Publicado oroginalmente por ALEXANDRA ALTER no The Wall Street Journal

Ao devorar um jovem vivo, o protagonista do próximo romance de Glen Duncan, “The Last Werewolf” (literalmente, O Último Lobisomem), pensa no poema “Mariana”, de Alfred Tennyson. “Quisera eu estar morto”, recita Jake silenciosamente.

Jake é um londrino melancólico, erudito, fumante inveterado de Camel que bebe uísque puro malte. Quando é lua cheia, seus pelos e dentes crescem e ele desenvolve um forte apetite por carne humana.

Duncan, um escritor de 45 anos que mora no sul de Londres, inventou Jake em meio ao desespero. Seus sete romances anteriores tinham vendido muito pouco e seu agente havia dito que as perspectivas de conseguir uma editora para o próximo eram nebulosas. “Foi na verdade uma decisão prática e mercenária de tentar escrever um típico romance de gênero”, diz Duncan. O que começou como um livro sobrenatural para leitura rápida se tornou um híbrido estranho: uma obra literária sofisticada, com um narrador que poderia talvez ser descrito como Humbert Humbert com pelos.

Deu certo. O romance, lançado no Reinon Unido em abril, já foi vendido em 18 países. A editora americana Knopf comprou uma trilogia inteira do lobisomem — Duncan está atualmente terminando a continuação — e planeja lançar o primeiro romance nos Estados Unidos em julho. Ridley Scott, diretor de filmes como “Alien” e “Blade Runner”, comprou os direitos autorais para o cinema. “Até agora, esta foi minha jogada mais inteligente”, diz Duncan.

Algo estranho está acontecendo no mundo da ficção popular. Este ano, romances com robôs, bruxas, zumbis, lobisomens e fantasmas estão rompendo as fronteiras entre a alta literatura e gêneros menos respeitados como ficção científica e fantasia, virando de cabeça para baixo as premissas do mundo literário sobre o que caracteriza alta e baixa literaturas. Seguindo uma série bem-sucedida de títulos sobrenaturais, como o sucesso do ano passado “The Passage”, um épico de vampiro do romancista Justin Cronin, e o êxito surpreendente de “A Discovery of Witches” (Uma Descoberta de Bruxas), de Deborah Harkness, escritores de todos os genêros literários estão fazendo narrativas mescladas com o fantástico.

Uma enxurrada de títulos com temas sobrenaturais vai chegar às livrarias americanas neste terceiro trimestre, de comédias mórbidas e suspenses a dramas familiares — com zumbis. “The Leftovers” (As Sobras), de Tom Perrotta, se passa num futuro próximo, depois de milhões de pessoas terem evaporado num desaparecimento em massa. Em “Graveminder” (O Guardião da Cova), um moderno drama familiar gótico de Melissa Marr, uma jovem retorna a sua pequena cidade para o funeral da avó — uma cena familiar, exceto pelo fato de que a avó da heroína foi morta por um zumbi devastador. Em “The Ridge” (A Serra), um assustador suspense sobrenatural de Michael Koryta, uma estrela literária ascendente, uma luz azul fantasmagórica causa uma série de assassinatos misteriosos e mortes acidentais numa serra de Kentucky.

“The Magician King”, a continuação de Lev Grossman a seu best-seller “The Magicians”, tem como tema um grupo de mágicos na casa dos 20 anos que governam um reino similiar ao de Nárnia, com bichos-preguiças falantes, lebres proféticas e chaves mágicas. Grossman, que foi comparado a J.K. Rowling e Jay McInerney, tentou primeiro a alta literatura antes de optar pela fantasia. Ele diz que a ficção sobrenatural está rapidamente se tornando uma tendência dominante da literatura contemporânea.

A explosão dos títulos de fantasia dos autores comerciais está corroendo velhas divisões na indústria editorial. A ficção de “gênero”, que inclui categorias como romances de detetives, histórias românticas, terror, ficção científica e fantasia, existe num tipo de universo paralelo, com selos próprios, muitas vezes prateleiras separadas nas livrarias e sites de fãs dedicados. As vendas dos títulos de gênero superam em muito as da literatura considerada séria, mas a maioria dos livros é desdenhada pelos principais críticos.

Com a queda das vendas de livros impressos, a maioria das editoras está cada vez mais mesclando títulos de sucesso que quebram moldes de gênero e agradam a uma ampla faixa de leitores. Fantasia e ficção científica responderam por 10% das vendas de ficção para adultos nos EUA no ano passado, comparados com 7% para a alta literatura, de acordo com uma pesquisa da Bowker, que analisa a indústria livreira. Em 2010, 358 títulos de fantasia chegaram à lista dos best sellers, ante 160 em 2006, de acordo com um estudo da Stuart Johnson & Associates e da Simba Information, que acompanham as vendas de livros.

Os crossovers podem produzir ganhos enormes. Os romances de vampiros de Charlaine Harris, que resultaram na série “True Blood”, da HBO, foram um enorme sucesso, com cerca de 21 milhões de cópias vendidas e mais de 1 milhão de versões eletrônicas baixadas para o Kindle. Mas ainda ficou longe da série “Crepúsculo”, de Stephenie Meyer, com 116 milhões de cópias vendidas, e de “Harry Potter”, de J.K. Rowling, com 400 milhões de cópias vendidas. O escritor de suspenses sobrenaturais Dean Koontz já vendeu 450 milhões de livros.

A mistura de gêneros cria alguns riscos de marketing. As editoras se debatem entre buscar uma audiência de fantasia e ficção científica limitada mas fiel, dando aos livros capas com imagens de discos voadores e castelos enluarados, ou arriscar alienar esses fãs com capas mais genéricas.

Os fãs de fantasia observam que a divisão entre alta e baixa literatura foi estabelecida recentemente pelos modernistas, que preferem o hiperrealismo em vez da trama e da narrativa. Historicamente, pilares do cânone literário, de Homero, Dante, Milton e Shakespeare até Júlio Verne, Mary Shelley e Bram Stoker, mesclaram elementos naturais e sobrenaturais. O pêndulo agora pode estar voltando, com uma literatura que pode ser ao mesmo tempo popular e sofisticada, realista e fantástica.

 

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments