ 3,99. “Demora 30 segundos para baixar um livro. Você cria uma conta e o seu cartão fica ‘linkado’ ao seu cadastro. Você acha o que quer, é só clicar em comprar para receber um e-mail de confirmação”, explica o administrador.

A falta de livros em português na Amazon não chega a ser um problema para ele, mas mesmo assim já entrou em contato com um escritor brasileiro para saber a causa da ausência da versão digital de uma de suas obras. Segundo Bruno, o autor respondeu que queria fazer essa convergência, mas a empresa (detentora da obra) não autorizava. “Você consegue ler Harry Potter em português de Portugal, mas não na nossa língua, porque as editoras não permitem a venda”, ironiza. Na opinião dele, as editoras brasileiras estão anos-luz atrás das norte-americanas. “Elas têm que aprender que é com o volume (de livros eletrônicos) que se ganha”, afirma.

Popularização virá com mais conteúdo
Com o lançamento do iPad no ano passado, a corrida pelo mercado de livros digitais foi intensificada. A Livraria Cultura, que tem cerca de 3 milhões de títulos impressos, também resolveu apostar no mercado virtual. Ela disponibiliza 2 mil e-books em português e, em contrapartida, oferece uma média de 140 mil títulos em inglês. Mauro Widman, coordenador da equipe de e-books da livraria, conta que a entrada no novo mercado não afetou as vendas dos livros impressos. “Não chega a 1% o faturamento pela venda de e-books. Ainda não é expressivo. Mas a cada dois meses ele tem dobrado. As vendas de janeiro, por exemplo, equivaleram às dos cinco primeiros meses do negócio”, explica.

Para ele, é necessário duas abordagens para incentivar a popularização dos livros eletrônicos entre os brasileiros. A primeira seria oferecer um maior acervo em português e a segunda, tornar o preço dos equipamentos mais acessível. “Tem que ter conteúdo e o dispositivo para ler. Cada vez que aumentamos o acervo de livros em português, aumentam bastante as vendas”, completa. O fundador da Gato Sabido acredita que, neste caso, o ovo nasceu antes da galinha. “Ninguém vai comprar leitores digitais sem ter títulos em português disponíveis na rede”, enfatiza Duda Ernanny.

Em geral, os livros eletrônicos têm valor inferior ao impresso. Segundo Mauro Widman, os e-books chegam a ser entre 15% e 20% mais baratos do que as obras físicas na Livraria Cultura. A versão de A cabana sai por R$ 16,99, enquanto o impresso custa R$ 24,90. O título 1822 sai por R$ 32,90 em sua edição eletrônica e por R$ 44,90 em seu formato físico.

Na Livraria Saraiva, que também entrou na onda digital e tem 2,1 mil livros em português, o e-book é taxado a 70% do preço da versão impressa do mesmo conteúdo, de acordo com Deric Degasperi Guilhen, diretor de produtos digitais. “O preço médio do livro eletrônico gira em torno de R$ 20, para uma obra digital de interesse geral, e R$ 30 se o livro for de conteúdo técnico”, explica. Mas ele pondera que a regra não é incontestável: “Há ocasiões em que o valor da versão digital deve ser menor que os 70% do impresso, bem como há casos em que o conteúdo sob o suporte eletrônico pode ser mais caro que o livro impresso, graças às capacidades de interatividade”, complementa.

Endereços recomendados

www.gatosabido.com.br

www.livrariacultura.com.br

www.livrariasaraiva.com.br/livros-digitais

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