Herói tem dilemas emocionais em obra de Jeffery Deaver, autor de romances policiais que assumiu o “desafio” de continuar a saga literária iniciada por Ian Fleming nos anos 1950 e levada ao cinema em diversas adaptações

Publicado originalmente na revista Veja

Jeffery Deaver: o "seu" James Bond que pensa duas vezes antes de puxar o gatilho

James Bond volta a enfrentar o mal no novo romance do americano Jeffery Deaver, Carte Blanche (Carta Branca, em tradução literal), no qual o célebre agente secreto mostra seu lado mais humano e suas dúvidas morais na hora de fazer uso de sua licença para matar. Deaver, um prolífico autor de romances policiais, assumiu o “desafio e a responsabilidade” de continuar a saga literária iniciada por Ian Fleming nos anos 1950, e que foi retomada por outros quatro escritores desde então. “James Bond tem permissão para brincar de ser Deus como agente secreto, mas deve decidir em que momento cruzará a linha que o separa do mal. Essa é a dúvida moral que enfrenta ao longo de todo o livro”, explicou o autor americano em entrevista num hotel no centro de Londres. “Se é necessário tirar uma vida, ele o fará, mas nunca por conveniência. Nos filmes, muitas vezes vemos mortes sem consequências emocionais, o que não ocorre neste livro.”

Deaver não renunciou aos ingredientes habituais dos livros e filmes protagonizados pelo agente britânico, onde não podem faltar os carros de alta categoria e as mulheres exuberantes – em Carte Blanche, Bond conduz um Bentley e se envolve com três amantes.

O livro apresenta o agente por volta dos 30 anos, a serviço do MI6 britânico, com a missão de defender o mundo de um fato “terrível que vai acontecer em cinco dias”. Deaver não revela mais detalhes do argumento que se desenvolve “a toda velocidade, cheio de reviravoltas e surpresas”, em cenários como a Sérvia, Londres, Dubai e África do Sul. 

O americano atualizou o personagem de Ian Fleming que, embora ainda beba seu tradicional Dry Martini, deixou de fumar e não procura nas mulheres aventuras efêmeras, mas “algum tipo” de relação. “A primeira razão para que Bond tenha deixado de fumar é que meus livros são vendidos em mais de 150 países, e em muitos deles existe um movimento contra o tabaco”, assinalou o escritor. “Mas ainda mais importante é o fato que um agente secreto nunca fumaria porque seria muito fácil identificá-lo. A fumaça chama atenção e as bitucas deixam um rastro”, apontou Deaver.

O sexo e a violência estão presentes em Carte Blanche, mas de forma suave. “Prefiro não mostrar detalhes muito explícitos e me retirar no momento oportuno. Não me sentiria confortável descrevendo cenas de tortura, por exemplo. Além disso, Ian Fleming escrevia em 1950, uma época na qual as relações românticas não eram escancaradas, e eu encaro isso de forma parecida”, ressaltou Deaver.

O escritor americano, decidido a localizar a seu personagem em nosso tempo, recorre a exemplos da atualidade para explicar a psicologia do agente secreto. Ao se perguntar o que teria feito James Bond em uma invasão à casa onde se escondia o líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, Deaver não titubeia: ele teria disparado. “Não acho que Bond teria algum problema com isso, especialmente se pensar nos atentados de Londres, Nova York e Madri. As pessoas têm que enfrentar as consequências de suas ações, e essa foi a consequência para bin Laden.”

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