Originalmente publicado na Livraria da Folha

No anúncio nos jornais, ele promete exterminar paixões proibidas e assina sob o pseudônimo de Unhas. Assim, tem clientela e novas missões. Um bispo quer dar fim em uma freira, um homem manda matar a empregada para ficar com a filha dela, um irmão incestuoso quer fazer desaparecer a irmã drogada. Unhas seleciona os casos. Só os mais curiosos interessam. Afinal, ele não é um reles matador de aluguel, um criminoso comum, mas alguém que faz um favor à vítima, liberando-a da falsidade e do sofrimento dessa vida.

A história do exterminador de paixões proibidas tem o curto nome de “Unhas” (LeYa), no romance de Paulo Wainberg. No livro, Unhas encontra nos ouvidos de sua mais recente vítima alguém a quem confessar suas memórias, seus crimes perfeitos. “Jamais contei essas coisas. Você pode se considerar uma privilegiada, meu bem”. Depois de ouvir tais horrores, a adolescente Elisa sabia que não escaparia dali com vida. Mas havia uma coisa que ela precisava descobrir: quem, afinal, teria encomendado sua morte? E por quê?

Unhas amava apenas pés bem cuidados, simétricos, tratados pelas mãos hábeis de uma pedicura. Por isso, pensa em seu trabalho como o de um profissional concentrado em extirpar cirurgicamente aquela unha encravada que destoa do resto. Quando não está em planejamento ou ação, ele assume a identidade oficial, um disfarce de metódico contabilista que vive na rotina dos números. “Você não pode ter ideia de como é chata a vida de um contador, por tanto, não me censure”, diz ele, em monólogo, à Elisa.

Tudo em uma única dose embriagadora. A cada novo caso, Unhas vive a experiência do prazer supremo. A revelação desse novo destino veio-lhe assim, de repente, lendo romances policiais antigos, escritos por autores norte-americanos. “Qual um super-herói de quadrinhos, estabeleci uma segunda e secreta identidade”. Com os romances policiais, aprendeu técnicas, padrões de atuação e truques eficientes. E até aquele momento, seu lema tinha dado certo: risco zero para ele, total satisfação para o cliente, sem dor para a vítima.

Para saber quem é seu algoz, Elisa obriga-se a escutar as memórias de Unhas até o ponto em que ele, finalmente, chega ao seu caso. Então, depois de tal revelação, a garota já não sente mesmo gosto de viver. O exterminador, por seu lado, desfruta: outro crime perfeito para encasquetar a polícia. Cobrava, claro, pelas mortes. Mas, só para dar um toque profissional. O que os clientes não sabem é que ele faria tudo de graça, com o mesmo empenho, apenas para sentir o prazer total. Como agora, nesse fim de caso de Elisa.

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