Um cidadão congolês levou ao tribunal “Tintin no Congo” por conteúdos racistas. Julgamento foi finalmente marcado para 30 de Setembro
Publicado originalmente no ionline
Há coisas difíceis de explicar em Tintin, herói de Hergé e protagonista de uma das mais bem sucedidas séries de desenho em quadrinho na Europa. Seja a exiguidade do guarda-roupa – que parece consistir apenas em camisas azuis e  brancas -, ou o fato de este jornalista não ser visto escrevendo uma linha que seja num total de 24 histórias. No entanto, não foi a polícia da moda nem a Alta Autoridade para a Comunicação Social a implicar com o jovem repórter. Foram os tribunais do seu país de origem depois de um processo levado a cabo pelo cidadão congolês Bienvenu Mbutu Mondondo. Acusação: racismo.

No livro “Tintin no Congo“, publicado pela primeira vez em 1931, Hergé narra as aventuras do repórter na então colónia belga e como por acaso é tomado por feiticeiro. O resto do enredo mete gangsteres, tráfico de diamantes e outras patifarias que Tintin consegue deter, mas o maior crime estava nas entrelinhas.

Na sua verão original, “Tintin no Congo” era um panfleto de propaganda colonialista desenhado em preto e branco e com essa diferença de cores (ou raças) muito bem vincada. A parte em que Tintin dá uma aula aos nativos sobre “a vossa pátria, a Bélgica” foi substituída na versão final, a cores, e grande parte do conteúdo racista aparece ligeiramente na edição de 64 páginas que está nas livrarias agora. No entanto, os estereótipos abundam e é esse retrato de um povo ignorante, preguiçoso e sem maneiras que levou a este e outros casos de justiça.

Em 2007, a Comissão Britânica para a Igualdade das Raças pediu que o livro fosse retirado das livrarias do Reino Unido por causa do seu conteúdo racista. Na França, vários grupos de direitos humanos defendem que cada livro deve conter um aviso na capa explicando aos leitores a série de estereótipos que podem vir a encontrar.

O caso movido pelo congolês Mondondo vai começar a ser julgado em 30 de Setembro e não exige o desaparecimento da história – para não usar a palavra censura. Quer, pelo menos, que o livro seja retirado das prateleiras dedicadas à literatura infantil tal como aconteceu na Grã-Bretanha, mas propõe outras duas soluções: um prefácio que explique os conteúdos e contexto histórico da obra ou uma cinta que avise os leitores para os conteúdos.

Hergé nunca se esforçou por esconder as suas opiniões sobre o colonialismo e era um anti-semita confesso que apoiou o regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Sobre “Tintin no Congo” defendeu tratar-se de uma obra que devia ser lida à luz do tempo em que foi escrito: “Desenhei os africanos de acordo com o espírito paternalista da época na Bélgica”.

Nos seus livros, Hergé retratou também os portugueses através do personagem Oliveira da Figueira. Mais uma vez, o autor belga recorre aos lugares comuns: Figueira é um vendedor astuto de quinquilharia inútil, sempre disposto a ajudar Tintin e a convidá-lo para beber um vinho do Porto.

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