Publicado originalmente na VEJA

Um herói humano, demasiado humano. Assim o último Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, enxergou o controverso diplomata irlandês Roger Casement (1864-1916). O autor peruano descobriu Casement ao ler sobre ele na biografia de um de seus autores preferidos, o inglês Joseph Conrad (1857-1924) – e, não por acaso, teceu a partir das experiências do irlandês na África um livro que se inicia com um quê de Coração das Trevas, o clássico de Conrad.

“O personagem me pareceu tão fascinante que comecei a tomar nota sobre ele até que me dei conta de que já estava trabalhando em um novo romance sem me haver proposto a isso”, disseVargas Llosa ao colunista do site de VEJA Ricardo Setti, em outubro passado, poucos dias após receber o Nobel. O resultado desse investimento não intencional é o livro O Sonho do Celta(Alfaguara, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, 392 páginas, 47,90 reais), que foi lançado em novembro nos países de língua espanhola e chega na próxima terça às livrarias brasileiras.

Roger Casement era um idealista. Acreditava que o comércio, a religião e as instituições políticas e sociais europeias poderiam tirar a África do atraso e da selvageria em que vivia. Em 1884, aos 20 anos, partiu em uma expedição patrocinada pelo rei Leopoldo II da Bélgica. A finalidade era preparar a região – que um ano mais tarde se tornaria o Estado Livre do Congo, uma concessão da coroa belga – para a chegada dos exploradores e comerciantes europeus. Bastou pouco tempo ali para que Casement percebesse que a presença europeia na África não tinha nada de civilizatória.

Poucos anos mais tarde, já como cônsul da coroa britânica, ele estaria de volta ao Congo, dessa vez para documentar as barbaridades cometidas pelos colonizadores contra os nativos.

Seu trabalho ganhou notoriedade e o levou, alguns anos mais tarde, para outro cenário deplorável: a Amazônia peruana, onde os capatazes de uma grande empresa produtora de borracha exploravam o trabalho indígena. Mais uma vez, Casement denunciou o trabalho escravo e o extermínio dos índios naquela região. Ele foi homenageado, reconhecido internacionalmente como humanista e condecorado cavaleiro (sir) pela coroa inglesa. Mas enquanto fazia seu trabalho, começou a se questionar se a sua Irlanda natal também não havia sido subjugada pelo império britânico.

Aos poucos, Casement foi se envolvendo com o movimento nacionalista até abdicar de seu posto diplomático e dedicar-se integralmente à causa da independência irlandesa. Ele foi preso e condenado à forca por traição após ter recorrido aos alemães, inimigos da Grã-Bretanha na Primeira Guerra Mundial, para que auxiliassem a Irlanda. Para denegrir ainda mais sua imagem de traidor, os britânicos divulgaram trechos de seus supostos Diários Negros, em que Casement descrevia minuciosamente suas aventuras homossexuais – algumas reais, outras imaginárias, na versão do autor -, inclusive com adolescentes.

Aos 74 anos, Vargas Llosa é um escritor incansável, obsessivo nos detalhes. Fazer ficção a partir de acontecimentos e

personagens históricos requer esse detalhismo, mas isso não importuna o autor. “A história tem sido sempre para mim a matéria-prima para fantasiar, para tentar contar uma ficção a partir dela”, disse em entrevista ao jornal espanhol El País. A fórmula já foi utilizada em livros anteriores como A Guerra do Fim do Mundo, sobre a Guerra de Canudos, e A Festa do Bode, que trata da ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana entre os anos de 1930 e 1961.

A pesquisa de Vargas Llosa sobre Casement incluiu visitas à Irlanda e à República Democrática do Congo. Apesar da riqueza de informações, todas as vezes em que fala sobre o livro o autor deixa claro que não se trata de um relato histórico, mas sim de um romance. Ele ressalta que havia muito o que inventar em torno de Casement, já que há poucas informações sobre ele.

Corajoso e débil – Para o leitor, não importa o que é real e o que é fantasia. O enredo está bem amarrado e Vargas Llosa, que se disse seduzido pela complexidade de Casement, definitivamente conseguiu recriá-lo como um homem corajoso e coerente, mas também atormentado por dúvidas e questionamentos morais e religiosos. O autor não se detém no brilhante perfil profissional de Casement ou em sua dedicação apaixonada à causa irlandesa. Ele o mostra como um ser humano cheio de dúvidas e de medo. Utiliza diálogos entre o cônsul e algum interlocutor na prisão para mostrar seu lado mais obscuro ou ainda descreve suas emoções conturbadas depois de fazer sexo com algum desconhecido em lugares sórdidos. Vargas Llosa expõe também a debilidade física de Casement, resultado de anos trabalhando sob pressão e em precárias condições.

O cônsul irlandês, que parecia não ter medo ao enfrentar os grandes interesses econômicos, levava uma vida solitária e vivia encontros homossexuais furtivos. Quase sempre esses encontros resultavam em crises profundas de tristeza ou arrependimento. Ele também lamentava sua solidão e a certeza de que nunca teria uma família, esposa e filhos. A figura de sua mãe, morta quando ele era ainda criança, era sua companhia constante em sonhos e fantasias. A confiança e a certeza que Casement demonstrava ao realizar seu trabalho como diplomata não o acompanhavam em seu empenho pela independência da Irlanda e, frequentemente, ele sofria sem saber se o caminho escolhido pelos independentistas era o melhor. Já no final de sua vida, o desejo de seguir o catolicismo (seu pai era protestante e sua mãe era católica) também suscitava muitos questionamentos. Ele não sabia se essa vontade era real, resultado de sua fé, ou apenas uma forma de se sentir ainda mais irlandês.

Estrutura do romance – O livro está dividido em três partes: Congo, Amazônia e Irlanda, mais um pequeno epílogo. Assim como organizou a trama em Tia Julia e o EscrevinhadorO Paraíso na Outra Esquina e sua autobiografia Peixe na Água, aqui Vargas Llosa alterna dois planos narrativos. Nos capítulos ímpares, Casement está na prisão aguardando o resultado de sua apelação pela conversão da pena de morte em prisão perpétua. São esses capítulos que mais permitem conhecer o cônsul irlandês. A narrativa está em terceira pessoa, mas às vezes a impressão é a de que o próprio personagem conta sua angústia no cárcere. É como se ele fizesse um exame de consciência e buscasse compreender suas opções passadas.

Nos capítulos pares, o autor apresenta Casement desempenhando seu trabalho como cônsul e seu envolvimento na luta pela independência da Irlanda. São impressionantes as descrições de barbaridades cometidas pelos exploradores no Congo e no Peru, mas em alguns momentos é como se a figura do cônsul ficasse em segundo plano. A parte final dedicada à Irlanda parece também excessiva, já que nos capítulos em que Casement está na prisão há informação suficiente sobre seu envolvimento na questão irlandesa, o que faz esses capítulos finais parecerem repetitivos.

Soa algo contraditório Vargas Llosa escolher como personagem de seu livro um nacionalista como Casement. Constantemente, o autor peruano reafirma sua aversão ao nacionalismo. Mas, em várias entrevistas, justificou-se dizendo que o nacionalismo de Casement tinha um valor positivo, que era a luta contra um opressor. Laureado com o Nobel de Literatura de 2010, segundo a Academia Sueca, por “sua cartografia das estruturas do poder e apuradas imagens da resistência, rebeldia e derrota do indivíduo”, Vargas Llosa permite ao leitor de El Sueño del Celtapensar sobre assuntos que são atuais, como a exploração do trabalho escravo ainda existente ou a falta de liberdade política e de pensamento e, principalmente, sobre a capacidade do ser humano de lutar por um mundo mais justo, mesmo que internamente cada um viva suas pequenas ou grandes contradições.

Simone Costa

Trecho de ‘O Sonho do Celta’

No dia 16 de outubro de 1910, quando ele e seus colegas da Comissão, acompanhados por Juan Tizón, três barbadianos e uns vinte índios muinanes dirigidos pelo cacique, que transportavam o carregamento, iam através da mata, por uma pequena trilha, da estação de Entre Ríos à de Matanzas, Roger Casement anotou em seu diário uma ideia que fora crescendo em sua cabeça desde que desembarcara em Iquitos: “Cheguei à convicção absoluta de que a única maneira que os indígenas do Putumayo têm de sair da condição miserável a que foram reduzidos é pegando em armas contra os seus amos. É uma ilusão desprovida de qualquer fundamento pensar, como Juan Tizón, que a situação vai mudar quando o Estado peruano chegar aqui e houver autoridades, juízes, policiais para fazer cumprir as leis que proíbem a servidão e a escravidão no Peru desde 1854. Será que vão fazê-las cumprir como em Iquitos, onde as famílias compram por vinte ou trinta soles meninas e meninos roubados pelos mercadores? Será que vão fazer cumprir as leis essas autoridades, juízes e policiais que recebem os seus salários da Casa Arana porque o Estado não tem como pagar ou porque os safados e os burocratas roubam o dinheiro no caminho? Nesta sociedade, o Estado é parte inseparável da máquina de exploração e de extermínio. Os indígenas não devem esperar nada de instituições assim. Se querem ser livres, têm que conquistar a liberdade com seus próprios braços e a sua coragem. Como o cacique bora Katenere. Mas sem se sacrificar por motivos sentimentais, como ele. Lutando até o final.” Enquanto, absorto com essas frases que tinha escrito no diário, caminhava certa tarde em um bom ritmo, abrindo caminho com um facão entre os cipós, moitas, troncos e galhos que obstruíam a passagem, pensou: “Nós, irlandeses, somos como os huitotos, os boras, os andoques e os muinanes do Putumayo. Colonizados, explorados e condenados a ficar assim para sempre se continuarmos confiando nas leis, nas instituições e nos governos da Inglaterra para alcançar a liberdade. Eles nunca a darão. Por que o Império que nos coloniza faria isso sem uma pressão irresistível que o force? Essa pressão só pode vir das armas.” Esta ideia, que nos dias, semanas, meses e anos futuros ele iria polindo e reforçando — que se a Irlanda, como os índios do Putumayo, quisesse ser livre teria que lutar para isso —, o absorveu de tal maneira durante as oito horas de percurso que até se esqueceu de que muito em breve iria conhecer pessoalmente o chefe de Matanzas: Armando Normand.

 

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