Um alemão decidiu passar 40 dias falando apenas a verdade. Sua experiência levou ao questionamento: a verdade é sempre essencial?
 

Adaptado do texto de Verônica Mambrini, no iG

Para a maioria das pessoas, ser totalmente sincero durante o dia a dia é uma experiência quase impossível: é comum mentir cerca de 200 vezes por dia, de acordo com o livro “Sincero” (editora Verus), do jornalista alemão Jürgen Schimieder. Nele, o autor relata sua experiência de ficar 40 dias sem mentir: colegas se afastaram, ele discutiu com a mulher, perdeu dinheiro e teve as costelas quebradas pelo melhor amigo. “Foi muito doloroso e me ensinou a não fazer isso de novo nunca mais: amigos são mais importantes do que ser sincero”.

As costelas quebradas se devem ao fato de Jürgen ter contato à namorada do melhor amigo que ela estava sendo traída – o amigo perdeu a namorada e respondeu com um soco quando soube que foi por causa da sinceridade de Jürgen. No trabalho, muitas pessoas se ofenderam com a experiência do jornalista. “Alguns colegas ainda não falam comigo porque eu disse que eles são maus funcionários e deveriam ser mandados embora”, conta Jürgen.

O banho de honestidade não tem só de maus momentos: numa partida de pôquer com os amigos, ele contou quais cartas estavam na sua mão e ninguém acreditou. “Foi muito divertido – e ganhei um monte de dinheiro. Recomendo ser sincero por uma noite com seus amigos, você vai se divertir muito”. Mas ele confessa que, no geral, se sentiu um idiota quase todos os dias do projeto. “Tive que dizer coisas que normalmente ninguém ousaria dizer. Fiquei constrangido o tempo todo.”

Precisa ser grosso?
Descontados os exageros, ele aprovou a experiência. “Descobri o quanto a mentira realmente magoa as pessoas. Se todos fossem um pouquinho mais sinceros, o mundo seria melhor”, diz Jürgen. “Acredito que podemos parar de mentir pelo menos metade do tempo.”

O experimento passou por várias fases: sinceridade grosseira, sinceridade dita de forma gentil, fria, e até como uma crítica construtiva. Envolveu desde dizer que não gostou da comida num jantar a não omitir nenhum tipo de informação na declaração de imposto de renda, ainda que isso significasse ter uma restituição menor.
Uma das lições aprendidas por Jürgen é que há vários jeitos de ser sincero. “Se um colega não é muito bom no seu trabalho, você não precisa insultá-lo, mas pode dizer a verdade de forma respeitosa.”

Benefícios

Segundo Jürgen, um dos maiores benefícios da experiência foi ter conquistado a confiança de sua família e amigos. “As pessoas confiam em mim agora porque sabem: se pedirem minha opinião, vão ter uma opinião sincera. Entre meus amigos, eu sou a pessoa em quem eles confiam. E confiarem em você é uma das coisas mais fantásticas da vida”, afirma. Ele afirma que também ficou mais aberto à sinceridade dos outros. “As pessoas querem ouvir a verdade desde que ela seja positiva. Eu descobri que mentia muito sobre mim, dizendo a mim mesmo que era atraente, bem-sucedido e bacana. Mas percebi que talvez as pessoas não achem”, diz.

Apesar de destacar seus piores momentos no livro – “achei que seriam mais engraçados de ler”, diz Jürgen – ele afirma que a relação com as pessoas ao redor melhorou, principalmente com a esposa. “Não sei se me tornei uma pessoa melhor, mas certamente uma pessoa diferente de quem eu era. Ainda sou um babaca às vezes, e às vezes um cara legal”, diz. Ou seja, é um investimento de longo prazo. “Aprendi que, ao ser sincero, num primeiro momento as pessoas ficam loucas, mas acabam gostando, porque passam a confiar em você mais do que antes”, acredita Jürgen.

 

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