Publicado originalmente em O Globo

Apenas quatro anos depois de lançar uma “História da literatura brasileira” em 550 páginas, o escritor Carlos Nejar manda para as livrarias uma nova versão da obra com a extensão duplicada (1.104 páginas, coedição LeYa e Fundação Biblioteca Nacional, R$ 99) por revisões e acréscimos que se estenderam por todos os períodos estudados, mas principalmente pela produção da segunda metade do século passado.

O livro mantém no entanto a matriz entre o romântico e o impressionista do anterior, caracterizada pelo centramento no talento individual e pelo tom de comoção nas análises. Nesta entrevista, Nejar falou ao GLOBO sobre a obra.

 

O senhor abre em seu livro um espaço considerável para todo um período entre o romantismo e o modernismo que os próprios modernistas, em seu esforço de afirmação, reduziram artificialmente a um momento de cultivo do beletrismo. Essa recuperação está na opinião do senhor já devidamente realizada nos estudos de nossa literatura?

NEJAR: Você disse bem: período que os modernistas reduziram “artificialmente” a um instante de beletrismo. E por achar que foi artificial, mais política, midiática e demolidora do que verdadeira essa redução, reposicionei cânones e corrigi injustiças, buscando a revisão de autores soterrados pelo “terremoto” do Movimento de 22. Um deles é Olavo Bilac, que teve o fogo explosivo da criação capaz de imortalizar-se em vários poemas, ou Raimundo Correia, que saltou da forma para a meditação das coisas ou da alma humana, e a fulgurante escrita de Cruz e Souza ou Alphonsus de Guimaraens, ou mesmo o gaúcho esquecido, que é Eduardo Guimarães, que se tornaram perenes, acima das escolas, na casa comum da linguagem. A valorização de Lima Barreto, João do Rio, Sousândrade e dos simbolistas vem ocorrendo, aos poucos.

A seção sobre autores da segunda metade do século XX foi a que mais cresceu nessa nova edição de seu livro. Ao debruçar-se sobre essa produção, o senhor pôde perceber eixos temáticos ou formais que permitam identificar agrupamentos bem definidos, ou há nesse período uma dispersão maior dos escritores?

NEJAR: Na produção mais atual vigora a percepção de Eliot, quando adverte: “Nenhum poeta, nenhum artista, tem sua significação completa sozinho. Seu significado e apreciação que dele fazemos constituem a apreciação de sua relação com os poetas e artistas mortos”. Percebo, no entanto, duas correntes visíveis. Uma que é humanista, onde a linguagem se mune de uma dimensão mais generosa ou construtora do mundo, ainda que com certo humor ou ironia, como João Ubaldo Ribeiro, Samuel Rawet, Moacyr Scliar, Ignácio Loyola Brandão , Márcio Souza, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Teles, João Antônio, Nélida Piñon, Roberto Drummond, Ana Maria Machado, Carlos Heitor Cony, Deonísio da Silva, Raimundo Carrero, Luiz Antônio de Assis Brasil, João Gilberto Noll, Silviano Santiago, Raduan Nassar, Vicente Cecim, entre outros. Sem falar na poesia de um Manoel de Barros, Ferreira Gullar , Lêdo Ivo, Ivan Junqueira, Dantas Mota, Marly de Oliveira, Alberto da Costa e Silva, José Godoy Garcia, Alberto da Cunha Mello, Bruno Tolentino… A outra corrente vem de poderosos criadores como Nelson Rodrigues, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Essa corrente influenciou tematicamente toda uma geração de autores voltados aos temas contundentes, obsessivos, escatológicos ou delituosos (do crime sem castigo), reveladores de um lado insone, terrível da condição humana. Respeitando as opções divergentes, penso com Elias Canetti que é preciso “resistir aos arautos do nada”.

Que outros trabalhos de história da literatura brasileira o senhor considera os mais relevantes, e que singularidades enxerga na comparação entre o seu e os outros?

Há várias histórias da literatura, todas concisas. Como Antonio Candido que se limitou à formação do Brasil e ao estudo de alguns companheiros de geração, como Oswald de Andrade e Guimarães Rosa. Ou “De Anchieta e Euclides”, de José Guilherme Merquior, grande vulto que a ABL homenageará este ano, ou a excelente de Alfredo Bosi, a de Luciana Picchio, a de Massaud Moisés, as provocantes “Dimensões I, II e III”, de Eduardo Portella, ou do notável Afrânio Coutinho, cuja “História” foi a soma variada de especialistas. Sem entrar nos méritos de cada uma delas, a maioria foi breve, geral, sem a abrangência e o desenho dos traços individuais da minha “História”, onde busquei interpretar a criação de ontem e hoje, de forma pessoal. Com um olhar amoroso e independente, aliado à experiência no ofício de leitor, poeta, ficcionista e ensaísta, como invenção de linguagem. Tendo a percepção de que no ensino da universidade e nas escolas, pouco é vislumbrado a respeito dos contemporâneos. E é preciso trazê-los, mais e mais, ao conhecimento de todos.

Histórias de literaturas nacionais levantam sempre, mesmo que de modo indireto, um questionamento sobre a maneira como a própria nação é figurada na produção literária. De que maneira se transformou ao longo desses séculos, a importância e o significado da figuração nacional produzida no Brasil?

O que nos trouxe uma identidade nacional não foi apenas o fator político, mas o cultural, sobretudo o literário. Na Colônia, os criadores, ao exaltarem a beleza da natureza ou a riqueza da terra, ou mesmo ao mostrarem o ufanismo, celebravam apenas um apêndice de Portugal, a metrópole. No primeiro romantismo, a partir da Independência, o Brasil passou a ser o centro e o foco da criatividade, ora na descrição exuberante de seu habitante, o índio (Gonçalves Dias, José de Alencar), ora no sentimento amoroso da terra ( o exemplo é “a canção do exílio” ). No segundo romantismo , esta identidade ampliou-se na busca de uma liberdade maior de seu povo (o negro) , que era cativo, desfazendo-se as amarras, através do cantar de um Castro Alves ( “As espumas flutuantes”) e a luta de Nabuco e outros, até a abolição da escravatura. No parnasianismo, a identidade nacional na literatura tem maior desdobramento, mesmo que na maior parte em forma brônzea , com influência da Grécia, mas a respiração nacional é ora a celebração do desbravar do território com os bandeirantes, entre eles, “Fernão Dias Paes Leme” , ora “a fé e orgulho” de pertencer a esta nação, tão bem expressa em célebre soneto. O Simbolismo tomou uma identidade mais para dentro, para o íntimo da nacionalidade, o desenvolver da espiritualidade, certo esoterismo, a invenção de signos, a redescoberta da alma, com grande liberdade rítmica. No Modernismo, passou-se a pensar o Brasil à feição de personagem literário, como “Macunaíma” (Mário de Andrade), uma língua brasileira, com uma identidade central, com muitas identidades e vozes regionais ( “Cobra Norato”, de Raul Bopp ; ” Martim Cererê”, de Cassiano Ricardo; “Poemas de Bilu” , Augusto Meyer; “O romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles; “A Invenção de Orfeu”, de Jorge de Lima; todo o romance de trinta, marcadamente regionalista). É um Brasil que se reinventa pela palavra de seus escritores, ocupando a cultura lugar de vanguarda, nos vários ramos – da música, da pintura , da escultura para a poesia, a ficção e o ensaio. Onde se vislumbra nas ” raízes do Brasil” (Sérgio Buarque de Holanda), os “bandeirantes e pioneiros” ( Vianna Moog) e a análise sociológica das origens, em “Casa Grande e Senzala “( Gilberto Freyre). Por sua vez, a Geração de 45 , buscou posicionar o Brasil num plano mais abstrato, voltando-se para o classicismo e a criação metafísica , o que inocorreu, com João Cabral que não abandonou o regional, seu Pernambuco. E ao fugir para a “aldeia”, chegou tolstianamente ao universal de ” Morte e vida Severina”. Depois, a partir de 1960, com a Fundação de Brasília, há um construtivismo com o movimento-Concreto, buscando o espaço branco, ou poema-objeto sem a viva fusão dos vocábulos, com um país sem rosto humano. Mas ainda bem, surgiu após um Brasil novo, amadurecido, que sai do regional, Sertão dos Gerais para uma visão cosmológica, o Brasil simbólico, o Brasil no mundo, entre o bem e o mal, a história e o mito, com o inventor Guimarães Rosa e seu ( nosso) “Grande Sertão: Veredas”. E é ladeado por outro vulto, a epifania de Clarice Lispector, que penetra cada vez mais dentro de um Brasil de profunda paixão no silêncio. Hoje, por fim, temos uma figuração literária nacional múltipla, riquíssima, Uma árvore de brasis. É o mágico de um J. Veiga ou Scliar, ou o grotesco e prodigioso de João Ubaldo Ribeiro, ou o épico de Nélida Piñon ou o crítico, satírico de Loyola Brandão, com o também picaresco, Márcio Souza, entre outros. É um Continente que se identifica pela pluralidade.

 

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