O continente africano, além de berço da espécie humana, também teria sido o local em que um idioma de verdade, com gramática e vocabulário complexos, foi falado pela primeira vez na história.

A ideia está sendo defendida em um novo estudo, que analisou mais de 500 línguas de todas as partes do mundo em busca do caminho que a “invenção” da linguagem teria seguido planeta afora.

Segundo o trabalho, publicado nesta semana na revista americana “Science”, a variedade de fonemas –a menor unidade sonora, que permite a diferenciação entre as palavras– altera-se conforme a localização geográfica.

A maior quantidade de fonemas se concentra no seria o “marco zero” das línguas, o centro-sul da África.

Conforme os idiomas vão se afastando dessa aparente fonte comum, eles vão ficando empobrecidos em fonemas –com menos tipos de vogais, consoantes e tons (variantes “musicais” das sílabas, comuns em línguas como o chinês, por exemplo).

Editoria de Arte/Folhapress

COISA VIVA

O autor da pesquisa, Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), aparentemente está construindo a carreira com base na ideia de que línguas podem funcionar de forma idêntica a coisas vivas.

Na década passada, ele usou métodos normalmente utilizados para estudar o parentesco evolutivo entre seres vivos para propor uma data para a origem das línguas indo-europeias –basicamente quase todas as línguas da Europa mais as de regiões como Índia, Paquistão e Irã.

Nesse estudo, ele estimou que esse tronco de línguas “brotou” pela primeira vez há 9.000 anos. Isso poderia ligá-las à expansão de agricultores da atual Turquia rumo à Europa, substituindo os antigos habitantes da região.

“É muito interessante, entre outras coisas porque muitos linguistas históricos aqui no Brasil, que estudam línguas indígenas, ainda não aplicam essas ideias à expansão de povos no passado”, diz o geneticista Fabrício Rodrigues dos Santos, da UFMG.

Segundo Atkinson, uma coisa já sabida é que, quanto maior a população que fala uma língua, maior o número de fonemas de dita cuja.

Mas isso não significa que o chinês seja automaticamente a língua mais rica em fonemas do planeta. Faz muita diferença também o tempo que uma população grande fala certo idioma ±e nesse quesito a África parece ser imbatível, já que seres humanos modernos habitam o continente há bem mais tempo.

O padrão, além do mais, bate com o da genética –os africanos também são geneticamente mais diversificados que o resto da humanidade.

“E, de fato, eles possuem fonemas como os que envolvem cliques [estalos], aparentemente únicos”, diz Santos.

Atkinson usa os dados para propor um único “eureca” linguístico há uns 70 mil anos na África, que teria, inclusive, uma associação com os primeiros indícios de arte e adornos corporais, também datados dessa época.

Segundo essa visão, a linguagem complexa teria sido uma das ferramentas centrais para que a humanidade moderna avançassem pelos continentes e acabasse suplantando, de algum modo, hominídeos como os neandertais da atual Europa.

fonte: Folha.com

 

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