É possível educar um futuro milionário? Esse é o desafio de profissionais como Leo Abadía, que decidiu contar sua experiência de “lapidar” os filhos da “alta sociedade”

Publicado originalmente em Época Negócios

A herdeira Paris Hilton na Alemanha em fevereiro de 2011

Um aluno não pode assistir a uma aula porque tem que passar a tarde escolhendo um Hummer novo, outro espera o professor em um helicóptero, um terceiro não suporta seu professor porque suas gravatas não o agradam. Estas são algumas das peculiaridades destes alunos, filhos de ricos que em breve herdarão uma grande empresa e ainda não sabem como assumi-la.

Jovens ricas andam de barco em Monte Carlo

O futuro empresarial anda desorientado, por isso o Programa de Formação Individual (PFI) administra uma série de disciplinas voltadas para a direção de empresas, que incluem conceitos e valores éticos. Os professores utilizam “o método do caso”, que consiste em estudar e comentar um fato prático ocorrido realmente em uma empresa, se adaptando ao dia, hora e local que o aluno tem para assistir as aulas.

No entanto, não foi simples educar os alunos que passaram pelo programa ao longo de 23 anos, e no livro “Escola para Milionários” o escritor e economista Leo Abadía fala sobre essa experiência.

Os alunos

“Falta algo dentro deles, mas não sabem o que é, por isso eu lhes mostro”, assim fala Abadía sobre seus alunos, cujas idades oscilam entre os 19 e 25 anos. Os mais jovens são estudantes recém-saídos da educação fundamental e cujos pais estão desesperados por causa de sua falta de motivação. Os mais velhos são empresários que não têm tempo para comparecer a aulas ou que já passaram pelas mãos de Abadía e querem repetir.

Os requisitos para participar deste programa são claros: “Ser boa pessoa, ter dinheiro e saber ler e escrever”, assegura Abadía. Sua característica comum é a expressão de enfado que fazem na primeira vez que se encontram com seu novo mestre e o quão sós que se sentem.

No entanto, o autor do livro distingue vários tipos de alunos: filhos de empresários que foram os primeiros a passar pelo PFI, diretores de empresas, antigos alunos, desportistas de elite, atores, toureiros e gente famosa, os quais passam pelas “salas de aula” uma vez por semana durante um ano. Mas o desafio maior é também o mais novo. Os jovens são qualificados por Abadía como “os mandris”, ou seja, “parasitas da sociedade que é preciso eliminar e reeducar”.
São filhinhos de papai que não querem estudar na universidade. A formação deste perfil dura cinco anos e as aulas são diárias. “Todos os casos são excepcionais”, comenta Abadía, e não é de se estranhar. Os alunos chegam ao programa com ideias do tipo: “tenho que mudar os motores do barco”, “vou passar uma semana no Brasil para ver uma exposição de arte egípcia”, ou “hoje estarei em Lugano (Suíça), tenho que falar para o professor que vá ao aeroporto onde o espera minha secretaria, ele vem para Lugano, dá a aula e é levado de volta para Barcelona”.

Durante o curso as coisas mudam, os alunos se tornam responsáveis, se motivam e se sentem úteis, por isso o primeiro discípulo agora está à frente de 2.500 trabalhadores, outro montou uma rede de bares, há um que dirige uma empresa hoteleira, e assim segue, até os 202 alunos que passaram pelo programa e os quatro que estão se preparando atualmente.

Os pais

“Apresento a você o tutor do meu filho, ele o tirou do buraco”. Esta é a frase textual de um pai falando sobre Abadía. Os pais dos alunos, fartos da falta de motivação de seus filhos vão a Barcelona na busca de uma solução. “São grandes empresários que tiveram que escolher entre família e trabalho, e sem se dar conta optaram pelo trabalho”, diz o escritor. Quando veem que a atitude dos filhos muda surpreendentemente para melhor, ocorrem coisas realmente curiosas.

Uma delas aconteceu quando Abadía convenceu um aluno, já adulto, a organizar seu escritório. Quando a mãe viu o resultado não teve outra ideia a não ser chamar o “mestre” para pedir-lhe que convencesse seu filho a organizar o quarto também. Outras vezes os favores que pedem ao tutor são do tipo: “Convença nosso filho para que deixe essas amizades”. Por isso Abadía deve conhecer o limite “e saber dizer não”.

O sucesso do curso

“Formamos as pessoas no campo profissional, mas sobretudo no humano”, diz Abadía, assegurando que “a parte acadêmica se compra em um cursinho, um mestrado na universidade ou em uma academia, mas a humana é inculcada”.

Os 70 professores espanhóis são flexíveis e não seguem um plano como os da universidade, mas avançam conforme o aluno e se baseiam no pessoa a pessoa. Abadía fala com seus alunos três vezes por semana e se tem que tomar um café com eles, ou dois, ele é tomado e se conversa, por isso, alguns acabam se tornando grandes amigos, ao ponto de convidarem o mestre para que atravessar o Texas a cavalo. Assim, os filhinhos de papai que um dia bateram na porta de Abadía se transformam em empresários vencedores e em pessoas brilhantes.

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