“Este livro é bom?, pergunta-lhe com um sorriso comprometido, mostrando-lhe a capa”

Publicado originalmente pro Tiago Rebelo no Correio da Manhã

Ela passa os dias na livraria de bairro onde trabalha. Adora estar rodeada de livros e de pessoas que adoram os livros e que entram para saber as novidades ou para comentar algo que leram. É o seu pequeno mundo, agradável, o cheiro dos livros, as imagens sonhadoras das capas, os títulos prometedores. É capaz de encontrar um livro no meio de centenas, nas prateleiras, sabe exactamente onde estão todos. Leva sempre algum para casa, que lê com cuidados maternais, para depois repor sem um vinco, sem uma mazela.

Está debruçada sobre o balcão ao início da tarde, concentrada numa história nova, acabada de publicar. Tem o cotovelo apoiado no tampo, a mão a amparar o queixo, uma madeixa caída. Não há clientes àquela hora. Ele entra, silencioso, apanha um livro ao acaso, aproxima-se. Ela levanta os olhos, pressentindo-o, endireita-se, deixa cair o braço no balcão, olha-o com tristeza.

Este livro é bom?, pergunta-lhe com um sorriso comprometido, mostrando-lhe a capa. Nem por isso, responde ela, o que fazes aqui? Vim ver-te, diz. Ver-me? Porquê? Ele encolhe os ombros, tinha saudades tuas.

Passou mais de meio ano, já não o vê há sete meses e sentiu a sua falta todos os dias. Ele costumava vir de manhã, antes do trabalho, e ao fim da tarde, quando regressava. Separara-se da namorada e era novo no bairro. Estava apaixonada nessa época, fechava a livraria e corria para casa dele, estava feliz. Depois ele recebeu um telefonema da ex-namorada e foi-se embora. Abandonou-a. E agora está ali de novo…
Ela não sorri, não revela felicidade. Tinhas saudades minhas?, espanta–se. Tinha, diz ele, voltei para o bairro. Ah, faz ela, voltaste… Ele diz que sim com a cabeça, voltei. Ela deixou–te outra vez?, pergunta-lhe, num tom seco. Não foi assim, desculpa-se ele, foi uma decisão a dois. Tive sorte, acrescenta, mudando de assunto, consegui arrendar a mesma casa. Que bom, replica ela, sarcástica. Ele coça a cabeça, embaraçado. Achas que podemos sair um dia destes?, arrisca depois. Não me parece, responde-lhe, sem ponderar a proposta. Ele pergunta-lhe se ainda está zangada, ela atira-lhe que se está nas tintas.

Ele vai-se embora e ela fecha os olhos, respira fundo, sente as pernas fracas. Senta-se no banco atrás do balcão e limpa uma lágrima de raiva, furiosa consigo própria, por se sentir assim. Está espantada com o seu regresso, sem saber o que pensar. Quer odiá-lo, rejeitá-lo como ela a rejeitou, esquecê-lo. Mas sabe que ele voltará amanhã, tal como costumava fazer, e vai continuar a aparecer, e, se o aceitar de volta, é provável que a faça sofrer novamente. E no entanto, não está certa de que consiga resistir-lhe, nem que se sinta mais feliz se conseguir.

 

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