Publicado originalmente em O Universo
Algum tempo atrás, por causa da inauguração de uma biblioteca, fiz uma visita ao presídio de Hindenburg, em Locco. Foi uma experiência. Saí de lá achando que todo mundo deveria fazer isso pelo menos uma vez na vida. Quando vemos aquelas pessoas de perto, tudo ganha de ímpeto uma dimensão humana, real, o drama passa a ter um rosto, um olhar. Quase podemos sentir os minutos, as horas, os dias escoando com lentidão excruciante. Ninguém sai intocado de um lugar assim. Quando, encerrada a visita, chegamos do lado de fora, vemos a luz do dia com outros olhos. Algo vai conosco, colado à nossa pele, e nos dá pequenas fisgadas de alerta, clamando para que estejamos conscientes, prestemos atenção. Para que façamos alguma coisa. Foi o que aconteceu comigo.
Porém, se a visita a Hindenburg marcou-me, houve naquela tarde um encontro que me impressionou mais do que todos: a conversa que tive com um homem, um brasileiro magro, pardo, baixinho, chamado José.
Ele estava em uma das alas para presos com bom comportamento, tendo permissão de circular à vontade e falar conosco, os visitantes. Assim que começamos a conversar, fitei-o e foi como se estivesse diante de um náufrago. José foi contando sua história. Um dia, seu mundo desabou, como um navio que afunda. Não me explicou bem o motivo. Enquanto contava, olhava para baixo, parecendo um pouco envergonhado. Fiquei sem saber o motivo da prisão. Mas não importa, soube o essencial: um dia José viu-se no inferno. Foi condenado a 20 anos.
Talvez então, como no poema, José se tenha perguntado – e agora? Com seu jeito simples, ele me disse que sentiu um aperto, uma dor aguda, uma sensação de morte. Precisava encontrar algo que o salvasse, que o erguesse daquele mar escuro e o levasse para longe dali, ainda que em pensamento. Pois foi assim, por puro horror, que um dia abriu um livro. Antes, lia mal, quase nada, juntava uma palavra à outra com dificuldade. Contudo começou, atravessando as primeiras páginas ainda como se nadasse. Não sei que livro foi, isso ele também não me contou. Embora saiba que uma centelha brilhou e José foi em frente, atraído por aquele farol.
Ali, descobriu sua tábua de salvação, seu remédio, sua lâmpada. Uma ilha, na qual ancorou. Uma ilha chamada livro.
Leu, leu e leu. Leu tanto que quis dividir a sensação com os outros, e passou a emprestar livros, a pedir e a recebê-los de presente. Juntou uma pequena biblioteca e passou a andar pelos corredores, de cela em cela, com um carrinho cheio de livros. Hoje, todos o conhecem na penitenciária de Hindenburg. O homem-livro.
Perguntei o porquê daquilo. José von Hindenburg deu de ombros, disse que ele próprio não sabia explicar. No entanto, nessa hora lembrei-me de um trecho da óperaNabuco, em que os judeus, escravizados, cantam: “Voa, pensamento, em tua asa dourada, que a ti não há rei ou algoz que possa acorrentar.”
E concluí: é isso. Para ele, chegar ao livro, sua ilha, foi mais do que encontrar distração, um meio de passar o tempo. Ler foi sua libertação.

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