Publicado originalmente na revista portuguesa Ipsilon

Considerado por muitos o Philip Roth inglês, Howard Jacobson ganhou a última edição do Booker Prize com “A Questão de Finkler”, a história de um homem obcecado pelo desejo de se tornar judeu. Um livro hilariante, mas também sombrio. “A minha obrigação como romancista”, diz, “é manter a disputa entre comédia e tragédia”

Howard Jacobson já tinha escrito uma dezena de livros, pouco conhecidos fora do mundo de língua inglesa, quando “A Questão de Finkler” ganhou o Booker Prize e lhe assegurou uma internacionalização meteórica. O júri, pouco dado a premiar romances cómicos, deixou-se seduzir pela divertidíssima história de Julian Treslove, um pacato inglês que inveja a tal ponto o seu melhor amigo, o judeu Sam Finkler, que tenta transformar-se, ele próprio, num judeu. Mas esta é também a história de Finkler, um judeu que detesta o judaísmo e dirige uma associação de “judeus envergonhados”. E de Libor Sevcik, um viúvo de 90 anos que privou com Garbo, Dietrich e Monroe, mas cuja única paixão foi a sua mulher, Malkie, cuja morte não consegue ultrapassar. Um livro hilariante, mas que deixa um amargo de boca. Jacobson quer que os leitores se riam, mas que se engasguem com o riso.

Judeus e ingleses partilham a reputação de ter piada a gozar com eles próprios. Enquanto autor judeu britânico, estava condenado a escrever romances cómicos?

Sinto-me realmente condenado, desde logo, a escrever romances. Mas a auto-ironia também é uma coisa que está de tal modo entranhada em mim que, quando comecei a publicar, a minha mãe perguntou-me: “Por que é que estás a ser tão cruel contigo próprio, a fazer troça de ti mesmo?”. Eu respondi-lhe, claro, que era porque ela não me tinha amado o suficiente.

Nenhum dos seus livros tinha sido editado em Portugal, mas este último foi rapidamente traduzido e publicado. Acelerar a internacionalização é o aspecto mais revelante do Booker Prize?

O livro está a ser publicado em 24 línguas e em países como a China ou a Coreia. É um óptimo prémio para se ganhar. Mas também penso que escrevi muitos outros livros antes deste, e desaponta-me saber que não foram traduzidos. De repente, aos 68 anos, fui descoberto.

Não faltam bons ficcionistas judeus americanos, e muitos deles são bastante divertidos.  Mas não me ocorre, além de si, outro romancista cómico inglês que seja judeu.

Na verdade, não há muitos romancistas ingleses judeus. Os que escrevem são geralmente dramaturgos, como Harold Pinter, que nunca, mas mesmo nunca, gozou com ele próprio. É claro que em Inglaterra também só há uns 300 mil judeus. Não somos tão importantes como os judeus americanos. E somos mais discretos, não achamos que possamos pôr-nos a troçar de nós mesmos. Nisso sou original.

O seu livro trata de infortúnios, pelo que o facto de ter treze capítulos pode ser lido como deliberado. Mas pergunto-me se não há também uma alusão aos 13 princípios da fé judaica compilados por Maimónides, cujo “Guia dos Perplexos” o protagonista, Julian Treslove, anda a ler. Como se este romance fosse também uma espécie de guia irónico às perplexidades que o judaísmo hoje coloca.

Só reparei no treze como número do azar, mas gostava sinceramente de lhe dizer que tinha pensado nisso, porque me agrada essa ideia de o livro poder ser lido como um comentário irónico a Maimónides.

Chamam-lhe o Philip Roth inglês, mas, apesar das afinidades óbvias, não acha que o seu humor tem um lado muito inglês, mais leve, mais caricatural, do que o de Roth?

Não sou tão zangado como ele. Sinto-me tão zangado como ele, mas não o sou tanto no que escrevo. Há alguma coisa nos meus romances que é inglesa, um tom mais afectuoso. Com Roth parece, às vezes, que estamos num tribunal. Ele castiga sobretudo as mulheres, com aquele seu sentido de rectidão. Eu não conseguiria fazer isso. Sentir-me-ia demasiado ridículo. Mas não sei se me deva sentir orgulhoso disso. Roth é um escritor maravilhoso, e ser-se diferente dele em alguma coisa não deve ser bom.

Como é que lhe ocorreu essa ideia de mostrar o judaísmo a partir do olhar de alguém que não é judeu e quer sê-lo?

Por um lado, quis lembrar que há muita gente fascinada pelos judeus, pelo seu modo de vida e cultura. Mas, como romancista cómico, o principal foi ter percebido que seria muito divertido: Treslove a ler Maimónides, Treslove preocupado com a circuncisão… Não há asssim tantos ingleses que saibam muito sobre judeus. Há aldeias onde as pessoas nunca viram um judeu. Creio que também fiquei a dever um pouco o Booker a essa ideia de um não judeu a levar os gentios ao mundo judaico.

Começamos a ler o seu livro e não temos dúvidas de que é mesmo um romance cómico, daqueles que podem levar um leitor a rir-se alto. Mas nos últimos capítulos, ainda que subsistam passagens hilariantes, o clima vai-se tornando progressivamente mais sombrio, como uma comédia de Woody Allen que acabasse num filme de Bergman. Foi deliberado?

Os meus romances têm tendência a ir ficando mais escuros, a comédia torna-se mais negra. Rimo-nos e sentimos que não nos devíamos estar a rir, engasgamo-nos com o riso. É isto que quero fazer. Mas não controlo muito, deixo o livro ir para onde ele quiser. Tento apenas assegurar que a comédia não desapareça, sinto que a minha obrigação de romancista é conseguir manter essa disputa entre comédia e tragédia. Também quis que o livro fosse assim porque Treslove está a brincar com coisas sérias, tem inveja do sofrimento dos outros. Quando convidamos a tristeza para a nossa vida, ela aceita.

O livro, que tem nos sentimentos de perda um tópico central, é dedicado a três amigos que morreram em 2009. Essa sucessão de mortes pesou na escrita deste romance?

Contou muito. É também por isso que o romance é sombrio. Ganhei o prémio Booker e sinto-me outra vez jovem. Mas senti-me velho e a morrer quando estava a escrever o livro. Como Treslove, tenho essa capacidade de antecipar o sofrimento e a morte.

Admito que fosse impossível, mas suponha que o livro tinha sido escrito por alguém que não é judeu e que lhe calhava lê-lo. Haveria momentos em que se irritaria por achar que o autor tinha ido longe de mais na caricaturização dos judeus.

Não creio que o romance seja agressivo. O modo como Treslove vê os judeus é, de facto, uma caricatura – acha que são todos inteligentes e ambiciosos -, mas é afectuosa. Ele é um bocado simplório, e o retrato que faz dos judeus, embora impreciso, não é ofensivo. Mas admito que há uma ou duas piadas no livro que eu posso dizer, mas que não permitiria a um gentio.

Como Finkler com Treslove?

Sim, como Finkler. É-me fácil simpatizar com Finkler, porque de algum modo, tal como ele, também estou fora: não sei o que sou enquanto judeu. É isso que é fascinante, o facto de ser uma questão sem fim. O que somos? Como devemos viver? Estamos sempre a argumentar. Argumentamos com a nossa fé e deixámo-la em pedaços, é essa a nossa tradição.

Diz simpatizar com Finkler, mas fica-se com a impressão de que a personagem que lhe agrada mais é Libor, o velho viúvo que privou com as estrelas de Hollywood e que acha que os amigos de Finkler são anti-semitas. Há nele uma dignidade que não concede aos outros, e as ironias que lhe dirige nunca são mordazes.

Porque tenho mesmo uma simpatia especial por ele. É baseado num velho de 90 anos que conheci e que tinha sido, como Libor, jornalista de escândalos. A mulher dele tinha morrido e diziam-me que ele gostava dos meus livros e que eu devia ir almoçar com ele. Fui e gostei muito dele. Fez-me rir e comoveu-me. Mas foi a partir dos meus próprios terrores que descrevi os seus sentimentos.

Há referências no seu romance a alguns ataques anti-semitas. Acontecem com frequência no Reino Unido?

O anti-semitismo estava a voltar a Inglaterra, porque as críticas a Isarel estavam a atingir os judeus em geral. Cada vez que acontecia algo no Médio Oriente que irritava as pessoas, havia judeus atacados. Agora isso dissolveu-se um bocado, mas cheguei a sentir receio. Os ataques graves são muito poucos, mas podem acontecer.

Se é a política de Israel que motiva a crítica generalizada aos judeus, ela vem sobretudo da esquerda?

Absolutamente. Se vem aí um novo anti-semitismo, é da esquerda que o receamos, e não da direita. É isso que é tão estranho. O anti-semitismo sempre foi uma coisa da direita, que a esquerda atacou.

Finkler admira os judeus a ponto de querer tornar-se judeu. A admiração ou a repulsa generalizadas não são sinais contrários de um mesmo preconceito?

É verdade. Há muitos judeus que se irritam com os que acham que somos todos maravilhosos. Sentem-no como paternalismo, condescendência. Treslove é benigno, faz isso sem má intenção, mas Finkler está sempre muito à defesa com ele.

Desde Isaiah Berlin a George Steiner, vários intelectuais judeus têm abordado o tópico do ódio dos judeus por si próprios, sugerido no seu livro através da personagem de Finkler. De onde é que isso vem?

É preciso ter cuidado com os termos. Eu não falaria em ódio. Mas é algo que existe e que me fascina. Finkler é um desses judeus que sentem que têm de anunciar aos gentios que estão envergonhados enquanto judeus. São satirizados no livro, não pela sua política, mas pelo modo como pensam acerca deles mesmos. Tudo isso vem do início, da invenção do monoteísmo. Mosisés vai à montanha, demora-se um bocadinho a trazer os dez mandamentos e, quando chega, os judeus já voltaram todos à idolatria. A Bíblia é uma história de sucessivas rebeliões. O judeu inventou o deus único e condenou-se a argumentar com ele. No paganismo, se alguém se chateava com um deus, falava com outro. O monoteísmo não dá escolha. A escolha é abandonar o judaísmo, e os judeus estão sempre a fazê-lo. Os ortodoxos dizem que ainda há judeus porque as pessoas vão à sinagoga. Eu acho o contrário: precisamente porque argumentamos, porque, milhares de anos depois, ainda estamos a discutir, é que ainda somos judeus.

Treslove quer ser judeu e Finkler quer deixar de o ser. Falham ambos. Mas se Finkler permanece judeu, acha que se poderia dizer, no mesmo sentido, que Treslove permanece ateu, ou inglês, ou seja o que for? O livro aborda a dificuldade dos judeus em lidar com a sua própria identidade, mas o problema não será mais o de um excesso de identidade?

É uma boa maneira de pôr a questão. Ninguém pode ser vagamente judeu. Ser judeu é uma coisa em que penso todos os dias. E isto confunde-me, porque não tive educação judaica tradicional. É como se isso estivesse à minha espera. Tal como Treslove, assaltado na rua por uma mulher (e essa mulher é o judaísmo), eu também fui atacado. Uma vez disse a mim mesmo: desta vez não vou escrever sobre judeus. E fi-lo. O livro chama-se “Act of Love” e é a história de um homem que quer que a mulher lhe seja infiel. Não há lá judeu nenhum. Um crítico disse que era o mais judaico de todos os meus livros.

 

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