Publicado originalmente por Kathy Acker em Diario de Pernambuco

 

Há um único elo entre as obras do cineasta americano Jim Jarmusch, do filósofo francês Maurice Blanchot, do escritor americano David Foster Wallace, da punk americana Kathy Acker, da banda de rock britânica The Zombies e do blogueiro alemão que assina posts como Airen. Todos eles contribuíram — sem saber que o faziam — para o best-seller “Axolotle atropelado” (Editora Intrínseca), que chegou às livrarias de todo o Brasil depois de ter sido o epicentro de uma espinhosa discussão literária na Alemanha.

Lançado em janeiro do ano passado na Europa, “Axolotle atropelado” retrata os altos e baixos da vida de uma jovem

alemã que perdeu a mãe e que circula livremente (e exclusivamente) pelo mundo das drogas e das discotecas de Berlim. Com uma linguagem sem pudores que detalha o efeito dos entorpecentes no corpo humano, o livro não demorou para atingir o quinto lugar na lista dos mais vendidos segundo a revista alemã “Der Spiegel”. Em poucas semanas, foram três edições e cem mil exemplares, além de muitos elogios à adolescente Helene Hegemann [foto], que estreava na literatura aos 17 anos.

 

 

A arte de copiar e colar

O desfecho da estreia teria sido venturoso não fosse pela curiosidade e perspicácia do blogueiro alemão Deef Pirmasens. Um mês depois do lançamento de “Axolotle”, ele descobriu (e publicou na internet) que Helene havia copiado em sua obra trechos inteiros de um livro intitulado “Strobo”.

“Quando fica complicado, Marc sobe no vaso sanitário e prepara três carreiras em cima da divisória da cabine ao lado”, escreveu Airen (em tradução livre para o português), o blogueiro alemão que publicou “Strobo” pela editora SuKuLTuR.

“Ophelia está de pé sobre o tampo do vaso sanitário para arrumar três carreiras de speed em cima da divisória da cabine ao lado”, relata Helene, em “Axolotle atropelado”.

No total, ela utilizou de forma literal ou com sutis modificações 19 passagens de “Strobo”. Quase uma a cada dez páginas. E Pirmasens reuniu muitas delas em seu site, transformando em inferno todo o júbilo da jovem Helene.

Filha do dramaturgo e professor de teatro Carl Hegemann, ela respondeu à revelação com ferocidade. Não negou a cópia, mas disse que seu trabalho consiste em fazer “sampling” ou “intertextualidade”.

“Não existe originalidade, apenas autenticidade”, defendeu-se, em nota à imprensa. “Não sinto que estou roubando nada, porque ponho todo o material num contexto único e completamente diferente”.

Dias mais tarde, cientes das acusações que pairavam sobre Helene, os jurados da Leipzig Book Fair, um dos eventos literários mais tradicionais da Alemanha, decidiram mantê-la entre as finalistas do prêmio de US$ 20 mil que seria dado à categoria ficção. A polêmica aumentou.

De um lado, ficaram os literatos tradicionalistas. De outro, reuniram-se os defensores da cultura do copiar e colar, uma combinação de teclas comumente acionada por quem usa computador e frequenta a internet.

No turbilhão formado em seu entorno, Helene finalmente decidiu pedir desculpas. Não havia citado todas as suas fontes com clareza e sentiu que precisava dar explicações. Ao fazê-lo, no entanto, defendeu com veemência que também é arte e também é criativa a colagem de trabalhos na composição de um terceiro.

Em “Axolotle”, destacou ela, há até mesmo um personagem que defende essa tese. O jovem Edmond afirma que “Berlim existe para misturar tudo com tudo” e que ele pega “coisas” em todos os lugares onde encontra inspiração: filmes, músicas, livros, pinturas, fotos, conversas, sonhos, placas de ruas, nuvens…

Ao fim da edição que chegou ao Brasil, há seis páginas que listam as fontes onde a jovem escritora bebeu para construir seu best-seller. Além de Airen e dos intelectuais citados, há pelo menos outros sete nomes.

 

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