Publicado originalmente por Alexandra Alter no Wall Street Journal

Eis algumas coisas que você nunca encontrará num romance de Mary Higgins Clark: casais amancebados, corpos desmembrados e palavrões. Pelos padrões atuais, os livros de suspense de Clark representam um retorno à simplicidade de outrora, mais no padrão de Agatha Christie que no do material sangrento e provocante de outros autores de bestsellers como James Patterson e Stieg Larsson.

Mas Clark — que, aos 83, ainda escreve pelo menos um livro por ano — continua sendo uma marca extremamente lucrativa. Ela já vendeu 100 milhões de cópias só nos Estados Unidos. Todos os seus 42 livros se tornaram campeões de vendas. Clark é a autora mais vendida de sete selos de sua editora, a Simon & Schuster. Publicados em 34 países, seus livros vendem 3,7 milhões de cópias por ano mundialmente. A diretora-presidente da Simon & Schuster, Carolyn Reidy, diz que as vendas de Clark são tão consistentes que são incorporadas no orçamento anual da empresa.

Editores sugerem que a longevidade literária de Clark se deve à sua enorme motivação — ela recebeu 40 cartas de rejeição antes de publicar seu primeiro conto, em 1956 —, bem como sua sagacidade no marketing e cuidadoso gerenciamento de marca.

[Higgins]Aos 83 anos, Mary Higgins Clark consegue vendas tão consistentes que seus livros fazem parte do orçamento anual da editora Simon & Schuster

Clark conhece e atende muito bem a faixa da população que a consome. Ela realiza lançamentos não só em livrarias mas também em supermercados, grandes lojas atacadistas e de clubes de compras, onde costuma atrair até 500 leitores.

“Realmente viajo bastante”, disse ela numa entrevista ao Wall Street Journal em seu apartamento do 16o andar na avenida Central Park South, em Nova York, uma de suas quatro residências.

Clark, que foi secretária e comissária de bordo da Pan Am antes de deslanchar a carreira de escritora, diz que nem pensa em se aposentar. Ela e seu editor há 36 anos, Michael Korda, já começaram a discutir seu próximo livro, e ela está negociando os termos de outro contrato para escrever dois livros, diz.

Clark e sua editora enfrentam agora a questão de como manter sua marca no crepúsculo de sua carreira e, posteriormente, quando ela falecer. Clark já gerou uma briga entre seus filhos para decidir quem indicará como sucessor, uma estratégia que se mostrou lucrativa para a obra de outros autores de suspense falecidos como Robert Ludlum e Ian Fleming. Clark está aberta a estender a marca, mas seus filhos, que temem a diluição de sua obra, são contra.

“Eles não querem algo ‘Ao estilo de Mary Higgins Clark'”, diz ela. “Mas eu digo a eles: vocês são uns bobos.”

Seus filhos dizem que preferem não lucrar a degradar a marca dela. “Ou ela escreveu ou não escreveu”, diz seu filho Warren Clark, advogado e juiz de tribunal municipal.

Sua filha Carol Higgins Clark, autora de livros de mistério que também colabora com a mãe em livros natalinos, diz que tem medo de tentar sucedê-la, ou contratar alguém para fazê-lo. “Seus leitores têm um apego especial a ela”, diz. “Não dá para ter outra pessoa escrevendo para eles.”

Reidy, a diretora-presidente da Simon & Schuster, não quis opinar sobre a questão, afirmando apenas: “Não queremos nem pensar no momento em que não poderemos mais publicar Mary.”

“Quando você tem uma autora como Mary, que publica regularmente na mesma época do ano, tem um público enorme e previsível, e você sabe que todo ano vai conseguir essa grande injeção de faturamento na mesma época do ano, ela lhe dá o lucro para manter a empresa funcionando, pagar a conta de luz e não ter de demitir ninguém”, diz Reidy.

Clark se manteve no topo mesmo com a enxurrada de novos autores de suspense que chegou ao mercado recentemente, como Michael Connelly, Janet Evanovich, Harlan Coben e Lee Child, que empurraram o gênero para novos rumos. Ela continuou dominando o gênero durante a ascensão e declínio dos suspenses médicos, judiciais, de conspirações históricas e de assassinos em série. Juntos, seus livros já passaram 355 semanas na lista dos mais vendidos do jornal “The New York Times”.

Louise Burke, do Pocket Books, um selo da Simon & Schuster que vende 1 milhão de cópias por ano dos livros de Clark, diz que ela tem um radar infalível para detectar o que os leitores querem, e continua fornecendo o material ano após ano. “Muitos autores trocam de gênero ou querem tentar algo diferente, mas ela continua escrevendo o livro que os leitores esperam”, diz ela.

Clark aperfeiçoou uma fórmula que atrai uma diversidade de leitores de mistério, de que as mulheres são 70%. Seus romances apresentam mulheres belas e inteligentes em perigo e que, no fim, conseguem orquestrar sozinhas uma escapatória. Suas heroínas geralmente são profissionais ambiciosas que ascenderam sozinhas — médicas, advogadas, jornalistas e decoradoras. Todas, como Clark, têm orgulho do catolicismo e da descendência irlandesa. “Ela sempre foi uma garota irlandesa porque sei o que a avó dela lhe disse”, comenta Clark sobre suas personagens. “Eu sei como pensa alguém com os genes delas.”

Os livros de Clark sempre chegam às lojas na primeira semana de abril, antes do dia das mães, a data para a qual mais se compram livros depois do dia dos pais e do Natal. Liberados para todas as idades, os livros de Clark viraram um dos favoritos dos clubes de leitura entre mães e filhas (os crimes podem ser horrendos, mas nunca são descritos diretamente). A estratégia garante espaço na vitrine durante a grande temporada de vendas de livros. Seu novo livro será exibido com destaque nas vitrines de presentes do dia das mães na entrada de todas as 705 lojas da rede Barnes & Noble.

“Há 20 anos que ela domina esse feriado”, diz Reidy.

Clark acrescentou em 1995 uma lucrativa extensão da marca — um livro de mistério com tema natalino — para aproveitar o volume maior de compras da época. Quando a Simon & Schuster lançou seu primeiro livro de mistério perto de uma data festiva, numa tentativa de aumentar seu público, teve de mandar imprimir às pressas centenas de milhares de cópias porque o livro se tornou um sucesso instantâneo. No fim a editora teve de aumentar a tiragem em 3,2 milhões.

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