Acervo encontrado em Cambridge revela ligação homoerótica de Wittgenstein com aluno que escrevia e editava suas teses e cuja morte prematura levou o pensador a abandonar o material, que ficou esquecido

Publicado originalmente na revista Veja

Wittgenstein: tristeza pela morte do namorado o levou a abandonar pensamentos (Divulgação)

Um perdido e inexplorado arquivo com materiais inéditos do filósofo Wittgenstein promete trazer novas revelações sobre a mente absolutamente brilhante – e igualmente conturbada – de um dos maiores filósofos do século XX, o austríaco naturalizado britânico Ludwig Wittgenstein, cuja morte completa 60 anos nesta sexta-feira. O achado, que pode resultar num livro ainda este ano, está sob os cuidados do professor de Cambridge Arthur Gibson, que passou os últimos três anos trabalhando no arquivo, desaparecido desde o caos da Segunda Guerra Mundial. E desde que Wittgenstein, abalado com a morte do namorado que editava e adminstrava esse acervo, se desencantou com o material.

O arquivo de 170.000 palavras e equações matemáticas deve permitir mergulhos inesperados na mente do filósofo, além de desvendar a complexa relação que ele tinha com o homem que punha boa parte de suas ideias no papel – Francis Skinner, morto prematuramente aos 29 anos. A maioria dos arquivos foi ditada por Wittgenstein para Skinner, o que denota a proximidade de ambos. Skinner morreu em 1941 por complicações decorrentes de pólio, após ter passado 16 horas esperando por atendimento em um hospital de Cambridge. 

Segundo o professor Arthur Gibson, a morte de Skinner provocou um colapso nervoso em Wittgenstein. Eles moravam juntos, passavam as férias juntos e chegaram a aprender russo juntos com o plano de emigrar para a União Soviética e trabalhar como agricultores ou médicos.  Em sua tristeza, o filósofo empurrou o arquivo para um de seus outros alunos, onde permaneceu escondido e inexplorado até hoje, 60 anos após a morte de Wittgenstein, em 29 de abril de 1951. 

Entre esses arquivos inéditos, estão 60 páginas do manuscrito do livro Wittgenstein’s Brown Book (algo como O Livro Marrom de Wittgenstein), que contém anotações sobre suas palestras em Cambridge na década de 1930, e uma introdução até aqui desconhecida. Gibson também acredita que um livro rosado de exercícios escolares norueguês com uma narrativa completa e desconhecida possa ser o item em falta de Wittigenstein chamado de Livro Rosa ou Livro Amarelo que os estudiosos têm esperado há muito tempo. Há também uma série de milhares de cálculos matemáticos em que Wittgenstein examina o teorema de Fermat. 

“Eu fiquei atordoado quando abri o arquivo pela primeira vez. Era surpreendente porque era um arquivo inteiro nunca visto antes e praticamente novo. Ele fornece uma penetração em seus processos de pensamento. É como se vocês estivesse quase dentro de sua mente”, disse ao jornal The Guardian o professor Arthur Gibson. 

O fato de as páginas terem demorado todos esses anos para serem exploradas se deve principalmente às circunstâncias. Em 1976, o material foi dado à Associação Matemática do Reino Unido (AM) pelo ex-presidente Reuben Goodstein, mas por falta de arquivistas profissionais não recebeu o devido valor. Em anos mais recentes, o arquivo foi entregue à Trinity College para investigação – um enorme trabalho eventualmente realizado por Gibson. 

Esse novo material vai acrescentar muito para o conhecimento de um homem que foi tão excêntrico quanto brilhante. O fato de Gibson ter descoberto que Skinner não era apenas o escrivão de Wittgenstein, mas sim um parceiro que dividia a mesma casa e um co-editor de seus pensamentos o torna muito mais importante para a filosofia de Wittgenstein do que se pensava anteriormente.

Gibson está agora acertando os detalhes de sua pesquisa que deve ser publicada em livro ainda este ano. Para ele, a pesquisa foi algo como um trabalho de amor por conta de suas fortes ligações com Wittgenstein. “O arquivo nos mostra que imprevistos e novas questões revolucionárias ainda nos aguardam na filosofia de Wittgenstein e nos conhecimentos científicos que nós pensamos já entender’, disse Gibson.

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