Texto escrito por Luís Antônio Giron, na Época.

Você já se preparou para migrar seus livros da galáxia de Gutenberg para a nuvem da Internet?

Em visita à biblioteca lá de casa –- um amigo se espantou com a quantidade de livros e a bagunça reinante, e não resistiu em perguntar: “Para quê tanto livro?” Respondi, citando cinicamente Tom Jobim: “Pra quê tanto céu, pra quê tanto mar?” Porque para mim os livros formam a minha paisagem infinita de papel, o cenário artificial da felicidade absoluta. A edificação que fiz construir nos fundos do quintal é minha versão da “torre” de Montaigne, o meu local de isolamento e meditação É o que mais próximo existe na Terra do Paraíso, como diria Jorge Luis Borges. Não posso viver sem meus livros, e dou boas vindas quando chegam novos integrantes do meu universo. Sou um notório rato de minha própria biblioteca, e não pretendo abrir mão disso. Não pretendia. O problema é que ando vivendo um apocalipse malthusiano: a superpopulação de papel chegou a um impasse. Corro o risco de sucumbir soterrado pelas montanhas de volumes que se equilibram precariamente na biblioteca. Ou, como em um conto que uma vez imaginei, sofrer um motim dos volumes descontentes com as condições em que se encontram, amontoados, alta e baixa cultura no mesmo nível de confusão.

Meu amigo contemplou demoradamente minha Babel particular e, como um médico que acabasse de auscultar um paciente talvez lunático, aconselhou-me a me livrar da maior parte dos livros. “Afinal, há muitas bobagens nos livros”, disse, ecoando um poema de escárnio de Philip Larkin.* Ele é uma pessoa esclarecida, e certamente não teria dito isso ou feito a pergunta sobre a utilidade dos livros quinze anos atrás. Ele conhecia minha coleção em outra casa, e se espantou com o que encontrou. Houve tempo em que algumas pessoas, ao contemplar as estandes abarrotadas, costumavam vir com esta: “Você lá leu todos esses livros?” Ninguém mais é ingênuo assim, até porque os grandes bancos de dados da internet mostraram que existem mais livros do que qualquer pessoa foi capaz de sonhar – e à disposição de quem os quiser consultar. Agora todo mundo já parece saber que é impossível ler todos os livros. O método de adquirir conhecimento deslocou seu eixo. Como disse Umberto Eco, agora o processo de acumulação tradicional foi substituído pelo de seleção. É inútil, portanto, coletar livros, documentos e papéis, uma vez que quase tudo poderá ser encontrado disponível na rede. Mesmo assim, alerta Eco, não é bom não contar com o fim dos livros. Eles ainda serão apreciados como objetos de arte e por sua utilidade intrínseca, já que não oferece dificuldades técnica para serem manuseados.

Não penso assim. Acho que os livros em versão papel estão condenados. As grandes bibliotecas do mundo estão no processo final de digitalização de seus acervos. As livrarias andam se extinguindo mundo afora. Fiquei espantado em Londres há dois anos, quando descobri que a cadeia de livrarias americana Borders começava a fechar suas portas. Aqui em São Paulo, as livrarias como local de encontro, devaneio e de busca de livros também escasseiam. O mesmo movimento está levando até os intelectuais a se desfazer de suas bibliotecas. Por falta de espaço ou por inutilidade, muita gente respeitável está jogando livro fora. Basta visitar os sebos – estes, sim, cada vez mais atulhados – para notar coleções inteiras jogadas às traças. Os tabletes (minha tradução para tablets) e leitores digitais ultrapassaram tecnologicamente os livros. Há quem afirme que a melhor invenção do mundo é o livro porque, blábláblá, ele não precisa ser ligado e você pode voltar para o ponto em que o deixou. São pessoas que ainda não usaram um e-reader. Os tabletes talvez sejam a maior invenção desde o livro de Gutenberg – e, curiosamente, transportam o leitor para o tempo dos tabletes de argila dos escribas da Antiguidade.

Eu próprio devo me render à realidade. Estamos assistindo à agonia da chamada Galáxia de Gutenberg – termo forjado pelo comunicólogo canadense Marshall McLuhan no livro A Galáxia de Gutenberg, de 1964 para definir a era da imprensa, iniciada por Gutenberg em 1439, com os tipos móveis, que desencadearam a revolução da imprensa. A prensa em papel chega ao fim, ultrapassada pela transposição digital de todos os textos para a internet. A “nuvem” da Internet e suas atuais corporações de servidores deixaram as pobres bibliotecas de papel para trás.

O que fazer para migrar os livros da biblioteca tradicional para a “nuvem”? Eu me confesso despreparado para responder à pergunta. Sou excessivamente viciado em livros. Sei que eles são velhos e ultrapassados, e que contêm bobagens. Mas preciso folhear suas páginas, passear por seu conteúdo mesmo que desprezível e me perder em argumentações, verbetes e narrativas. Sim, poderia fazer isso diante do computador ou do leitor digital que comprei recentemente. Também me perco neles. Só que os livros exibem uma beleza e, principalmente, uma credibilidade antigas de que não consigo me libertar. São velhos companheiros.

A superpopulação de papel, no entanto, está me forçando a mandar embora pelo menos metade deles, até para manter meu casamento, porque estou sendo ameaçado de ser expulso de casa acompanhado com um caminhão de livros. Sou apegado a coisas absolutamente inúteis. É o caso de uma edição da Encyclopedia Brittanica, edição de 1962, em 24 volumes. Comprei-a em um sebo perto do Largo de São Francisco há uns 30 anos. Ela me acompanhou nos vaivéns e metamorfoses da vida. Sei que retirá-la da biblioteca abriria um espaço útil. Seus tomos estão empilhados de quatro em quatro no chão de uma das estantes. Parecem que não prestam para nada. Sei que seria um alívio para minha família. Não consigo, porém, pensar na vida sem aquela inútil edição ultrapassada. Porque leio e consulto a Britannica como uma obra de arte. Consulto os verbetes de cidades, para visita-las no ponto em que foram catalogadas, revelando detalhes depois esquecidos pelos enciclopedistas posteriores. Leio os verbetes de filosofia e literatura, mais tarde substituídos por outros, que contêm uma visão do assunto – e do mundo – datada e, por isso mesmo, esclarecedora. Eu me sentiria inseguro sem a enciclopédia, mesmo que eu assinasse a Britannica on line pela Internet. Não é a mesma coisa. Já tentei isso antes. On line, a Britannica parece não conter todos os verbetes – ou, pelo menos, os mesmos verbetes da minha velha enciclopédia. A rede tem Britannica, Wikipedia e similares. Mas ainda confio naquilo que toco… Como fazer para migrar meu cérebro da galáxia para a nuvem? Como desmontar uma biblioteca tão longamente cultivada? Diga-me o desapegado leitor internauta, por favor.

Sei que o apego faz mal. Mas levei minha vida inteira formando a minha biblioteca. Quando nasci, já havia uma grande na casa de meus pais – e passei a infância me nutrindo nela. Não tenho capacidade de pensar em um lar sem os livros, assim como não me acostumaria a uma cozinha sem pratos ou fogão a gás. Vivo selecionando informação, mas também sou viciado em acumular dados e coisas. Podem me chamar de atrasado, egoísta, conservador, obsessivo-compulsivo. Que me perdoe o amigo, mas não vou seguir o seu o conselho. Prefiro o paraíso off line. Prefiro o caos. Se os livros estão condenados, podem vir me procurar, pois encontrarão abrigo no fundo do meu quintal.

*Trata-se de Study of reading habits (Estudo dos hábitos de leitura, de 1964), em tradução livre: “Não leia muito agora: o cara/ Que abandona a garota/ Antes que o herói apareça, o sujeito/ Que é amarelo e dono da loja/ Parecem demasiado familiares. Encha a cara/ Livros são um monte de merda” (Don’t read too much now: the dude/ Who lets the girl down before/ The hero arrives, the chap/ Who’s yellow and keeps the store, /Seem far too familiar. Get stewed: /Books are a load of crap.)

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