Texto publicado originalmente no jornal O estado de S. Paulo

Durante muito tempo se acreditou que, da mesma maneira que o Norte incendiou os campos de algodão de Tara, também as páginas datilografadas dos quatro últimos capítulos de …E o Vento Levou, de Margaret Mitchell, tinham sido queimadas, mas elas ressurgiram na Pequot, biblioteca de Southport. Esses manuscritos são relíquias e estão expostos, desde ontem, em Southport, antes de seguirem para Atlanta, cidade natal da escritora, onde integrarão as comemorações, em junho, pelos 75 anos da publicação da obra.

Esses capítulos, com frases memoráveis como “minha querida, não dou a mínima” e “afinal, amanhã é outro dia”, foram doados à Pequot nos anos 50 por George Brett Jr, presidente da Macmillan, editora dos livros de Margaret. Algumas páginas já foram expostas duas vezes na mesma biblioteca, em 1979 e 1991. Mas de acordo com Dan Snydacker, diretor executivo da biblioteca, na época ninguém deu muita atenção aos manuscritos ou reconheceu sua importância. As páginas foram guardadas e só ressurgiram por causa de Ellen F. Brown, que estava trabalhando no livro …E o Vento Levou de Margaret Mitchell: A Odisseia de Um Best-Seller de Atlanta a Hollywood, publicado em fevereiro pela Taylor Trade Publishing.

Ellen estava interessada na coleção de Brett em poder da biblioteca porque queria saber se algumas das edições estrangeiras de …E o Vento Levou, outro legado da Macmillan, tinham dedicatórias da autora para seu editor. Elas contêm, mas são muito mornas. Pelo menos durante um período, o relacionamento entre Margaret e Brett foi um tanto glacial e o porquê de Bret estar de posse do manuscrito é um mistério.

Surpreendentemente, as páginas datilografadas estão em perfeito estado, com poucas correções à mão, às vezes de um erro de datilografia, ou a adição de uma palavra. O fato de elas estarem em perfeitas condições indica o perfeccionismo da escritora e também a maneira inusitada com que …E o Vento Levou foi escrito e publicado.

Margaret trabalhou nesse romance, que antes se chamaria Amanhã É Um Outro Dia ou Carregando Um Peso Insuportável, entre 1925 e 1935. Ela escrevia em folha de papel-jornal e compôs o livro fora de ordem, começando com o último capítulo e escrevendo os outros de acordo com seu humor. E colocava os capítulos concluídos em envelopes separados nos quais, às vezes, escrevia listas de compras da mercearia, e os guardava num armário. Poucas pessoas tinham conhecimento deles.

Mas, em abril de 1935, durante uma viagem a Atlanta, Harold Latham, editor-chefe da Macmillan, viu a pilha de envelopes e os enviou a N Y para serem avaliados. Ellen Brown disse que o material estava desorganizado, com alguns capítulos perdidos e versões duplicadas de outros. Mas a editora Macmillan reagiu com entusiasmo e decidiu, com muita pressa, publicar o romance na primavera seguinte.

De agosto de 1935 a janeiro de 1936, Margaret Mitchell, com a ajuda de John Marsh, seu segundo marido, e alguns datilógrafos e estenógrafos, basicamente reescreveu e redatilografou o livro inteiro, cortando alguns trechos, aperfeiçoando outros, resolvendo as incoerências e corrigindo erros históricos. Até quase no fim desse processo, a heroína do livro era chamada de Pansy e quando Margaret mudou o nome para Scarlett, ela pagou 50 centavos a hora para todas as páginas em que o nome Pansy era citado serem redatilografadas.

Gostaríamos de ver todo aquele amontoado de folhas de papel guardadas nos envelopes, mas grande parte foi destruída pelo marido da escritora após a morte dela, em 1949, seguindo suas próprias instruções.

Margaret sempre insistiu que os livros deveriam ser julgados pela sua versão final, não pelos rascunhos, e se aborrecia com quem pedia que ela deixasse as páginas manuscritas como lembranças ou para serem exibidas numa exposição.

John Marsh também queimou, pelo menos é o que se acredita, a maior parte dos textos datilografados finais. Ele reteve dois capítulos, o 44 e o 47, os quais, junto com parte do material anterior, estão guardados num sótão em Atlanta.

Então, o que George Brett estava fazendo com os quatro últimos capítulos? Até certo ponto, parece que nem ele sabia que estava com eles. Isso ocorreu em 1936, quando escreveu para Margaret indagando se poderia ter algumas páginas manuscritas para pôr na The New York Times Book Fair. Ela retrucou, dizendo que o manuscrito jamais fora devolvido. Envergonhada, a MacMillan achou o texto num sótão, pagou um seguro de US$ 1 mil por ele e em seguida enviou o material de volta para a autora. Pelo menos é no que se acreditava até recentemente.

Dan Snydacker disse que não havia muitas explicações para o fato. Ou Bret reteve parte do manuscrito deliberadamente ou alguns capítulos ficaram separados ou Margaret pediu que ele conservasse os capítulos para ficarem seguros. “É fácil conceder a Bret o benefício da dúvida”, afirmou Joan Youngken, curador convidado da mostra da Pequot. “Se ele não os tivesse mantido de modo apropriado, não os teria entregue a uma biblioteca pública.”

Para Ellen Brown, “esses capítulos são uma dádiva. O que se sabe é que Bret e Margaret nunca tiveram uma boa relação. A escritora achava que Bret não tinha feito um bom acordo sobre os direitos do filme. E isso é verdade. Existem cartas iradas e por um tempo eles não se falavam. Mas há provas de que, no fim, tiveram uma convivência afetuosa”.

Folheando as páginas do manuscrito, na semana passada, Snydacker afirmou: “É extraordinário estarmos de posse desse material. Adoro o livro mesmo sendo imperdoavelmente racista. Ele não foi escrito nos anos 1860, mas na década de 1930, pelo amor de Deus. Sob alguns aspectos, ele demonstra simpatia para com a Ku Klux Klan. Mas apesar disso, é uma grande obra. Trata-se de um livro contrário à guerra. Como veterano do Vietnã, esse lado do livro sempre soou verdadeiro para mim e acho que é por isso que ele é tão popular na Europa”.

E acrescentou: “…E o Vento Levou é, em parte, um retrato da vida americana, e não somente o filme. Ainda hoje, cerca de 250 mil exemplares do livro são vendidos anualmente”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO



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