Texto de Ivan Maciel de Andrade publicado originalmente na Tribuna do Norte

Alguém me perguntou através do Twitter: “Para que serve a literatura?”. E completou dizendo que, pelo menos no Brasil, escritores como James Joyce, Marcel Proust, Honoré de Balzac, William Faulkner, Gustave Flaubert, Eça de Queirós etc., só são lidos nos meios acadêmicos. Respondi laconicamente. Mas se houvesse espaço em que coubesse a resposta teria dito que, para começo de conversa, a literatura tem sua justificação em si mesma: a obra de arte é uma das mais esplêndidas criações do espírito humano. A literatura não serve apenas para interpretar e compreender a vida, revelando comédias, dramas e tragédias que constituem a essência da natureza humana. Ela expande e enriquece a própria vida, criando um mundo imaginário, com seres fictícios – que têm algumas vezes existência mais real do que os próprios seres humanos –, embora a boa literatura nunca perca suas raízes históricas. É sempre fruto de uma realidade situada no espaço e no tempo. Por seu valor estético, no entanto, se eterniza. Isso foi o que aconteceu, para citar apenas um exemplo, com a obra de Shakespeare. Tudo o que ele escreveu está ligado ao tempo e ao país em que viveu, mas as emoções e sentimentos que descreve poderiam ocorrer em qualquer época e em qualquer parte do mundo. Ele continua tão atual como no momento em que foram conhecidas as suas peças. Sua genialidade se reafirma a todo instante. A prova é a enorme influência que ainda hoje ele exerce.

Quanto aos escritores que criam obras-primas, não dispomos de estatísticas, mas eles são lidos, sim. Como se explica que as grandes editoras invistam na tradução diretamente do russo (já existem várias edições com tradução indireta, sobretudo do francês) de toda a densa e complexa obra de Dostoiévski? Por que está sendo traduzido também do russo o extenso “Guerra e Paz”, de Tolstói, depois de serem traduzidos “Anna Kariênina” e vários outros romances e novelas do mesmo autor? Os romances de Proust já foram publicados em duas traduções e está sendo anunciada uma nova edição. Joyce, um escritor reconhecidamente difícil de ser lido, teve seu “Ulisses” traduzido por Houaiss, depois por Bernardina da Silveira Pinheiro e agora está sendo prometida uma tradução inovadora.

Uma emissora de televisão como a Globo, preocupada em manter, acima de tudo, os seus elevados índices de audiência, faz de vez em quando adaptações (de qualidade duvidosa), no padrão de episódios seriados, de obras clássicas de autores portugueses e brasileiros. O cinema estrangeiro frequentemente faz a mesma coisa em relação a peças de Shakespeare, romances de Dickens etc. Ou são adaptadas obras de grandes autores atuais, sem que o público perceba a origem do roteiro…

De qualquer forma, é preciso aceitar – apesar de todo o nosso espírito democrático – que as melhores obras literárias têm certo caráter “elitista”, pois só despertam interesse ou somente são compreendidas e valorizadas por pessoas que têm uma iniciação nesse gênero de leitura, de forma autodidática ou por meio de embasamento teórico. Enquanto isso, os livros de subliteratura alcançam tiragens excepcionais, com sucessivas reedições e superlotam as relações dos mais vendidos.

Lembro-me que a minha guia numa das visitas ao Louvre – a que sempre vou quando retorno a Paris – era uma jovem brasileira. Quando terminou nossa turnê pelo museu, as pessoas de minha família foram para lojas e eu, que não tinha itinerário certo, saí do Louvre conversando com a guia. Tinha cerca de vinte e cinco anos. Nascera no Recife, onde concluíra o curso de letras e estudava literatura em Paris fazia mais de três anos. Não voltara ainda nenhuma vez ao Brasil. Na verdade, pretendia morar definitivamente em Paris. Já estava ambientada à vida parisiense. Trabalhava, estudava e se sentia feliz. Notei que tinha bons conhecimentos literários. Propôs irmos a um local que ela conhecia para conversar e beber um pouco de vinho. Em certo momento, fiz uma descoberta: “Você se parece com Lolita do romance de Vladimir Nabokov, não a ninfeta, mas a Lolita que tivesse chegado à sua idade”. Ela, com uma alegre risada: “Olhe que essa comparação é irresistível…”.

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