Publicado originalmente por Nick Wingfield e Robert A. Guth no The Wall Street Journal

[Allen]Foto: Paul Allen e Bill Gates

Bill Gates tentou um complô para tomar ações da Microsoft Corp. de seu co-fundador nos primórdios da gigante do software, logo depois que o sócio fez um tratamento contra câncer, segundo um livro de memórias do bilionário empreendedor, Paul Allen.

A acusação é parte de um retrato mais crítico apresentado no livro sobre Gates, cuja amizade com Allen começou nas escolas particulares que frequentaram e evoluiu para uma das parcerias mais famosas do mundo dos negócios dos Estados Unidos. O livro, “Idea Man: A Memoir by the Co-founder of Microsoft” (algo como “Homem de Ideias: Memórias do Co-fundador da Microsoft”) chega às livrarias americanas dia 17 de abril. O Wall Street Journal teve acesso a um rascunho do livro e um trecho foi veiculado ontem no site da revista “Vanity Fair”.

O livro apresenta uma visão revisionista de alguns detalhes da história da Microsoft e da relação entre Gates e o ex-sócio, cujo relacionamento há muito tempo é visto como cordial, não de amizade próxima. O livro gerou um racha entre Gates e Allen, dizem pessoas que conhecem os dois. Allen cita Gates e outras 17 pessoas nos agradecimentos do livro, pela “assistência geral e logística”.

O livro é “um retrato muito equilibrado do relacionamento deles”, disse David Postman, porta-voz de Allen. “É evidente que Paul valoriza as sugestões e as ideias e a energia de Bill Gates.”

“Embora minhas lembranças de muitos desses acontecimentos possam diferir das de Paul, valorizo sua amizade e as contribuições importantes que fez ao mundo da tecnologia e à Microsoft”, disse Gates num comunicado por escrito.

O retrato negativo de Gates no livro já está repercutindo no pequeno círculo de primeiros funcionários da Microsoft, com várias pessoas que conhecem os dois manifestando confusão sobre a motivação de Allen para criticar seu velho sócio e até questionando a exatidão da interpretação de Allen para certos acontecimentos. Allen, por exemplo, se descreve em reuniões das quais pessoas a par da questão dizem que ele nunca participou. Num dos casos, Allen visita Palo Alto, na Califórnia, para tentar contratar um cientista da computação que depois se tornaria um dos programadores mais importantes da Microsoft. Pessoas a par da reunião dizem que foi Gates que visitou o homem. Postman diz não ter conhecimento de quaisquer erros no livro.

No livro, Allen se posiciona como a fagulha de muitas das ideias mais importantes da Microsoft, minimizando o papel de Gates em alguns casos. É perceptível no livro inteiro uma amargura de Allen por não ter recebido mais crédito em sua carreira e também mais ações da Microsoft.

Allen se tornou um dos homens mais ricos do mundo graças ao sucesso da Microsoft sob o comando de Gates, com a grande maioria de sua fortuna sendo criada nos anos depois que ele deixou a empresa.

“Eu me surpreendo que Paul tenha achado que expressar insatisfação com a fatia da Microsoft que ele recebeu ajudaria a marcar seu legado”, disse Carl Stock, que entrou na Microsoft em 1981 como assistente técnico de Gates e ficou duas décadas na empresa. “Embora todo mundo considere Paul um amigo e valorize sua contribuição, não há dúvida que Bill teve um impacto muito maior que Paul no crescimento e no sucesso da Microsoft.”

Boa parte do livro se concentra nos esforços filantrópicos e empreendedores de Allen desde que saiu da Microsoft quando era executivo, no início dos anos 80. Sua fatia inicial na empresa se tornou uma das maiores fortunas do mundo — ele ocupa a 57a colocação na lista de bilionários da revista “Forbes”, com uma fortuna calculada em US$ 13 bilhões —, que já financiou de tudo, da compra de vários times esportivos a sua bem-sucedida tentativa de vencer um prêmio para construir uma espaçonave reutilizável.

Na história da indústria da tecnologia, sempre há um co-fundador com papel desmedido no sucesso das empresas. Gates, Steve Jobs, da Apple Inc., e Mark Zuckerberg, do Facebook Inc., todos assistiram à partida de seus co-fundadores antes de a empresa realmente decolar. Mas a importância dessas parcerias iniciais não pode ser desmerecida, disse David Yoffie, professor da Escola de Administração de Harvard.

“Não tenho certeza se Bill teria largado Harvard não fosse por Paul”, disse Yoffie, referindo-se ao papel de Allen em incentivar Gates a deixar a faculdade para fundar a Microsoft. “Não sei se Steve Jobs teria conseguido fundar a empresa sem [Steve] Wozniak.”

Conhecidos sempre acharam que Gates e Allen tinham um relacionamento caloroso depois que Allen, de 58 anos, deixou a Microsoft. Até o próprio Allen diz que Gates foi um dos “que mais o visitou” quando ele se recuperava da quimioterapia recebida há dois anos para combater um linfoma não-Hodgkin, e o descreve como “tudo que você gostaria de ter num amigo, atencioso e preocupado”.

Mas Allen também revela no livro que sua decisão de deixar a Microsoft foi gerada em boa parte pela decepção crescente com o comportamento de Gates, que ele descreve como um chefão briguento que se chocava com o estilo humilde de Allen. Outros livros sobre a história da Microsoft atribuíram sua saída da empresa à primeira incidência de linfoma de Hodgkin.

Naquele ano, Allen diz que ouviu escondido uma discussão no escritório da Microsoft em Bellevue, no Estado americano de Washington, entre Gates e Steve Ballmer, hoje o diretor-presidente, em que os dois discutiam a falta de produtividade de Allen na época e como poderiam diluir sua participação na empresa emitindo opções para eles e outros acionistas. Allen disse que irrompeu na sala e enfrentou Gates e Ballmer, que depois pediram desculpas e recuaram do plano.

“Eu tinha ajudado a fundar a empresa e ainda era um membro ativo da diretoria, embora limitado pela doença, e agora meu sócio e meu colega estavam fazendo complô para me roubar”, diz ele no livro. “Foi oportunismo mercenário, simples assim.”

Um porta-voz da Microsoft disse que Ballmer não ia comentar.

Mas tentativas anteriores de Gates de diluir a fatia do sócio na Microsoft foram bem-sucedidas, segundo Allen. Em meados dos anos 70, quando os dois estudantes fracassados moravam no Estado do Novo México, Allen diz que Gates pediu 60% da sociedade por causa de sua contribuição maior para a criação do programa que executava a linguagem de programação Basic do primeiro PC, o MITS Altair 8800.

Allen diz que achava que a sociedade era meio a meio, mas aceitou o pedido de Gates.

Vários anos depois, quando Gates e Allen estabeleceram formalmente a sociedade da Microsoft, Gates pediu para mudar as respectivas fatias para 64 e 36, um pedido que Allen novamente aceitou. Mas no início dos anos 80 Gates recusou quando Allen pediu para aumentar sua fatia na Microsoft depois de seu trabalho num produto bem-sucedido chamado SoftCard, escreveu Allen.

Allen ficou profundamente decepcionado com a resposta de Gates, que ele conhecia desde o ensino médio, quando Allen estava no primeiro ano enquanto Gates ainda frequentava o último ano do fundamental numa prestigiosa escola particular de Seattle.

“Algo morreu para mim naquele momento”, escreveu Allen. “Eu achei que nossa sociedade se baseava na justiça, mas ali eu vi que o egoísmo de Bill passava por cima de tudo. Meu sócio partiu para agarrar a maior fatia possível e mantê-la, e isso foi algo que eu não podia aceitar.”

Allen disse que pensou: “OK… mas um dia eu largo este lugar”, diz o livro.

A tentativa de Gates de reduzir a fatia de Allen na empresa foi fruto de preocupações de que Allen não estava trabalhando duro e suficientemente comprometido com a empresa, disseram pessoas a par do relacionamento. Foi um dos motivos, dizem as pessoas, pelos quais Gates inseriu uma cláusula no primeiro contrato entre os dois que o permitia comprar a fatia de Allen se Gates achasse que havia “diferenças irreconciliáveis” entre os dois.

Allen menciona o acordo no livro, sem dizer por que Gates incluiu a cláusula.

À medida que a Microsoft cresceu, atraiu mais pessoas como Gates, que conseguiam se concentrar apenas em expandir a empresa. Elas estavam dispostas a trabalhar o dia todo, dormir no escritório e questionar as decisões técnicas e estratégicas dos outros. Allen, dizem essas pessoas, ficou cada vez mais cansado daquela vida e começou a ficar para trás do resto do grupo, dizem. Ele perdeu gradualmente o interesse em ficar na empresa. No livro, Allen diz que as brigas com Gates o cansaram. “Minha moral cada vez menor minou meu entusiasmo pelo trabalho, algo que poderia motivar o próximo ataque de Bill”, escreveu. Ele nota que Gates tentou mantê-lo na empresa.

Antes mesmo de ficar rico com a Microsoft, as pessoas que o conheceram tinham a impressão de que Allen se interessava por muito mais que comandar uma empresa de software. David Bunnell, que trabalhou no Novo México com Allen e Gates nos anos 70 na pioneira fabricante de PCs Micro Instrumentation and Telemetry Systems, mais conhecida como MITS, disse que Allen mostrava mais interesse em música e cultura que o sócio.

“Ele era mais interessado no mundo, de um modo geral”, diz Bunnell. “Bill Gates era mais centrado numa única coisa.”

 

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