Texto escrito por Raphael Fernandes, no blog Contraversão.

Acabo de ler “Ìmpio – O Evangelho de um Ateu” (LeYa) de Fábio Marton, que conta de forma absurdamente honesta como deixou de ser um menino pastor e se tornou um jornalista incrédulo. Admito que fui bastante surpreendido pela sinceridade, coragem e qualidade literária deste relato absolutamente obrigatório para fiéis e infiéis de mente aberta.

Fábio foi um menino-prodígio, porém, para seu próprio azar, ao invés de ser um ás da matemática ou um músico precoce… ele era um menino pastor. (Sim, muito antes da menina pastora aparecer no Youtube!) O problema é que sua habilidade em ser um “homem de fé” também foi a causa de seu isolamento social, ninguém queria ser amigo daquele garoto certinho e esquisito.

Os problemas de verdade começaram a surgir quando a solidão, as contradições e o total desinteresse das garotas se tornaram um casulo claustrofóbico na adolescência de Fábio. Sem falar no terrível acidente de carro que, por uma imprudência de seu pai, casou uma terrível tragédia. Toda essa dolorosa química foi o gatilho para que o autor percebesse os malefícios da religião em sua própria vida e na de sua família.

Através dessas memórias, o livro revela um retrato bastante fiel do fanatismo religioso entre os evangélicos. Porém, o grande trunfo do autor foi levantar a seguinte questão: Você é uma boa pessoa porque ajuda o próximo ou porque reza o tempo todo? Essa e muitas outras contradições levaram Fábio Marton a questionar sua fé cega e perceber que os mais religiosos não são necessariamente as melhores pessoas.

Vou sair um pouco do assunto para revelar um ótimo exemplo disso…

Vejo a mídia apresentar o caso do rapaz que entrou atirando em uma escola do Rio como fruto da influência de videogames violentos, por ter sofrido bullying e, até mesmo, pelo histórico familiar de problemas mentais dele. No entanto, acredito que a maior de todas as causas tenha sido a confusão mental causada pelo fanatismo religioso misturada com todos esses outros elementos.

Sei que é difícil atribuir a responsabilidade disso tudo à algo digno de paixões, como são as religiões. Porém, não acho justo apontarem o dedo para todos os lados e deixar impune o principal alicerce deste ato de demência tão explorado pelos meios de comunicação.

Também não é nada fácil assumir que se é ateu. Os religiosos costumam te julgar e até mesmo sentir nojo de você. Confundem ateísmo com falta de humanidade e até questionam se a pessoa não tem medo do que vai acontecer após a morte. Pior são aqueles que acham que por você não acreditar em deus pode necessariamente continuar acreditando no diabo.

Ser ateu é se libertar de todos os dogmas e vendas da religião e assumir a responsabilidade sobre suas ações e ideias. O incrédulo carrega o imenso fardo de saber que todas as ações humanas não são fruto da influência de um deus ou de um demônio, mas do próprio homem.

Conheci Fábio numa de minhas noites endiabradas no bar Astronete, o cara tentava xavecar uma garota discutindo sobre o que é o capitalismo. Na hora me lembrei de meus tempos de faculdade de história, achei aquele papo muito furado e não resisti em tirar um sarro. Após este incidente, toda vez que o encontrava tínhamos uma conversa bacana sobre coisa alguma. O cara era uma espécie de “amigo de balada”.

O que eu não esperava é que após ler as 221 páginas de “Ímpio” teria a estranha sensação de que conhecia o Fábio há anos. Nossa trajetória foi bastante semelhante, eu era um garoto católico tão certinho que não tinha a malícia e a esperteza necessária para enfrentar a rigidez desse mundo. Como o Fábio, somente me libertei de uma vida solitária e miserável quando coloquei minhas contradições religiosas em xeque-mate.

Fiquei tão comovido com sua história e a forma sincera com que a contou, que por mais absurdo que seja passei a considerá-lo um grande amigo.

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