Marília Kodic, na CULT

Quem pensa que o desinteresse pelas letras é um mal do Terceiro Mundo está enganado. Neste ano, Buenos Aires foi eleita a Capital Mundial do Livro pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). No páreo, estavam ainda outras duas cidades do continente: Caracas (Venezuela) e Havana (Cuba).

Ocupando o mesmo posto da capital portenha, já estiveram Madri, Alexandria, Nova Deli, Antuérpia, Montreal, Turim, Bogotá, Amsterdã, Beirute e Liubliana. Já o Brasil, uma das coqueluches do cenário econômico mundial e sede da Festa Literária Internacional de Paraty – uma das maiores feiras do gênero na região – nem sequer chegou perto da lista.

O título é concedido anualmente a países com reconhecido valor em programas de incentivo à leitura. O “ano” do título tem início todo 23 de abril, que marca o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. Celebrado desde 1996, assinala a morte dos escritores Miguel de Cervantes, William Shakespeare e Garcilaso de La Vega.

A CULT foi ouvir especialistas da área para entender a razão dessa relativa irrelevância do Brasil no setor e por que nenhuma de suas cidades se tornou Capital Mundial do Livro.

No hablamos español

“Talvez seja pelo fato de o espanhol preponderar nos países da região, e supõe-se que ele tenha mais densidade literária que o português. Os hispânicos passam bem para outras línguas ocidentais, sem exigir do leitor um repertório que remeta em profundidade ao meio cultural de cada um”, opina o escritor Reinaldo Moraes, autor do recém-relançado Pornopopeia (Objetiva).

Já para o crítico literário e professor da Universidade de São Paulo Fábio de Souza Andrade, a concessão do título talvez tenha duas inspirações diversas. “Pode representar o reconhecimento de um esforço bem-sucedido, dando visibilidade e estimulando a replicação de políticas públicas inventivas; e pode também ser um gesto de estímulo onde há carência, chamando atenção para o muito a fazer. Como reconhecimento de excelência, estamos longe. Como alerta, é para ontem”, diz.

Logística e distribuição

Na vizinha Argentina, cada habitante lê em média 5,8 livros por ano. No Brasil, cai para 4,7, mas, desconsiderando-se os didáticos, o índice aqui despenca para 1,3 livro/ano, segundo dados de 2008 do Instituto Pró-Livro.

Quanto ao número de livrarias, a Secretaria de Comunicação da Argentina estima em 3.200 o número delas em todo o país. Aqui, segundo pesquisa feita pela Associação Nacional de Livrarias em 2009, existem 2.980 – embora a extensão territorial do Brasil seja três vezes maior que a da Argentina.

Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro, explica que o fato de a população brasileira ser maior do que a argentina (190 milhões contra 40 milhões) dificulta políticas amplas e homogêneas de estímulo à leitura com resultados imediatos. “Temos problemas de distribuição e logística em quase todos os produtos que circulam pelo país, além de sérios problemas com educação e ensino”, diz.

Em relação ao menor número de livrarias, Karine Pansa pondera que existem no Brasil outros canais consistentes de comercialização. “As vendas porta a porta, por exemplo, são fortes e tradicionais – segundo pesquisa encomendada à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas em 2009, a participação da venda porta a porta no total do mercado nacional representa 16,64%. As vendas nos supermercados, na internet e até em igrejas também são relevantes”, diz.

Muita publicidade

Um dos critérios da Unesco para a candidatura ao título de Capital Mundial do Livro, segundo o site da organização, é submeter um programa consistente de atividades literárias. Na Argentina, inclui desde o simples Yo Leo en el Bar (Eu Leio no Bar), que consiste na colocação de obras do escritor Jorge Luis Borges em famosos bares da cidade, até programas de longa duração com atividades literárias, musicais e teatrais, como o No Hay Ciudad sin Poesia (Não Há Cidade sem Poesia).

Contudo, Julian Gorodischer, editor-chefe do semanário cultural Ñ, publicado no diário argentino Clarín, joga um grão de sal na iniciativa. Ele descarta a importância do título para promover mudanças no calendário cultural da cidade: “Não acho que seja muito importante. É uma estratégia do governo de Buenos Aires para atrair a atenção das pessoas. A cidade está igual. Acho que a determinação não muda a vida habitual da cidade. Há alguns projetos, sim, mas é mais publicidade do que uma real mudança”.

Segundo Souza Andrade, embora não haja ainda no Brasil uma política de Estado expressiva nesse sentido, há uma tática de guerrilha cultural voluntarista: “Leitores convictos e inconformados propõem, por exemplo, alimentar correntes de livros abandonados em lugares públicos. Há também a multiplicação de saraus, tertúlias e leituras compartilhadas”.

Feiras literárias

Nesse cenário pouco animador, qual é a função das feiras literárias?

“Nas cidades que as realizam, é notório como cresce o consumo de livros em livrarias e em outros canais de comercialização imediatamente após o fim de um evento desse tipo. Trata-se de um reflexo importante”, diz Karine Pansa.

Mas Reinaldo Moraes discorda dessa tese: “Fui a uma feira do livro em Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde havia cerca de seis pessoas na plateia. O livreiro vendeu dois livros meus, sendo um deles para o organizador da feira, gentil cidadão. Faz parte”.

No mês que vem, tem início a 9ª edição da mais importante delas, a Flip, Festa Literária Internacional de Paraty, que reúne uma média de 25 mil pessoas em Parati, cidade histórica do litoral fluminense. Para Cristovão Tezza, ganhador em 2008 do Prêmio Jabuti como autor do melhor romance – O Filho Eterno (Record) –, a Flip “é um movimento extremamente importante, com ressonância internacional, e faz do livro um produto mais do que digno. É o único evento que realmente o leva para o horário nobre da televisão, por exemplo. Não vejo esse espaço na mídia nem nas bienais”.

O país tem outras do gênero, como a Festa Literária Internacional de Pernambuco, em Olinda; a Feira Pan-Amazônica do Livro, em Belém; o Fórum das Letras, em Ouro Preto; o Festival da Mantiqueira, em São José dos Campos; além das Feiras do Livro de Ribeirão Preto, Brasília e Porto Alegre.

Apesar da profusão de feiras, Souza Andrade adverte que o papel mais importante ainda cabe ao Estado, por meio de incentivos e da melhora das instituições de ensino. “As políticas públicas têm grande responsabilidade, mas falta uma percepção difusa e generalizada de que os livros são segunda natureza necessária, sobretudo entre as elites econômicas”, diz.

Os convidados de 2011 

O homenageado da 9ª edição da Flip é o modernista Oswald de Andrade e a abertura ficará a cargo do crítico Antonio Candido. Entre os confirmados até o momento, estão os escritores brasileiros Edney Silvestre, João Ubaldo Ribeiro, José Miguel Wisnik, Luiz Felipe Pondé e Teixeira Coelho, os argentinos Pola Oloixarac e Gonzalo Aguilar, o italiano Antonio Tabucchi, os escoceses Carol Ann Duffy e David Byrne (músico), o caribenho Caryl Phillips, os franceses Claude Lanzmann e Emmanuel Carrère, o mexicano Enrique Krauze, o colombiano Héctor Abad, os norte-americanos James Ellroy e Joe Sacco (quadrinista), o inglês John Freeman e o húngaro Peter Esterházy.

 

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