Por Camila Kehl
Fonte: Diário de Canoas

Não faz muito tempo, li, em algum lugar – e a respeito de Clarice, uma biografia, do norte-americano Benjamin Moser (Ed. Cosac Naify, 558 páginas de texto, R$ 82,00) –, a seguinte frase: “Não tenho dúvidas: Clarice Lispector é muito mais citada do que conhecida”. É verdade. Eu mesma já escrevi, aqui no Livros Abertos, sobre a grande fama da autora, uma fama que dá peso a um nome e que leva à propagação de trechos que são, na maioria das vezes, erroneamente atribuídos à escritora. Essa vulgarização, que deve ser creditada totalmente à velocidade e à superficialidade da internet, entristece profundamente os que realmente conhecem sua obra. Nessa popularização rasa, mesmo citações verdadeiras parecem fora de contexto quando repetidas de forma autômata e egocêntrica por gente que mal conhece sua obra.

A leitura da biografia publicada pela Cosac Naify só faz acrescentar pesar a essa quantidade de dor que alguns, como eu, sentem pela ignorância generalizada que os brasileiros têm demonstrado. Benjamin Moser, em uma entrevista recente, deixou transparecer que, antes da publicação da obra, sentiu certo receio em relação à receptividade que nosso povo demonstraria para com um apanhado de dados biográficos e bibliográficos sobre uma escritora considerada praticamente um patrimônio cultural do país, ainda que desvalorizada por hordas de estudantes das novas gerações que se puseram a trabalhar, dia após dia, em prol da profundidade de um pires. Enfim. Moser é estrangeiro, e português não é sua língua materna (o livro foi escrito em inglês e traduzido por José Geraldo Couto), mas merece todo o nosso respeito – e muitos aplausos. O volume, em sua totalidade, é absolutamente impecável e irrepreensível.

Subitamente, à primeira análise, já se vê que Clarice, uma biografia, foi composta a partir de muito esforço – a obra inteira tem 652 páginas (suas Notas são, portanto, extensas). Desde os capítulos iniciais, Benjamin Moser vai além da narrativa enfadonha dos fatos da vida da famosa escritora. Se ele se limitasse a isso, a biografia fosse talvez ordinária – mais uma dentre várias. Mas o autor fez melhor: a pesquisa grandiosa perpassa a história do continente europeu e do Brasil. Ou seja: enquanto discorre sobre onde Clarice esteve em determinada época, e o que fazia no período, Moser também nos situa no espaço e no tempo, nas transformações sociais e culturais de um lugar e uma data. Ele também analisa a maior parte das obras de Lispector, não enquadrando-as como “boas” ou “más”, mas dando ao leitor as ferramentas básicas que irão facilitar a compreensão destes escritos – isto é, retransmitindo, de forma bastante clara, as chaves essenciais que remetem à vida e às intenções, mesmo inconscientes, de C. L. Para isso, leu cartas pessoais, livros de história, a bibliografia completa de Clarice, jornais e revistas de algumas décadas atrás e publicações de cunho judaico.

Clarice Lispector era judia. Nasceu em Tchechelnik, Ucrânia, e foi batizada de Chaya – que em hebraico significa, primordialmente, “vida”. Sua infância foi pobre e sofrida, principalmente antes da chegada ao Brasil. Mudou de nome ao desembarcar no Recife, a exemplo de quase toda a sua família. Sua trajetória, confirmando-se isso através dos seus escritos, é uma busca constante por Deus (o Deus característico dos místicos judeus, aquele que surge do “Nada”, aquele que pede uma dose maior de reflexão e transcendência do que propriamente religiosidade ou devoção cega). Toda essa busca por uma espécie de Verdade é abordada no livro – e como se deu, e por quê. Sua fuga da Europa, a morte da mãe (traumática) e do pai, a consolidação de uma alma de escritora, o casamento com o diplomata Maury Gurgel Valente, a distância solitária do amado Brasil e das irmãs, seus dois filhos, o enquadramento forçado em um papel que não era bem o dela, o famoso incêndio, o desajuste social, a morte. Entremeadas aos fatos, presentes em vários capítulos, interpretações interessantíssimas das obras de C. L. baseadas em sua trajetória e em sua personalidade. Um exemplo: A maçã no escuro, famoso romance da escritora, é uma parábola judaica. Os motivos? Deixo para quem quiser ler Clarice, uma biografia. Vale a pena. Mesmo os que já leram boa parte de sua produção não podem dizer com segurança que a compreenderam sem que antes tomem conhecimentos de alguns dados importantíssimos.

Milhares de impressões ficam alojadas em nós ao final da leitura. Jamais poderia citá-las, e não tanto por serem diferentes em cada leitor quanto por demandarem uma análise demorada de milhares de pontos cruciais do texto. Aqui está uma obra que merece ser lida, e que não pode, em sua complexidade imensa, ser relatada. O que posso fazer é isso: recomendar a leitura. Clarice Lispector, para resumir o que não se resume, era uma mulher reflexiva e profunda que procurou o significado exato do divino e, escrevendo também por isso e para isso, se realizou e se frustrou.

Fácil Clarice, uma biografia, não é. Pelo contrário. Quem nunca leu sequer um livro de C. L. na vida (A hora da estrela não conta) talvez devesse conhecer um pouquinho da matéria na qual vai mergulhar de cabeça antes de efetivamente fazê-lo. Aos que desejam adquirir a obra depois da leitura da resenha, muita calma nessa hora: analisem a disposição de vocês para enfrentar incursões pesadas pela história, filosofia, psicanálise e outros saberes. Porque Clarice é complexa. E Moser, respeitando isso, está longe de ser um biógrafo preguiçoso ou superficial. C. L. merece ser compreendida por quem deseja, de corpo e alma, compreendê-la. Aos que não a entendem, aos que pouco tiveram contato com ela e sua obra, e que sequer têm vontade de se aprofundar, eu recomendaria fortemente uma freada nas citações “da boca para fora”. É vergonhoso para quem cita, porque logo se percebe a inaptidão (a extensão, a vastidão que é C. L., que nunca vai ser sequer percorrida por alguns), e triste para um gênio da literatura.

Trecho:

[Sobre A cidade sitiada]

Mas que coisas podem ser vistas plenamente quando se observa a sua mera superfície? A forma de um círculo, por exemplo, é indistinguível do círculo em si, contendo a totalidade de si própria em seu símbolo. Este, e não simplesmente o indomado “coração selvagem”, é o significado dos cavalos de São Geraldo. Para Clarice, nesse livro e em tantos outros, o cavalo é uma criatura perfeita, e ganhar a forma de um cavalo é uma meta mística, unindo corpo e alma, matéria e espírito. Um cavalo age apenas de acordo com sua natureza, livre dos artifícios do pensamento e da análise, e essa é a liberdade pela qual Clarice parece ansiar: a liberdade de fazer o que quer, sim, mas, mais importante do que isso, a liberdade diante do “naufrágio da introspecção”. Para uma pessoa atormentada por seu passado e incapaz de viver em seu presente, o cavalo era também uma solução.

E Lucrécia, afinal, também. “Tudo o que ela via era alguma coisa. Nela e num cavalo a impressão era a expressão.” A impressão era a expressão: Lucrécia e os cavalos são “o símbolo da coisa na própria coisa”. Numa carta Clarice explica melhor a frase: Sem as armas da inteligência, que aspira, no entanto, a essa espécie de integridade espiritual de um cavalo, que não ‘reparte’ o que vê, que não tem uma ‘visão vocabular’ ou mental das coisas, que não sente a necessidade de compreender a impressão com a expressão – cavalo em que há o milagre da impressão ser total – tal [sic] real – que nele a impressão já é a expressão”.

O que um cavalo sente, suas “impressões”, não pode ser corrompido pelas “expressões” verbais, lingüísticas, que só podem diluir ou distorcer aqueles sentimentos originais e autênticos. Lucrécia vê apenas superfícies e ela própria não é senão superfície, um outro meio de Clarice buscar a mesma meta: “A palavra que tem luz própria”, na qual o sentido e a expressão estão finalmente unidos.

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