Publicado originalmente por Cláudia Sarmento em O Globo

Hipnotizado pela tragédia tripla (terremoto/tsunami/radiação) que pulverizou a imagem de segurança do Japão, um grupo de blogueiros resolveu reagir, disparando um cronômetro: eles queriam ajudar as vítimas e queriam ser rápidos. O líder do time, que se identifica apenas como autor do blog “OurManInAbiko” (referência a uma cidade na província de Chiba, perto de Tóquio), pediu no Twitter textos e imagens que expressassem a dor daquele momento. O projeto foi apelidado de “#quakebook” e as histórias deveriam ter 250 palavras. “Editarei um livro em uma semana e os lucros vão para a Cruz Vermelha japonesa”, avisou o twitteiro. “Nós temos a tecnologia”, garantiu, criando no mesmo dia um site, onde postou: “Não estou procurando palavrório poético. Apenas coisas honestas”.

O homem de Abiko, um britânico que vive há quatro anos em Chiba, não estava jogando conversa fora. Sete dias depois, em mais uma prova — se e é que elas ainda são necessárias — do poder coletivo e a jato da internet, estava pronta a versão digital da antologia que carrega no título a hora em que a terra tremeu e paralisou um país: “2:46 Tremores secundários — Histórias do terremoto no Japão”. As negociações com os maiores distribuidores de e-books do planeta também correram em ritmo frenético. O livro eletrônico estará disponível nos próximos dias via Kindle, da Amazon, e Reader, da Sony, enquanto a edição impressa é finalizada.

Com a ajuda de jornalistas, intérpretes e designers espalhados pelo mundo, que só se falavam através de mídias sociais, o projeto recebeu apoio dentro e fora do país arrasado. Duzentas pessoas enviaram relatos, fotos e ilustrações. Todo o complexo processo que envolve a publicação de um livro (título, capa, direitos, distribuição e divulgação) está registrado na web.

OurManInAkibo quer continuar anônimo, para enfatizar o trabalho de grupo, mas sua voz desconhecida — multiplicada no Twitter, Facebook, Linkedin, YouTube e Flickr — seduziu gente como Yoko Ono, uma das estrelas que mandaram sua colaboração. O lucro integral do livro vai para quem viu a vida ruir desde o dia 11 de março.

Oprimeiro tweet sobre o “#quakebook” foi escrito na manhã do dia 18 de março, uma semana depois do terremoto no Japão. Os organizadores do livro impuseram a si próprios um limite para a edição final: 14h46m da sexta-feira seguinte, exatos 15 dias após a tragédia. E começaram a correr. Em 15 horas, já haviam recebido 74 colaborações, graças ao apoio do próprio Twitter, que anunciou o projeto em sua conta oficial (4,7 milhões de seguidores), assim como a artista e música japonesa Yoko Ono, outra adepta do microblog, com 1,3 milhão de seguidores.

“Desisti de esperar nosso agente literário checar email, e na verdade não sei bem o que é ou o que faz um agente literário. Mas, francamente, não tenho tempo para descobrir agora”, postou, em meio à sua corrida particular contra o tempo, o blogueiro OurManInAkibo, que já trabalhou como jornalista.

O processo de criação do livro em tempo recorde, usando somente ferramentas virtuais, talvez seja mais interessante do que o próprio conteúdo da obra, mas o “#quakebook” também é capaz de tocar quem não esqueceu a violenta sucessão de desastres no Japão — uma crise ainda não encerrada. Escritores consagrados como William Gibson e Barry Eisler, além do jornalista Jake Adelstein, autor de um best-seller sobre a máfia japonesa (“Tokyo Vice”), produziram histórias inéditas para o projeto. Vieram de pessoas comuns, no entanto, os relatos mais emocionados.

O livro é composto por 87 colaborações, entre textos e imagens. Há histórias como a de um homem de 80 anos, morador de Sendai, cidade devastada pela tsunami, que tenta manter a cabeça erguida e o ouvido grudado num rádio de pilha, e depoimentos de quem está em Fukushima, na região afetada pelos reatores nucleares descontrolados. Pessoas na Ásia, na Europa e na América do Norte responderam ao apelo no Twitter.

— Alguns poucos tweets juntaram todas as peças, participantes e especialistas, e em uma semana criamos um livro — conta o blogueiro OurManInAkibo. — Em pouco tempo estávamos negociando com os maiores distribuidores mundiais e atendendo a chamadas de jornais e TVs de cinco continentes. Sinto que estamos à beira de algo fantástico.

O livro tem um site oficial: www.quakebook.org.

 

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments