Texto de Ana Tomás publicado originalmente no Ionline de Portugal

“Os escritores não se repetem. É absurdo pensarmos num novo Saramago. Cada autor tem o seu espaço e seu tempo. Qual o novo Kafka ou o novo Proust? Não há, como não há um novo Saramago ou um novo Gabriel García Márquez”, referiu Pilar Del Rio ao i, à margem da apresentação dos livros “Palavras Para José Saramago”, “O Silêncio da Água” e “A Última Entrevista de José Saramago”, que decorreu ao final desta manhã, nos Paços do Concelho, em Lisboa.

No entanto, a viúva de José Saramago e presidente da Fundação com o mesmo nome, considera que “neste momento há um grupo de escritores em Portugal que tem uma força”, na linha da do escritor,  Nobel da Literatura, que morreu faz amanhã (18 de Junho) um ano.

Em declarações aos jornalistas Pilar del Rio falou também sobre o romance que Saramago deixou por terminar, sobre o tráfico de armas, e a que chamou de “Alabardas, Alabardas! Espingardas, Espingardas!”.

“Ainda estamos a pensar e a ver qual a melhor forma e  o melhor dia para lançá-lo, porque não é apenas um livro. Tem de ser mais, tem de ser um abalo para despertar a consciência das pessoas, porque trata um tema terrível”, explicou Pilar del Rio.

A viúva do escritor acrescentou ainda que, apesar de inacabado, o livro, com edição marcada para 2012 “funciona como um texto autónomo”, pelo que a hipótese de convidar outro autor para o terminar está posta de parte.

Já antes, durante a apresentação dos livros, Pilar del Rio tinha destacado a universalidade e o carácter intemporal da obra de José Saramago. “Têm-me perguntado nos últimos tempos ‘O que diria Saramago sobre o que acontece em Espanha ou sobre a primavera árabe?’. Eu respondo que o que diria está nos seus textos, no seu blogue e nos seus livros, como o Ensaio sobre a Lucidez”, explicou.

Entre os livros hoje apresentados estão dois da autoria de Saramago, “O Silêncio da Água”, baseado em memórias de infância, e a 23ª reedição de “Viagem a Portugal”. Os outros dois são sobre o escritor:  “A Última Entrevista de José Saramago”, de José Rodrigues dos Santos, e “Palavras Para José Saramago”, que reúne testemunhos de vários críticos e jornalistas de todo o mundo, à altura da sua morte. Este livro será depositado com as cinzas de José Saramago, numa cerimónia que se realiza este sábado, de manhã, em frente à Casa dos Bicos, em Lisboa.

As cinzas do escritor serão depositadas debaixo de uma oliveira trazida da sua aldeia de origem, a Azinhaga (no distrito de Santarém), que será plantada com areia vinda de Lanzarote, a ilha onde o escritor viveu os seus últimos anos.

Estão, de resto, marcadas várias iniciativas na capital portuguesa e na ilha espanhola para homenagear o autor. Às 18h30, no CCB, haverá um concerto da Orquestra Sinfónica, com leituras  de passagens de textos de Saramago alusivos a alguns dos temas sociais que tratou. Em Lanzarote também serão lidos, durante todo o dia, excertos da obra do autor, acompanhados pelas canções de um coro infantil. Itália e México são outros dos pontos do globo a assinalarem a data,,com iniciativas alusivas ao escritor.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments