Publicado originalmente por Antonio Gonçalves Filho em O Estado de S.Paulo

Bill Clegg, o autor de Retrato de Um Viciado Quando Jovem, acordou um dia amarrado a uma cama de hospital após uma maratona de sexo, álcool e drogas que parecia não ter fim e consumiu toda as economias do agente literário, algo em torno de US$ 70 mil, em 2005. O quarto branco do hospital foi o seu marco zero, o começo de uma nova vida. Hoje, diz, sua rotina é cuidar de outros viciados em grupos de apoio, frequentar as reuniões do AA, fazer exercícios na academia e retomar aos poucos sua atividade de agente literário.

Ozier Muhammad/The New York Times
Ozier Muhammad/The New York Times
‘Culpa e compaixão são palavras que não servem para nada’

Sacha, que não quer ser Rimbaud
“Culpa é um sentimento tão inútil como autocompaixão”, diz Clegg, respondendo a uma questão sobre sua relação com amigos e antigos funcionários de sua agência literária – que perderam o emprego por sua conduta irresponsável. “O melhor remédio é não repetir os erros do passado”, aconselha. Seu livro, diz, foi escrito com esse propósito, não com o espírito hedonista de um Hunter Thompson, que, no fim, acabou se matando com um tiro de espingarda. Tampouco o objetivo era o de fazer literatura com narcóticos. Clegg diz que droga e criação literária não andam necessariamente juntas.

Há, no entanto, exceções no cenário contemporâneo, acrescenta. Uma delas talvez tenha sido David Foster Wallace (1962 -2008), que se enforcou há três anos no auge de uma crise depressiva. Wallace é autor de um belo livro de contos, Breves Entrevistas com Homens Hediondos (Companhia das Letras, 2005), em que um dos temas é a dependência de droga. O escritor, cujo romance inacabado, The Pale King, acaba de sair nos EUA, era uma das grandes promessas da literatura americana. Cresceu numa família de classe média e passou toda a sua curta vida tomando antidepressivos. Sua biografia, que será lançada em 2012, poderá revelar se a fixação temática no uso de drogas foi ou não uma força propulsora de sua literatura.

“Não acho que a droga leve alguém a escrever – e, especialmente, a escrever bem”, comenta o autor de Retrato de Um Viciado Quando Jovem. “Acredito que se trata mais de uma justificativa para o uso”, conclui o escritor, cujo editor, Michael Pietsch, é o mesmo que se atreveu a concluir o livro inacabado de David Foster Wallace. Pietsch pode ter dado uma ou outra sugestão a Clegg (que agradece a ele na última página do livro), mas o que se destaca nesse relato confessional é a honestidade literária do autor, uma tentativa de entender a própria derrocada e a degradação de toda uma geração consumida por drogas pesadas e pelo álcool. “Quanto ao último, estou convencido de que há uma predisposição genética para o seu consumo”, diz Clegg, que finalmente concluiu seu segundo livro, 90 Days, que vem escrevendo há dois anos e sobre o qual mantém segredo.

DELÍRIO SECULAR

Thomas de Quincey
Autor de Confissões de Um Comedor de Ópio (1821). Começou a usar ópio em 1804 para se livrar de uma nevralgia e passou a vida dependente da droga, escrevendo sobre ela no livro.

Jean Cocteau
Poeta e cineasta francês, escreveu Ópio, Diário de Uma Desintoxicação (1930), sobre o esforço para se livrar da droga, que, segundo ele, afetou seu estilo literário.
William S. Burroughs

Escritor americano, autor de Junkie (1953), texto seminal sobre a vida de viciados em heroína, como ele e outros da beat generation.

RETRATO DE UM VICIADO QUANDO JOVEM
Autor: Bill Clegg
Tradução: Julia Romeu
Editora: Companhia das Letras (216 págs.,R$ 41)

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