Texto de Mariana Caminha publicado originalmente no Blog do Noblat

Para chegarmos à pequena cidade de Guildford, a cerca de 40 quilômetros de Londres, contratamos o André, profissional brasileiro que, de tanto nos levar daqui para ali, já virou amigo da família.

Nossa viagem tinha um próposito puro e simples: visitar, no Mount Cemetery, o túmulo de Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo pseudônimo Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas.

Ao longo do percurso, durante o qual Fabrício dormiu profundamente, explicamos a André o porquê do nosso interesse por Carroll. Dissemos a ele que ali estava enterrado o autor de uma das mais famosas obras literárias de todos os tempos, livro que apaixona crianças e adultos há quase um século e meio.

André nunca leu Alice no País das Maravilhas, mas certamente o teria feito se houvesse crescido na Inglaterra.

Entre as crianças daqui, a personagem Alice é das mais populares, apesar da complexidade do livro, cuja narrativa o afasta das tradicionais obras infantis. Conversamos sobre o assunto ali, ao pé do túmulo, que nos pareceu bem descuidado.

Depois da visita ao cemitério, seguimos rumo a Oxford, para a segunda parte da viagem. Foi lá que nasceu a história de Alice’s Adventures in Wonderland, título original do livro.

Continuamos o papo com André, e explicamos a ele que, entre os estudantes de Oxford, a fama do inglês Lewis Carroll era grande. Tratava-se de um homem admirado pela inteligência: além de formar-se matemático, era diácono da Igreja Anglicana, e foi um dos pioneiros da fotografia na Inglaterra.

Em 1856, a filha pequena do reitor do Christ Church College é apresentada a Charles Dodgson. Seu nome, Alice. Encantado pela beleza da criança, Carroll costumava passar horas conversando com a amiguinha, fotografando-a e contando-lhe histórias.

Foi a ela que, no dia 4 de julho de 1862, enquanto passeavam de barco, narrou as aventuras de uma menina, não por coincidência chamada Alice. Encantada com a história, a filha do reitor pede a Charles que a escreva. Assim nasceram As aventuras de Alice no País das Maravilhas e, depois, Alice Através do Espelho, obras que sobreviveram aos tempos, como verdadeiros clássicos da literatura mundial.

Charles Dodgson assinou-as como Lewis Carroll, para que não se associasse o escritor ao presbítero anglicano.

A par dessa relevância literária indiscutível, questões polêmicas também se destacam na biografia desse gênio. A atração de Carroll por meninas sempre despertou suspeitas, embora nunca tenha sido formalmente acusado de pedofilia. São inúmeras as fotos tiradas por ele nas quais menores de idade aparecem nuas, ou em poses sensuais. Interesse, tudo indica, de natureza platônica, razão, porém, de enormes sofrimentos íntimos, como se lê nos diários que deixou.

Mais importante do que o suposto desvio sexual do reverendo Charles Dodgson é a grandeza literária do criador de Alice, proclamada até pela Igreja Anglicana: entre os nomes de romancistas e poetas gravados no chão da Abadia de Westminster, em Londres, está o de Lewis Carroll, merecida homenagem ao escritor cuja obra faria, sozinha, a grandeza de qualquer literatura.

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