Texto de Cristina Tardáguila publicado originalmente no O Globo

Além de notável poeta, o mineiro Carlos Drummond de Andrade também foi um exímio arquivista. Por anos, compilou de forma meticulosa e quase compulsiva todas as dedicatórias que fez – em versos, é claro – para amigos, familiares, crianças ou meros conhecidos. Cumpria a tarefa de registro histórico de sua própria escrita com um rigor surpreendente. Não deixava de fora de seus caderninhos de espiral metálica da marca De Luxe nem mesmo um simples desejo de boas festas.

Em dezembro do ano passado, os três cadernos de Drummond que há anos jaziam intactos no acervo literário da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio, caíram nas mãos do poeta Eucanaã Ferraz e, neste fim de semana, chegam às livrarias de todo o país no livro “Versos de circunstância”, editado pelo Instituto Moreira Salles (IMS).

Organizado por Eucanaã, que no prefácio afirma que Drummond tinha “uma consciência aguda do desaparecimento, da dispersão, mas também o sentimento de que a escrita pode ultrapassar a morte”, o livro reúne quase 400 fac-símiles das páginas amareladas e sem pautas dos cadernos do poeta mineiro. São, no total, 295 poemas, 229 deles ainda inéditos.

“Caro Thiago de Mello, melo-/ dioso poeta, e cara Pomona:/ aqui vos deixo este magrelo/ fruto da lira quarentona”, escreveu o modernista ao poeta amazonense e a sua esposa na década de 1950.

“Poeta magro, livro magrinho,/ sobrepairando os horizontes,/ ofertam seu melhor carinho/ ao bom casal de Martins Fontes”, redigiu Drummond na mesma época, em dedicatória remetida à escritora Lygia Fagundes Telles e a seu marido, Goffredo.

Mas não só a celebridades se dirigia Drummond. Na coletânea de dedicatórias em versos, há também relatos mundanos como o agradecimento por um doce de amêndoa que lhe foi presenteado.

“Da vida os tristes fardos/ esqueço, ante as amêndoas,/ dom de Stella de Leonardos,/ tão doces. E, comendo-as,/ outra maior doçura/ vem-me à lembrança: aquela/ que impregna e transfigura/ a poesia de Stella”.

Ao que parece, Drummond apreciava a iguaria.

– Quando encontramos os cadernos na Casa de Rui Barbosa, ficamos tão surpresos com a qualidade dos registros, sem muitos rabiscos nem grandes borrões, que achamos que não tínhamos o direito nem o dever de editar o material – conta Samuel Titan Junior, coordenador executivo-cultural do IMS. – Publicamos tudo exatamente como é. Parece até que Drummond deixou tudo lá, prontinho, quase que pedindo para que alguém descobrisse aquilo anos mais tarde e publicasse num livro.

A convite do IMS, Marcos Antonio de Moraes, professor de literatura da Universidade de São Paulo (USP), assina o texto de apresentação de “Versos de circunstância”.

Conhecido por ter organizado o livro “Correspondência reunida”, de Mário de Andrade, Moraes ressalta que as anotações do também modernista Carlos Drummond têm duas camadas de significação. A primeira espelha “gestos de cordialidade dentro da teia social” do escritor, e a segunda reflete um experimento típico dos modernistas: dessacralizar a poesia, permitindo que ela surja em ambientes até então pouco comuns, como era o caso das dedicatórias.

Em novembro do ano passado, o IMS assinou um contrato de comodato com a família de Drummond e recebeu o acervo pessoal do escritor. Desde então, submete a coleção – composta por livros, cartas, desenhos, fotos e crônicas – a um extenso inventário e a catalogação.

Enquanto o trabalho não rende os primeiros frutos, o instituto vem reunindo materiais relacionados ao poeta que, pelos mais diversos motivos, não entraram no acervo negociado.

Assim, nos últimos meses, lançou em edições fac-similares como a de agora edições dos livros “Alguma poesia – O livro em seu tempo” e “Uma pedra no meio do caminho – Biografia de um poema”. “Versos circunstanciais” chega como o terceiro volume da linha Carlos Drummond de Andrade.

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