Publicado originalmente por Bia Kunze no Tecnoblog

Na obra A Reforma da Natureza, de Monteiro Lobato, a boneca Emília decidiu “consertar” coisas na natureza que lhe parecessem sem cabimento. Junto com sua amiga Rãzinha, começou ajeitando imperfeições. Mas como sua personalidade é um tanto peculiar, logo resolveu reinventar qualquer coisa que lhe desse na telha. Assim, os livros entraram na lista:


 

“— Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. A tinta será estudada pelos químicos, uma tinta que não faça mal para o estômago. O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas; lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura está almoçado ou jantado. Que tal? (…)
— Ótimo, Emília! Isto é mais que uma idéia-mãe. E cada capítulo do livro será feito com papel de um certo gosto. As primeiras páginas terão gosto de sopa; as seguintes terão gosto de salada, de assado, de arroz, de tutu de feijão com torresmos. As últimas serão as da sobremesa. Gosto de manjar branco, de pudim de laranja, de doce de batata.
— E as folhas do índice – disse Emília – terão gosto de café – serão o cafezinho final do leitor. Dizem que o livro é o pão do espírito. Por que não ser também pão do corpo? As vantagens seriam imensas. Poderiam ser vendidos nas padarias e confeitarias, ou entregues de manhã pelas carrocinhas, juntamente com o pão e o leite. (…)
— E quando a gente quiser reler um livro?
— Compra outro, do mesmo modo que compramos outro pão todos os dias.”

Lembrei-me deste livro de infância ao ler hoje cedo a coluna do Ivan Lessa, que acha que o maior defeito dos e-books é a ausência de um fetiche do livro tradicional: o cheiro.

Ele também acha que lugar de livro é na estante. Eu já acho que livro deve circular de mão em mão. Tanto que estou mantendo apenas exemplares técnicos e de referência, além de algumas obras favoritas, que releio de tempos em tempos — por exemplo, minha coleção do Monteiro Lobato. O resto venho doando. Se acontecer de eu precisar da obra outra vez um dia, faço com a Emília e corro para a internet. Já fiz isso com diversos livros estrangeiros em português: passei pra frente e aproveitei para comprar na Amazon a versão eletrônica no idioma original. Além de tudo, é oportunidade de me aperfeiçoar em línguas estrangeiras.

E o que dizer do acervo digital gigantesco e gratuito de obras de domínio público?

A opinião de Lessa sobre o Kindle pareceu-me desinformação, já que ficou claro que seu ponto de vista é apenas baseado no que lê por aí. Tanto que cometeu um deslize: a loja de e-books da Amazon é muito mais bem sucedida que a do “iDolatrado iSteve iJobs”. Tenho certeza que mudaria de ideia se tivesse um Kindle em mãos. É impossível um leitor ávido não gostar do bichinho!

Kindle: não tem cheiro 

Já fui daquelas que tinha ciúmes dos meus livros. Salvo exemplares raros, não vejo motivo para isso. Porém, analisando profundamente, nem possuo exemplares raros! Muito pelo contrário: quando preciso de um livro há tempos esgotado, é na internet que o encontro. Acho importante a prática do desprendimento, como fez o bibliófilo José Midlin. O valor de uma obra literária não está no papel ou na capa dura.

O problema de alguns baby boomers é achar que a meninada de hoje gosta das traquitanas eletrônicas por mero fetiche, como a deles com os livros. O fetiche até existe em muitos casos — pergunte a um fanático por games que acabou de comprar um console novo. Mas não é a novidade pela novidade que transforma o mundo. Não foi o fetiche que nos trouxe à era da informação.

Outro problema é acreditar que livro tradicional e eletrônico não podem coexistir. Por que os críticos insistem em colocar livros tradicionais e eletrônicos num ringue? Meu hábito de frequentar bibliotecas não arrefeceu. Apenas acho que quanto mais opções, melhor.

Antes de “combatê-los”, vale lembrar que, junto com tablets e e-readers, os livros digitais podem mudar a desigualdade educacional brasileira. Há escolas que nem possuem bibliotecas, e, quando as possuem, são bastante restritas. E dependem das autoridades para receber novos títulos e erguer prateleiras. Já comentei em coluna anterior no TB a maravilha que seriam os materiais didáticos open source. É por isso que torço pelo tablet nacional acessível! Não acho justo negar informação e cultura a uma criança só porque ela vive num lugar sem banda larga e seus governantes têm “outras prioridades” com a verba que deveria ser convertida em livros, computadores e cadernos.

Os críticos se esquecem também do universo empreendedor dos livros eletrônicos. Jovens escritores podem publicar suas obras com a mesma facilidade com que publicam vídeos online. É uma maneira de fazer desabrochar novos talentos, como Amanda Hocking, sem passar pela peneira das editoras.

E por fim, fica a dica do artigo “Cheiro de Papel Podre”, de Carlos Goetteanuer.

Se meus argumentos não forem suficientes, sugiro aos críticos que deem uma boa cheirada num tablet ou e-reader antes de tirá-los da caixa. Pelo menos quem tem rinite não sofrerá de uma crise por causa dos ácaros. Ou então, criem os livros comestíveis logo de uma vez!

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