Em julho de 1968, recém-chegado de frente de guerra no Vietnã, o fotógrafo inglês Don McCullin recebeu a seguinte proposta: lhe pagariam 200 libras por um dia de trabalho fotografando os Beatles. No primeiro contato com um profissional da gravadora Apple, pensou tratar-se de um trote. Por que ele, um profissional especializado em cobrir guerras? “Suponho que, por estarmos em 1968, ano com tantas implicações políticas, eles acharam que seria bom trabalhar com um fotógrafo que lidasse bem com temas políticos. Mal sabiam que, ao ouvir a proposta, eu me senti levitando alguns centímetros acima do chão. Eu teria pago a eles 200 libras.”

Este relato foi escrito por McCullin pouco mais de 40 anos após a sessão de fotos, realizada num domingo londrino, durante a gravação do Álbum branco. O material resultante de 15 rolos de filme foi compilado no livro Um dia na vida dos Beatles (Editora Cosac Naify, 144 páginas, R$ 69). Lançado originalmente na Inglaterra em outubro, no aniversário de 30 anos de morte de John Lennon, ganha agora edição brasileira. Na introdução, Paul McCartney justifica a escolha: “Ele não ficava disparando a torto e a direito, era alguém muito atento ao rosto humano… Pouco importava se era conhecido por suas imagens de guerra. Isso não o tornava menos fotógrafo”.

Na ativa até hoje, McCullin já recebeu vários prêmios (Cornel Capa e World Press os mais importantes) e publicou 20 livros. Naquela época, sem a experiência de hoje, admite ter ficado inseguro quanto ao projeto. “Jamais consegui me sentir muito confortável ao fotografar gente famosa, e não dá para imaginar alguém mais famoso do que aqueles quatro.” E, diferentemente de seus fotografados, McCullin não contava com assistentes. Teve que se virar sozinho e, pelo relato, explicitado pelas fotos, realizou seu trabalho de maneira aleatória. Pelas palavras de McCartney, era isso mesmo que a banda queria. “Vamos providenciar o campo de batalha e tudo vai dar certo. Ele simplesmente vai acompanhar toda a ação”, escreveu o ex-beatle.

Coreografia

Para o livro, o fotógrafo selecionou 92 imagens, coloridas e em P&B. O volume é aberto com as fotos de John, Paul, George e Ringo de roupas bem coloridas, na cobertura do prédio do jornal Sunday Times – uma delas foi publicada na cada da revista Life, na época. Chama a atenção a camisa amarela de Ringo, contrastando com o terno rosa de Paul. Mas foi depois dessa sessão inicial que as coisas realmente aconteceram. Sem um roteiro fechado, McCullin partiu dali com a trupe para um pequeno parque e de lá para a região do East End. Desse take há imagens bem conhecidas, dos quatro em meio a flores e ao lado de tradicionais construções inglesas.

Mais tarde desceram para a região de Limehouse. “Não dava para dirigir pessoas como aquelas. Eles é que criaram a coreografia”, relata McCullin. Naquele momento, John começou a tirar a roupa, seguido de perto por Paul. A maior parte deste registro está em P&B. Há inclusive uma foto em que John finge estar morto, considerada uma imagem bizarra por seu autor. “Eu estava com uma Nikon F, a mesma que usara no campo de batalha. Para mim, tudo o que Lennon fazia era uma forma de protesto.”

De lá participavam novamente até chegar a um salão em que McCullin contou como cenário com um papagaio, um velho piano e uma luz terrível, que não o ajudou muito no registro. Terminaram a sessão na casa de Paul, junto a um cão peludo e boas doses de chá. Com carreira bem-sucedida, o fotógrafo, que só reviu esse trabalho recentemente, deu o seu parecer: “Acabei me curando de todo sentimento de inferioridade que talvez tivesse tido anos antes”.

Fonte: Estado de Minas
Imagem: http://editora.cosacnaify.com.br

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