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O texto homérico ganhou incontáveis traduções, versões, adaptações e reinvenções ao longo dos séculos. Acima, uma ilustração feita na Idade Média, retratando as maravilhas de um dos episódios da Odisseia

 

Clássico maior da tradição literária ocidental, “Odisseia”, do grego Homero, ganha nova edição no Brasil, bilíngue, em tradução versejada de Trajano Vieira

As tentativas de regresso do herói grego Ulisses a sua terra natal formam o enredo do clássico maior do Ocidente, “Odisseia”, poema épico de Homero 

Uma história é muito mais que uma coleção organizada de episódios. O enredo rivaliza em importância com sua contraparte: o estilo. Uma história é, portanto, o que se conta e o como se conta. Quem não se dá conta disso costuma ler livros de outras culturas sem dar atenção à tradução. E um mau tradutor pode até manter intacto o enredo, mas sacrificar o estilo.

A pequena introdução serve pra ilustrar a importância da nova edição de “Odisseia”, clássico maior da literatura grega, texto mãe de toda a tradição ocidental europeia. O longo poema, creditado ao narrador cego Homero (que alguns historiadores da literatura questionam a existência, preferindo ver “Odisseia” e o outro texto homérico, “A Ilíada”, como registros de uma tradição oral coletiva, desprovida de um autor como concebemos hoje esta figura), foi vertido por Trajano Vieira. Professor de Língua e Literatura Grega no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, ele já demonstrou sua boa performance com clássicos gregos em recentes edições de “Medeia”, de Eurípides, e “Filoctetes”, de Sófocles, ambas lançadas pela Editora 34, a mesma que apresenta a nova “Odisseia”.

Por sua antiguidade e importância inaugural, o livro já ganhou incontáveis traduções – entre transcriações diretas do original grego, passando por versões modernizadas deste idioma e mesmo transposições indiretas, quando o tradutor traduz uma tradução preexistente, em alguma língua moderna. Nesta acidentada aventura do texto, ele não passou por momentos de sacrifício e tortura. Houve, claro, momentos de esplendor, e a tradução de Vieira é um deles.

Viagem

A “Odisseia” é o relato de uma viagem. Uma tortuosa jornada empreendida por Ulisses, herói das Guerras de Troia (narradas em “A Ilíada”), para voltara sua terra natal, Ítaca, onde sua esposa é cortejada por muitos que a tomam por viúva. As aventuras, por terra e mar, duram 10 anos, nos quais Ulisses e sua tripulação conhecem costumes de muitos povos e encontram-se com homens, deuses, semideuses e outros tantas incríveis personagens mitológicas.

Ousado, Trajano Vieira mantém a estrutura em versos original. Claro, tal procedimento dificulta – e muito – o trabalho do tradutor, que se ver impossibilitado de usar esta ou aquela palavra, determinada frase ou expressão, para não violar a métrica de cada linha do poema. Para quem domina o grego, a edição tem o atrativo extra de trazer, lado a lado com a nova versão em português das aventuras de Ulisses, o original em grego, com versos numerados para facilitar a leitura cotejada.

Auxílio luxuoso

Há, ainda, três mapas que ajudam a acompanhar as ações narradas no livro – uma planta do Palácio de Ítaca, onde Penélope espera o retorno do marido; outra da “geografia homérica”, como os lugares e países mencionados; e, por fim, o itinerário errante do herói. Completa o “combo” de ajuda ao leitor sinopses dos capítulos do épico, além de trechos de ensaios sobre a obra.

Dentre estes destacasse “As odisseias na ´Odisseia´”, de Ítalo Calvino, escritor e ensaísta que deu uma definição precisa ao clássico, que cabe bem a “Odisseia” – um livro que “nunca termina o que tem a dizer”.

Tradução, posfácio e notas:Trajano Vieira. Ensaio sobre a obra de Italo Calvino

 

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