Publicado originalmente em O Estado de Minas

O debate sobre as relações entre cinema e literatura é questão antiga. Seja na crítica cotidiana, dos jornais, seja no meio acadêmico, o tema vem rendendo há décadas. Na primeira, vincula-se frequentemente aos rumos do próprio mercado; no último, incorpora a cada momento os métodos e disciplinas da moda – atualmente, por exemplo, anda passeando principalmente pelas salas de aula e os laboratórios que se dedicam à literatura comparada. Uma curiosa inversão vem acrescentar novos elementos à discussão. Enquanto o debate tradicional sobre o tema tratava da adaptação cinematográfica de obras literárias, é hora de pensar o problema na direção contrária: cresce nas prateleiras das livrarias a quantidade de livros adaptados de obras cinematográficas.

Não é a primeira vez que situações incomuns como essas ocorrem. Um dos maiores clássicos da ficção científica na literatura e no cinema, 2001 – Uma odisseia no espaço, foi criado simultaneamente nas duas linguagens. O escritor Arthur C. Clarke escreveu seu romance ao mesmo tempo em que colaborava com o diretor Stanley Kubrick na elaboração do roteiro. O filme, portanto, não é, em sentido estrito, uma “adaptação” do romance, mas uma criação contemporânea a ele – ambos inspirados em um conto de Clarke. Nos quadrinhos, já é praxe há muito tempo a adaptação de certos segmentos de sucessos da tela, principalmente os desenhos animados e os filmes de aventura.

A grande singularidade do momento atual é que a prática parece estar se tornando uma tônica nas relações entre as indústrias cinematográfica e editorial. Por trás dela, fica claro que a questão principal é econômica, e não estética: a indústria cultural estaria avançando mais um passo em sua proposta de maximizar os lucros em torno da mesma ideia. Se o sucesso de um filme aumenta as vendas do livro que lhe deu origem – e, portanto, o faturamento do braço editorial da indústria –, pode ser possível fazer o caminho oposto, que não era tão frequente em relação às obras realizadas sobre roteiros originais: faturar com o livro que se segue ao filme, ou conseguir que ele represente ainda mais divulgação para a película ou sua veiculação em DVDs.

Há consequências estéticas, claro. A inversão do rumo da adaptação conduz a problemas análogos aos que são estudados quando se fala da adaptação dos livros pelo cinema. A versão literária de Rio contém ótimo exemplo disso. Uma das passagens mais divertidas do filme é o encontro entre os heróis Blu e Jade e o buldogue Luiz, que vive numa oficina mecânica. Luiz baba o tempo todo. Sua baba não é apenas fonte de humor, mas solução para um problema do casal. O humor da cena está no fato de que a tal baba parece adquirir, na tela, forma e tempo completamente absurdos. No livro, os fatos ligados à sequência são relatados. Mas não há como transformar a baba cinematográfica, engraçada e expressiva, em baba literária com as mesmas características. Nas palavras, ela é apenas um elemento da cena, não o centro da cena. Assim como as adaptações cinematográficas são uma espécie de demonstração constante dos limites do cinema como meio de expressão e das singularidades das linguagens verbais, a adaptação literária nos lembra do limite dessas, e das singularidades que transformaram o cinema na linguagem mais popular de todos os tempos.

O INVASOR
. De Marçal Aquino, que também assinou o roteiro do filme com Beto Brant e Roberto Ciasca
. Má Companhia,
124 páginas, R$ 19.
Um caso incomum na relação entre cinema e literatura. O autor já havia começado a escrever sua novela quando o diretor Beto Brant lhe propôs transformá-la em filme. Quando ele retomou a narrativa literária, O invasor já havia sido filmado, e a experiência da filmagem interferiu na finalização do livro e o influenciou. Outra singularidade é o fato de que o próprio Marçal Aquino assina as duas obras, de modo que ambas, em certo sentido, materializam as mesmas ideias que estavam em sua cabeça, ainda que de duas formas distintas. O enredo, sobre pessoas atormentadas pelo homem que contrataram para cometer um crime, não é o único ponto comum entre elas: também o estilo seco e os climas opressivos estão presentes nas duas criações.

 

RIO
. De Lexa Hillyer, baseado no roteiro de Todd R. Jones e Earl Richey Jones
. Ediouro/ Agir,
94 páginas, R$ 26,90
A adaptação busca uma estrutura próxima da que norteia boa parte dos lançamentos para adolescentes – capítulos curtos, que apostam mais na descrição de ações que nos sentimentos das personagens. A edição utiliza imagens do filme, mas o faz com bastante parcimônia – algumas páginas internas,
as capas e as orelhas do livro, apenas. Perde-se um pouco do aspecto satírico do desenho animado de
Carlos Saldanha, mas seu ritmo frenético é mantido, assim como o jeito irônico.

 

 

RANGO
. De Justine e Ron Fontes, baseado no roteiro de John Logan
. Ediouro/ Agir, 152 páginas
O formato é parecido com o de Rio, lançado pela mesma editora (embora sejam adaptações de obras de estúdios diferentes – Rio é da Fox, Rango, da Paramount) – inspiração nos formatos usuais de livros para adolescentes, utilização parcimoniosa de imagens dos filmes. A linguagem, contudo, é mais infantil, como se os autores esperassem um público mais jovem, e a edição brasileira aposta em letras maiores, decisão gráfica típica do mercado de livros para crianças. Mesmo assim, a narrativa é mais cheia de detalhes, o que permite que o enredo do livro acompanhe mais de perto a estrutura do filme.

 

 

 

A GAROTA DA CAPA VERMELHA
. De Sarah Blakley-Cartwright, baseado no roteiro de David Leslie Johnson
. iD Editora, 348 páginas
O filme é mais “adulto” que o livro. As imagens literárias que a autora usa são eventualmente tão infantis que parecem em desacordo com a densidade psicológica da história que conta. Foi o lançamento que melhor lidou com a dicotomia entre cinema e literatura, do ponto de vista dos interesses do mercado: o final da história não foi incluído na edição, de modo a não prejudicar o suspense em torno do lançamento cinematográfico. Os leitores tiveram acesso a ele pela internet, 24 horas depois da estreia da película.

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