Publicado originalmente por Patrícia Rocha, em Donna ZH

Houve um tempo em que, em se tratando de amor e sexo, praticamente tudo era pecado ao sul do Equador. Preliminares, beijos, toque? Motivos mais do que suficientes para maridos e mulheres se confessarem ao padre. Como mandava a Igreja — e naquela época a maioria temia em desobedecer —, o ato sexual deveria ter como único e nobre propósito a procriação, e tudo que fosse feito para evitar a concepção ou simplesmente ter prazer era malvisto.

Essa era a regra que imperava no Brasil Colônia, assim como em muitos outros países sob influência da Igreja Católica em que o medo de pecar perseguia casais até no leito sagrado do matrimônio. E é justamente neste período que demarca o início do detalhado e saboroso inventário da sexualidade e do erotismo no Brasil presente no recém-lançado livro Histórias Íntimas, da historiadora Mary Del Priore.

Mais do que um tratado sobre sexo, o volume espreita a intimidade de nossos antepassados, quando a noção de privacidade ainda estava por ganhar força: nas casas de poucas peças, não raro até a cama era compartilhada por familiares; nas ruas, viajantes europeus chocavam-se ao avistar mulheres urinando a olhos vistos. Com riqueza de detalhes, a autora carioca mais uma vez atesta sua vocação para aproximar a história do grande público, com fluidez e tom coloquial, percorrendo hábitos de higiene (ou a falta deles), regras sociais, crendices, hipocrisias e costumes que caracterizaram a vida sexual e amorosa do brasileiro ao longo dos últimos séculos.

Dos primeiros tempos pós-colonização, a autora envereda pelo ápice da hipocrisia e da dupla moral no século 19, passando pelo transformado século 20 em que, nos revolucionários anos 70, Chico Buarque e Ruy Guerra convidavam todos a fazer “um pecado rasgado, suado a todo vapor”, até chegar aos dias de hoje.

— É a passagem de uma sociedade extremamente repressiva, para quem o sexo era sujo, proibido, para uma sociedade em que hoje o sexo é ginecológico, o corpo se exibe, as pessoas não têm mais limites para expor a sua sexualidade — avalia Mary Del Priore, em entrevista por telefone desde o Rio.

Resta, agora, a quem vive no lado de cá da linha imaginária que divide o globo, perguntar-se quais serão os rumos da intimidade.

Donna –No livro Histórias Íntimas: Sexualidade e Erotismo na História do Brasil (Ed Planeta, 256 pgs) a senhora mostra como não havia privacidade no Brasil Colônia, seja nos quartos e camas compartilhados entre pessoas da família e no que se podia ver pelas frestas das paredes, seja no desfile de escravos seminus nas ruas. Como a senhora compara aquela ausência de privacidade com tudo que se revela hoje da vida privada nas redes sociais ou nas revistas de celebridades?

Mary Del Priore – O problema é a leitura que se faz dessa exposição. A nudez do Brasil Colônia, por exemplo, era sinônimo de pobreza material. O erotismo estava em ver uma mulher bem vestida e poder desnudá-la. E hoje estamos completamente nuas, independentemente de nossa forma física. Quando o biquíni ganhou força nos anos 80, uma parte da indústria achava que aquilo não iria para frente porque só poderia ser usado por mulheres de até 20 anos. Depois, elas não teriam formas em dia para usá-lo. E hoje há uma banalização total da nudez, qualquer pessoa está seminua na televisão, nas revistas de celebridades, na novela… Então, a pergunta que fica – e que não consegui responder – é onde está o erotismo hoje. Se o erotismo não consiste mais em despir a mulher com o olhar, como foi feito durante séculos, e agora está tudo tão explícito, onde está o erotismo?

Donna –A senhora comenta que no Brasil Colônia os seios não eram vistos como algo sensual, e sim uma fonte de alimento, associada à maternidade. Quando isso começa a mudar?
Mary – Nos anos 1970, com a introdução das academias de ginástica e a chegada da maldita Barbie (risos). A boneca vai passar a ser um modelo de corporalidade desejado pelas mulheres de elite e depois pelas mulheres de outras camadas. Isso, somado à democratização da cirurgia plástica, vai levar à busca de uma corporalidade que não tem nada a ver com a nossa mestiçagem, alterando a autoestima das brasileiras em relação a suas formas.

Donna – Já o bumbum foi, desde sempre, a preferência nacional?
Mary – É histórico. As relações sexuais eram por trás, embora proibidas pela Igreja, porque isso animalizaria um ato que deveria ser espiritualizado e voltado exclusivamente para a procriação. Mas, durante o século 19, com essa ênfase toda na procriação, a medicina sugeria que a posição de quatro era a que melhor facilitava a fecundação das mulheres _  e acaba que o lugar erótico era aquele que era possível de se ver, a bunda. E com os seios desvalorizados como eram (e convenhamos quem amamentou duas ou três crianças sabe perfeitamente sabe como é um peito depois da amamentação, e elas amamentavam bem mais filhos que isso), a gente imagina que a parte realmente atrativa era o baixo corporal, em especial a parte posterior.

Donna –Quais as raízes da imagem do Brasil, e mais especificamente da mulher brasileira, associada ao erotismo?
Mary – A prostituição sempre foi uma profissão comum entre mulheres muito pobres e, da mesma forma que se importou polacas, francesas no século 19, exportou-se brasileiras como prostitutas para a Europa no século 20. Momento também em que o nosso Carnaval começa a ser exportado via CNN, nos anos 80, quando também o Brasil passa a receber, a partir dos anos 90, o turismo de massa. Assim, se consolida essa imagem da mulher Brasil como fácil sexualmente.

Donna –Até então não havia essa imagem?
Mary – Sim, no século 19, os viajantes estrangeiros que passam pelo país são muito críticos em relação ao comportamento das mulheres. Mas, volto a dizê-lo, essa disponibilidade sexual da mulher brasileira foi muito marcada pela nossa pobreza _ era uma maneira de ganhar a vida. Há vários registros de viajantes que rapidamente se amasiam ou saem com as meninas que, muitas vezes, eram oferecidas pelas próprias mães. Isso tudo é o retrato de um país muito pobre.

Donna –O Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro acaba de reconhecer a união homoafetiva como uma entidade familiar. Como a senhora avalia o peso dessa decisão em uma perspectiva histórica?
Mary – Tem um peso enorme, é o primeiro reconhecimento do Estado brasileiro dessa situação. Só é lamentável que esse tenha vindo do por um Tribunal Superior de Justiça e não pelo Congresso: os representantes do povo se abstiveram. Se olharmos a perseguição às minorias no Brasil, passamos pelas visitas da inquisição perseguindo os sodomitas, no século 19, o horror que os médicos e higienistas tinham do homoerotismo, creditando o vazio demográfico do país à falta de homens que queriam fazer filhos. Então, os homossexuais que no séculos 16 e 17 haviam sido perseguidos pelo desperdício de sêmen, nos séculos 18 e 19 o são porque se queria homens para os exércitos e para pais de família. Depois, nos anos 60 e 70, o êxodo que de homossexuais de cidades pequenas, para poder viver sua sexualidade em cidades grandes, é estarrecedor. Ao mesmo tempo, fica forte, nos anos 70, aquele modelo erótico que copia o tradicionalismo brasileiro, em que um é o macho, e o outro é o que vai tomar conta da casa. E hoje sabemos, inclusive de  sexólogos e antropólogos, que não têm mais essa camisa de força de “sou homem ou sou mulher, ajo assim ou assado”. Há uma fluidez nos papéis sexuais.

Donna –Se o século 19 era o do adultério, e o século 20, o da descoberta do corpo e da revolução sexual, como pontua o livro, o que a senhora diria que se insinua para o século 21?
Mary – Nosso grande problema no Brasil é sermos um na vida pública, liberados, a favor de tudo, sem limites, e outro na vida privada, machistas, racistas e homofóbicos. Espero que o século 21 seja o do encontro e que faça do brasileiro alguém mais evoluído, tolerante, que aceite as diferenças. O que não podemos continuar, e o livro caminha nesse sentido, é dando um passo à frente e dois atrás. Nos liberamos nos anos 80, mas esses também são os anos de violência extrema contra a mulher e do pavor da aids. Nos liberamos nos anos 70 com a pornochanchada, mas o herói da pornochanchada é um garanhão que pega todas e quer casar com a virgem. O problema do Brasil é que, no fundo, temos uma espécie de dupla personalidade em tudo que diz respeito à nossa sexualidade. Quando vamos, na intimidade, ser inteiros?

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