Publicado originalmente por Juliana Vines, na Folha

Pelo menos 80 mil brasileiras compraram, no último mês, um livro que promete fornecer, em uma hora de leitura, informações capazes de tornar uma mulher “mais feliz e muito mais atraente”.

Para quem quer “desencalhar” por milagre, a oferta da escritora americana Marie Forleo parece irrecusável.

“Deixe os Homens aos seus Pés” (em inglês, “Make Every Man Want You” -faça todo homem querer você), passou em março ao primeiro lugar entre os mais vendidos na categoria autoajuda.

O sucesso-relâmpago, no Brasil, teve como fada-madrinha e garota-propaganda a vencedora do “Big Brother Brasil”. Durante o programa, lendo as instruções de Forleo, ela esqueceu um pretendente e arrumou outro.

A auxiliar administrativa Teresa Cristina Rodrigues (foto), 30, foi uma das leitoras que se “iluminou” graças ao exemplo do “BBB”. Viu o programa, leu o livro e hoje diz dividir sua vida entre “antes” e “depois” dos ensinamentos de Forleo.

Teresa Cristina Rodrigues, 30, que diz ter arrumado pretendentes por causa do best-seller

“Descobri que o problema estava comigo, não com eles. Aprendi a me valorizar para conquistar novos homens. De nenhum pretendente, hoje já posso escolher. Tudo mudou.”

Com tantos livros transformadores como esse, é um mistério que ainda exista gente encalhada. Que tal “Prenda o Cara Certo ou Deixe a Fila Andar”? E “Projeto 4 Homens”, segundo o qual o segredo é sair com quatro ao mesmo tempo?

Esses títulos fazem sucesso porque não há mais comadres como antes, analisa Lidia Aratangy, terapeuta familiar e autora de “O Anel que tu me Deste” (Primavera, 204 págs., R$ 42,70).

“E ninguém mais acredita em mães e avós, dizem que as opiniões delas estão ultrapassadas. No fundo, esses livros não dizem nada além do que sua avó diria.”

Sim, o segredo da irresistibilidade não parece ser tão secreto assim. As dicas vão do “se valorize mais” a “não ligue para ele 300 vezes”.

A FÓRMULA DO AMOR

Segundo o historiador e doutor em sociologia Francisco Rüdiger, da PUC do Rio Grande do Sul, os manuais de conquista para mulheres tentam colocar regras e limites onde não existe.

“Hoje, o mercado dos relacionamentos é desregulamentado. Até o final dos anos 60, cabia ao homem tomar a iniciativa.”

Agora, não há mais critérios familiares ou religiosos que dizem quem deve casar com quem. E ninguém tem o dever de tomar a iniciativa. Em um mercado sem regras, todos procuram por um manual. É por isso que, a partir da década de 80, esses livros começaram a pipocar. Aquela mulher que estava ficando independente financeiramente queria ser também na vida amorosa.

“Esses manuais vão ao encontro do desejo da mulher em investir na sexualidade. Ela traduz esse desejo em regras”, afirma Tai Castilho, terapeuta do Instituto de Terapia Familiar de SP.

Essas regras, é certo, seriam rechaçadas por feministas, atesta a socióloga Haya Del Bel, da Universidade Federal do Mato Grosso.

Segundo Del Bel, que estudou autoajuda feminina em sua dissertação de mestrado, esses livros nada mais fazem que pintar de cor-de-rosa comportamentos do homem. “Organizem o raciocínio, não fiquem em devaneios, ocupem o espaço. Todos os conselhos são baseados na forma de conquista masculina.”

A questão é que, ao mesmo tempo em que ensinam a mulher a ser mais “macho”, ainda colocam o homem no centro, como era em 1950. Para Aratangy, isso é um retrocesso. “Parece que o objetivo de vida de uma mulher ainda é ter um homem. O que eu vou fazer com todos os homens aos meus pés? Pisar?”

DEIXE A FILA ANDAR

Segundo o psiquiatra Luiz Cuschnir, do Hospital das Clínicas de São Paulo, a mulher costuma ter uma preocupação exagerada sobre o que os outros, principalmente os homens, pensam sobre ela.

Essa preocupação, em excesso, pode atrapalhar relacionamentos. Mas, nesse caso, só um livro de autoajuda não vai resolver.

“A leitura pode inspirá-la a pensar mais sobre si mesma, mas não é válida se ela for usar como uma receita. Pode ser falso. Não adianta mudar um comportamento sem saber o porquê.”

Outro problema desses manuais são as generalizações, diz a psicanalista Malvine Zalcberg, coordenadora de terapia familiar do Hospital Universitário da UERJ. Claro, nem todo mundo se encaixa na autoajuda.

“Pode se encaixar meio torta. Ou você estará gorda demais ou velha demais, ou simplesmente não será você. Essas coisas são individuais. O que serve para sua amiga já não serve para você.”

Claudia Tajes, 47, que escreveu um livro contra obras de autoajuda

Claudia Tajes, 47, que escreveu um livro contra obras de autoajuda

A escritora e publicitária Claudia Tajes, 47, autora do romance “Louca por Homem”(L&PM, 144 págs., R$ 13), duvida que qualquer regra para conquistar dê certo.

Por isso, dá dez dicas (na verdade, nove) para desencalhar e conseguir um amor de verdade, na paródia “Dez (Quase) Amores”(L&PM).

Entre elas estão: “Colegas de trabalho podem ser uma encrenca -ou não” e “Deixe os médicos fora da sua lista” (porque é desestimulante ter um cara charmoso te examinando em vez de te abraçar).

A “antiautoajuda” diverte, mas não deixa homens aos pés de Claudia, muito menos dá dinheiro. “Se eu tivesse lido mais manuais de conquista, talvez vendesse mais livros e tivesse mais maridos.”

 

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