Publicado originalmente na revista portuguesa Ipsilon

O ano passado foi um ano bom para João Paulo Cuenca. A série “Afinal o que querem as mulheres?”, de que é argumentista (com dois outros colaboradores) passou em horário nobre na TV Globo e foi bem recebida pela crítica. Nela, ele conta a história de um estudante de psicologia que tenta formular a famosa pergunta de Freud. Mas, tal como acontece nos universos criados pelo escritor brasileiro, a personagem consegue perceber afinal o que querem as mulheres porque ele perde a própria mulher. “De alguma maneira descobre o que querem todas as mulheres menos a dele”, explica, entre risos, o autor, que esteve em Lisboa a lançar “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” (ed. Caminho).

Este romance, que o ano passado entrou nas listas dos melhores livros publicados no Brasil, é a prova de que o escritor que nasceu em 1978 é fascinado pela cultura japonesa desde sempre. Tóquio é uma obsessão infantil. A admiração pelo Japão não começou pela grande literatura japonesa – Yukio Mishima, Junichiro Tanizaki ou a poesia do Matsuo Bash? – ou pelo cinema de Yasujiro Ozu e de Akira Kurosawa. A culpa é das séries de televisão – “Godzilla” e “Changeman e Jaspion”, que Cuenca via quando criança – “seriados em que invariavelmente há a imagem de um monstro ampliado por outro que destrói a cidade, que sapateia em cima da cidade. De alguma maneira bizarra, hoje eu enxergo essa criança que olha a cidade destruída. Aquilo talvez tenha sido o meu primeiro contacto com a possibilidade da desaparição, da tragédia, porque se você tem um prédio que existe e depois não existe mais, as pessoas que estão dentro dele não existem mais também.”

Infância e destroços

Uma das primeiras memórias de infância de Cuenca é a de andar num terreno destruído, sobre a casa onde os pais moravam quando eram casados (separaram-se quando ele tinha cinco anos).

A casa ficava no Catete, na Vila Palácio, na frente do Palácio do Catete, edifício que albergava o poder Executivo quando a capital era o Rio de Janeiro. “Depois que eles se separaram, o meu pai ficou um tempo lá mas meses depois a casa foi demolida. Era linda, do século XIX, um sobrado que demoliram para fazer um prédio horroroso, como todos os do Rio. O que aconteceu naquela infância, naquela casa, eu não lembro. A minha primeira lembrança de infância talvez tenha sido caminhar sobre os destroços dessa casa.”

Também se lembra do impacto que sentiu, na mesma época, ao ver Godzilla a destruir prédios. “Relaciono muito essa coisa do monstro que destrói a cidade com a minha história de destruição pessoal. [risos] Acredito que iria para o Japão de qualquer maneira. Eu tinha de escrever esse livro.”

“O único final feliz para uma história de amor é um acidente” foi uma encomenda do projecto Amores Expressos. A ideia partiu do produtor paulista Rodrigo Teixeira que propôs a 16 autores brasileiros, de diferentes gerações, que escrevessem histórias de amor com uma cidade a servir de inspiração para as narrativas. Enviou-os, isolados, por um mês, para o mundo. Convidou João Paulo para ser coordenador editorial do projecto e deu-lhe a possibilidade de escolher a cidade para onde queria ser enviado. Ser uma encomenda, não o atrapalhou. “Todos os meus livros são encomendas que eu mesmo me faço. Eu preciso de me colocar aquela questão. Na verdade os meus romances são isso: uma tentativa de formular uma longa pergunta”, diz.

O prazo para a estadia em Tóquio era de um mês, o escritor acabou por ficar um pouco mais. A primeira impressão na cidade foi de sonho e de desorientação. Nem sabia por onde começar a olhar. “Fotografar Tóquio é difícil. Para onde é que se aponta a câmara? É cansativo. Não temos educação visual para lidar com aqueles signos todos, aqueles alfabetos, aquela torrente de imagens que nos bombardeia, desde telas de LCD gigantescas a músicas e barulhinhos. Até no lugar onde você segura a mão para se apoiar no metro tem uma propaganda, tem alguma coisa escrita. E isso te deixa tonto. Você não tem essa educação visual: eles têm. Então a minha primeira sensação foi de desorientação e sonho. E de ficção. De que ali eu estava caminhando por um território fronteiriço.”

A ficção do amor

Foi descobrindo que Tóquio não só é o lugar do fetiche – “tecnologia que eles vêm refinando há milhares de anos” – mas também da representação. Uma das mulheres do seu romance diz que não sonha porque todos os dias é sonhada por outros: ela é o sonho. Num desses dias em que viveu em Tóquio, João Paulo viu uma mulher entrar no metro com uma coleira e um cão de peluche. “A correia tinha um arame dentro. Ela segurava e o bichinho de pelúcia ficava um bocadinho acima do solo. As pessoas ignoraram absolutamente”. E foi isto que o levou a partir para essas tais perguntas que faz quando escreve um livro: “O afecto que ela sente por esse bicho é maior ou menor do que o afecto que ela sente por um bicho de verdade? É melhor? É mais verdadeiro? Bicho de verdade desperta um amor, um carinho, um afecto mais verdadeiro?”

Aquela é a cidade das representações. “Você está num café parisiense em Tóquio e é muito parisiense o café. O Mickey Mouse de Tóquio é mais Mickey Mouse do que o da Disney. Eles refinam tudo a um nível de excelência. É espectacular. Então a mulher que carrega o bichinho de peluche ela é o signo dessa era. Aquele cachorro não é real? Claro que é real. O afecto que ela sente é real. É amor verdadeiro.”

É por isso que esta história dialoga muito com “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”, romance onde o amor é retratado como uma invenção, como uma construção com narrativa e representação.

Como o livro anda à volta da fronteira entre o que é real e o que não é, quando chegou a Tóquio o autor de “O dia Mastroianni” foi à procura das famosas bonecas infláveis que são tratadas pelos donos como mulheres de verdade.

Precisou da ajuda de uma amiga intérprete, uma japonesa, para chegar a elas. “Não é uma coisa que você encontra fácil, tem que marcar hora e ir nuns lugares absurdos. Em Tóquio existem sex-shops que são prédios, é uma loucura, são dez andares de sacanagem mas a boneca você não encontra nesses lugares.” Também existem uns prostíbulos que as alugam mas não aceitam estrangeiros. “O dado interessante destes prostíbulos é que alugar uma boneca é igual ou mais caro do que alugar uma mulher real. Uma hora com uma boneca equivale a uma hora com uma prostituta média (há prostitutas que são mais baratas). Há quem pague mais para estar com a boneca do que com uma mulher de verdade”, conta o escritor que mesmo assim conseguiu chegar perto de uma dessas bonecas caríssimas e tocar-lhe.

Conta que a boneca oferece uma resistência semelhante à do ser humano. Não é quente, mas também não é fria. Parece um ser humano que dorme ou que está morto. É mórbida a sensação. “O que me fascina nisso é que é mórbido – porque você solta o braço dela e ele cai – mas ao mesmo tempo você dá vida àquele bicho. É muito ambíguo. Você compra cueca usada nessas lojas com a foto da dona que a usou, às vezes uma cartinha. Quanto mais suada melhor, você compra isso, você veste, você cheira, você mete na boneca. Ela tem aspecto de morta porque é inanimada, porque está dormindo. Mas só o facto de você encostar nela e agir, por um segundo, como se ela fosse uma mulher de verdade, aquilo dá vida a ela. Então não é mais mórbido. Você está fazendo o contrário. Você está injectando vida num objecto inanimado. É isso. É muito estranho.”

O dado concreto de que quem compra estas bonecas prefere uma mulher inanimada a uma mulher real foi o ponto de partida para reflectir no romance sobre o afecto contemporâneo. “As pessoas se relacionam muito mais com uma fantasia que fazem do outro, do que do outro. Como se o outro não existisse e fosse um boneco. Você se relaciona com uma projecção. A boneca, nesse sentido, é a tábua rasa perfeita porque o velho poeta – personagem do livro – bota as palavras que ele quer na boca dela ou não. Enfim, quem ler o livro vai ter a interpretação que quiser. Mas a gente acaba às vezes se relacionando com bonecas e sendo boneco também dos outros. Não é assim tão absurdo.”

Já se está a ver que “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” é sobre a representação, sobre a ficção e sobre a ficção do amor. “A personagem da boneca é o simulacro não só do amor, não só dessa projecção que você faz, mas da literatura em si. A boneca é uma máquina que se auto narra. E ela entra no livro como uma metáfora da própria literatura. A boneca para mim é a personagem mais humana do livro.”

João Paulo Cuenca também transportou os monstros das séries japonesas da sua infância e a ideia da destruição da cidade para o livro. Quis mostrar que o nosso mundo se baseia nesse tipo de irrealidade que é real. “Uma das linhas mais importantes do romance é quando um cara olha para aquela destruição toda e fica aliviado porque finalmente, pela primeira vez na vida, algo ‘real’ está acontecendo.” A invasão norte-americana na Segunda Guerra e Hiroshima e Nagasaki foram o evento fundador do Japão contemporâneo e introduziram esse dado de irrealidade de que ele quis falar. “Era irreal aquela nação ser invadida. Para um japonês a destruição dentro do seu território era impensável. Tanto é que em São Paulo, na colónia dos japoneses durante a Segunda Guerra, muita gente não acreditava que tinha acontecido, aquela notícia não podia ser real”, explica e liga este evento com outro mais recente, os atentados de 11 de Setembro de 2001. “Todos nós estávamos vendo televisão: aquilo não era real, mas era muito real. E todos nós falávamos: ‘Meu Deus tem alguma coisa acontecendo’. A sensação era esta: a história está sendo feita à frente dos meus olhos, algo real está acontecendo. Mas era irreal. Os Estados Unidos sendo invadidos por um louco que entra num avião e choca contra um prédio? O tempo todo, esse dado real estava sendo visto sobre um prisma da ficção.”

João Paulo Cuenca tem acompanhado “assustadíssimo” as notícias da catástrofe dos últimos dias no Japão. Ficou impressionado quando um sobrevivente, citado pela Reuters, perguntava: “É um sonho? Parece que estou num filme. Quando estou sozinho tenho que me beliscar na bochecha para ver se é um sonho ou não”.

“Veja que ali na minha ficção, o monstro surge e os moleques o encaram como realidade. Na notícia é o oposto – a realidade ganha o peso da ficção. É uma simetria estranha. O livro (e a contemporaneidade) trasfegam sobre essa linha ténue entre o que é real e o que não é para cada um das suas personagens/pessoas. Não temos mais um chão seguro para pisar, e até isso o Japão nos ensina”, diz João Paulo Cuenca por email a partir de Paris onde tenta retomar a escrita do seu quarto romance.

 

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