Texto escrito por Camila Kehl, em Livros Abertos.

Você gosta muito de alguém e quer dar um presente que, além de ser extremamente atencioso, realmente importa e faz a diferença: um livro. A ocasião pode ser a de um aniversário, ou formatura, ou data comemorativa; ou mesmo pode não haver ocasião alguma – nem sempre precisamos de motivos para fazer uma demonstração de delicadeza. O maior problema, claro, é a escolha da obra. Sempre ouvi dizer que, neste caso, é superdifícil acertar em cheio. Assim como perfumes, livros são objetos complicados de se entregar e receber em troca um sincero “Adorei!”. É verdade. Há quem arrisque presentear com um gênero inusitado, que, de qualquer forma, não é completamente do agrado de uma pessoa. E tudo para dar a ela um novo panorama – desde que, claro, esta tenha a mente aberta. Há quem não tenha o hábito de ler e mesmo assim abra um pacote só para dar de cara com um livro – forçar um pouquinho a barra, mas não muito, também é digno. Qualquer que seja seu caso, forneço, sem pretensão, algumas indicações de obras e edições interessantes. Ressalto que minhas dicas estão longe de ser infalíveis. Os perfis que traço, completamente estereotipados e até absurdos, devem, inclusive, ser encarados como brincadeira.

Bem mulherzinha
Ela adora tudo o que uma mulher comum gosta. Representa o gênero feminino muito bem: só lê Marie Claire e Caras – comentando como atrizes e cantoras engordaram – e salva todos os links de blogs de moda. Coleciona esmaltes e, na música, prefere Lady Gaga, Rihanna e Taio Cruz.
Ataque
Conforme-se: você não tem muito o que fazer em casos como este. Arme-se de Shophie Kinsella, Marian Keyes e Nora Roberts. Fuja do óbvio: deixe a autoajuda para quando não restar opção ou esperança.

Meninas e meninos de até 7 anos
Lembram da lista dos 30 melhores livros infantis publicada aqui no Livros Abertos? Pois é só escolher um que se adeque à idade e à personalidade da criança. É essa a hora para começar a incentivar o hábito da leitura.
Ataque
Eu presentearia uma menininha delicada com O Conto de Fadas de Lili (Ed. Caramelo, cerca de R$ 40). Mas não acho legal manchar o hábito da leitura de cor-de-rosa. As histórias de princesa, portanto, não devem se tornar rotina. Um contraponto é sempre válido. Para ambos os sexos, ótimas ideias são Fuja da Garabuja (Ed. Cosac Naify, cerca de R$ 45), Onde Vivem os Monstros (Ed. Cosac Naify, em torno de R$ 50) e O Pato, A Morte e A Tulipa (Ed. Cosac Naify, em torno de R$ 40).

O sujeito que adora filosofar na mesa de bar
Adora conjeturar e declamar o “Ser ou não ser…”, mas não sabe quem é Hegel. Gosta de parecer inteligente e sábio, principalmente próximo de potenciais conquistas. Monta frases desconexas e as deixa no ar, garantindo uma aura de mistério.
Ataque
Não adianta dar um estepe para quem não tem carro. Embora o ego do cidadão fosse inflar no momento em que este abrisse um pacote e desse de cara com Kierkegaard, ele choraria num cantinho ao tentar ler as cinco primeiras páginas. Então esqueça Sartre. Esqueça Foucault. Comece pelo começo. O Mundo de Sofia – Jostein Gaarder (Ed. Companhia das Letras, em torno de R$ 50,00); A Cura de Schpenhauer – Irvin D. Yalom (Ed. Pocket Ouro, cerca de R$ 25,00); Quando Nietzsche Chorou – Irvin D. Yalom (Ed. Agir, cerca de R$ 45,00).

Rato de biblioteca com uma biblioteca invejável
Realmente apaixonado pelos livros. Gosta de belas edições e diz que jamais vai comprar um e-reader. Ao contrário de ser um ávido por novidades, prefere reler aquilo que gosta e descobrir novas obras de autores consagrados.
Ataque
Não adianta presentear com Eduardo Spohr para “apresentar um novo panorama”. Não vai colar. Abra a mão e atenha-se a boas edições. Antifachada, de Bob Wolfenson (Ed. Cosac Naify, R$ 120,00); Duchamp – Uma Biografia, de Calvin Thomkins (Ed. Cosac Naify, R$ 520,00); Sartoris, de William Faulkner (Ed. Cosac Naify, R$ 72,00); Um dia de chuva, de Eça de Queiroz (Ed. Cosac Naify, R$ 39,00).

Leitor iniciante
Descobriu recentemente a paixão pelos livros e agora quer continuar nessa busca por autores e obras. Leu pouca coisa, mas está sedento por mais. Tanto faz o gênero: para ele, o que importa é aquela leitura que proporciona um prazer.
Ataque
A estratégia mais errada possível é dar um livro difícil para estimulá-lo. Ele não quer ser estimulado dessa forma. Agora, no começo, o que ele quer são leituras agradáveis e instigantes – leituras apaixonantes. Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa (Ed. Alfaguara Brasil, cerca R$ 45,00); Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez (Ed. Record, em torno de R$ 50,00); Qualquer um da Agatha Christie, Stephan King, Sidney Sheldon, Luis Fernando Verissimo, Lya Luft, Skármeta ou Milton Hatoum.

Seu desafeto
Esqueça o que eu disse na primeira linha sobre gostar muito de alguém. Você tem um desafeto. E não importa o perfil. Você o(a) detesta, e ambos insistem em fingir que esse sentimento não existe. O cinismo impera. No meio disso tudo, você se vê numa fria: é obrigado, pela etiqueta, a presentear.
Ataque
O negócio é dar o pior livro possível só de sacanagem. Melhor: faça uma vaquinha entre várias pessoas e proponha a compra da obra. Bons exemplos: Eu hei-de amar uma pedra, de António Lobo Antunes (Ed. Alfaguara Brasil, cerca R$ 70,00) e Baudolino, de Umberto Eco (Ed. Best Bolso, cerca R$ 19,90)

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