Texto de Ariadne Araújo publicado originalmente na Folha Online

Quem lê esquece a dor, o medo e a humilhação, defende livro.

Após uma desilusão amorosa, a morte de um ente querido, uma demorada doença ou grande crise pessoal, também durante catástrofes naturais, guerras e conflitos. Os livros têm sido companheiros fiéis, ajudando milhares de pessoas a ultrapassarem tempos difíceis. Em A arte de ler ou como resistir à adversidade” (Editora 34), a pesquisadora francesa Michèle Petit conta como a leitura tem salvado, transformado e reconstruído vidas, seja na Europa, seja em pequenos lugarejos da América Latina.

No Brasil, na Argentina, na Colômbia e no México, a pesquisadora acompanhou as chamadas “experiências literárias compartilhadas”. Organizadas por mediadores culturais – professores, bibliotecários, psicólogos, artistas, escritores, editores, livreiros, trabalhadores sociais -, essas experiências literárias têm como foco justamente populações mais distantes dos livros: “crianças, adolescentes, mulheres ou homens, em geral pouco escolarizados, oriundos de ambientes pobres, marginalizados, cujas culturas são dominadas”.

Lendo em voz alta e discutindo livros juntos, essas pessoas encontram no prazer da leitura as representações e figurações simbólicas que precisam “para sair do caos, seja ele exterior ou interior”. Pois, segundo Petit, os recursos culturais de linguagem, narrativos e poéticos, são tão vitais quanto a água. E, para isso, todas as formas de literatura são válidas: os mitos e lendas, os contos, romances, poemas, teatros, diários íntimos, histórias em quadrinhos, ensaios, livros ilustrados.

Local de acolhida, a leitura proporciona um “esquecimento temporário da dor, do medo e da humilhação”. Ela é suporte “para despertar a interioridade, colocar em movimento o pensamento, relançar a atividade de simbolização, de construção de sentido e incita trocas inéditas”, diz a pesquisadora. Para realizar essa experiência, os mediadores contam com a curiosidade intelectual de homens e mulheres. Assim, na floresta amazônica, refém da guerrilha na Colômbia, Ingrid Betancourt sonhava com um luxo: um dicionário enciclopédico.

Quando lemos, damos um salto gigantesco no espaço e no tempo. A voz interior do autor faz reviver uma outra. Segundo Petit, “ler, apropriar-se dos livros é reencontrar o eco longínquo de uma voz amada na infância”. Nesse reencontro com a voz materna ou paterna, ou ainda da avó ou avô, as “palavras são bebidas como se fossem leite ou mel”. Nesse desvio de tempo, de acordo com relatos de mediadores, alguns adolescentes, ao ouvir as narrativas, “se esticam e se curvam em posição fetal, enquanto outros fecham os olhos”.

No Brasil, a pesquisadora acompanhou a experiência do projeto Cor da Letra, que forma mediadores de leituras para o trabalho em escolas públicas e privadas, hospitais, bibliotecas, centros sociais e culturais, nos bairros urbanos pobres e interior em várias regiões do país. Apesar da dificuldade em transmitir o gosto pela leitura, as pessoas têm sido tocadas pela “voz” dos livros. Nesta e em outras experiências, não se trata de fuga do real, “mas uma pausa, um intervalo necessário para curar as feridas de uma realidade demasiado dolorosa.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments