Publicado originalmente pela revista Bula
A lista saiu no “The Guardian”, um dos principais jornais diários da Inglaterra. Como qualquer outra, a lista a seguir é idiossincrática, o que não é o mesmo que desqualificada. Pelo contrário, trata-se um levantamento criterioso e respeitável. As obras são sérias. É possível discordar de algumas escolhas, mas, no geral, não há o que discutir. A “Arte Moderna”, de Giulio Carlo Argan, merece ser citado entre os bons livros da área. Foi esquecido. Mas a “História da Arte”, de E. H. Gombrich, permanece como um livro de referência equilibrado. “Stálin — A Corte do Czar Vermelho”, do historiador inglês Simon Sebag Montefiore, merece figurar em qualquer lista decente sobre história ou biografia. Assim como “Mao — A História Desconhecida”, de Jung Chang e Jon Holliday. É um dos mais documentos sobre o genocida Mao Tsé-tung. O leitor brasileiro vai dizer: “Como é possível excluir ‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha, e ‘Casa Grande & Senzala’, de Gilberto Freyre? Há outras omissões, o que é normal em qualquer lista. Listas mais excluem do que incluem. Se não fosse assim, não seria lista (um recorte). O Jornal Opção e a Revista Bula comentam os livros — também de modo idiossincrático.

“O Choque do Novo”, de Robert Hughes (1980)

Guardian: “Hughes estuda a história da arte moderna, do cubismo à vanguarda”.

Jornal Opção e Revista Bula: Hughes é um dos maiores críticos de arte de todos os tempos. Mas por qual razão ignorar Carlo Giulio Argan, autor de, entre outros, “Arte Moderna” (Companhia das Letras).

“História da Arte”, de Ernst H. Gombrich (1950).

Guardian: “É o livro mais popular de história da arte. Gombrich analisa os problemas técnicos e estéticos enfrentados pelos artistas desde o início dos tempos”.

Jornal Opção e Revista Bula: Minha edição é de 1972, mas, mesmo com o enorme manancial de pesquisas recentes, o livro de Grombrich permanece como aqueles clássicos cheios de vitalidade.

“Maneiras de Ver”, de John Berger (1972).

Guardian: “Um estudo das formas como olhamos a arte”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um livro de categoria com a qualidade de John Berger.

“Vidas dos Principais Arquitetos, Pintores e Escultores Italianos”, de Giorgio Vasari (1550).

Guardian: “Biografia dos artistas que moldaram a Renascença”.

Jornal Opção e Revista Bula: Trata-se de um clássico, com os defeitos e virtudes dos livros que foram escritos em cima da hora.

“A Vida de Samuel Johnson”, de James Boswell (1791).

Guardian: “Boswell baseia-se em seus diários para criar um retrato afetuoso do grande lexicógrafo”.

Jornal Opção e Revista Bula: Boswell era amigo do escritor inglês Samuel Johnson, mas escreveu uma biografia equilibrada. Clássico que se tornou “pai” das outras biografias. Inédito no Brasil.

“Os Diários de Samuel Pepys”, de Samuel Pepys (1825).

Guardian: “Diário vívido sobre o período da Restauração”.

Jornal Opção e Revista Bula: Clássico que permanece inédito em português. O livro sempre apareceu nas listas do jornalista Paulo Francis.

Eminentes Vitorianos”, de Lytton Strachey (1918).

Guardian: “Com este relato espirituoso e irreverente, Strachey definiu o modelo para a biografia moderna”.

Jornal Opção e Revista Bula: O livro de Strachey tem de fato importância. Mas não caberia, antes, citar a obra de Plutarco? A biografia “Hitler”, de Ian Kershaw, merece citação em qualquer lista séria. Assim como “Churchill”, de Roy Jenkins.

“Adeus a Tudo Isso”, de Robert Graves (1929).

Guardian: “Graves conta, nesta autobiografia, a história de sua infância e os primeiros anos de seu casamento. O registro central é sobre a brutalidade e a banalidade da Primeira Guerra Mundial.”

Jornal Opção e Revista Bula: O “Guardian” não diz, mas Graves é um escritor e poeta notável, com amplo conhecimento de história e mitologia.

“A Autobiografia de Alice B. Toklas”, de Gertrude Stein (1933).

Guardian: “Biografia inovadora de Stein, escrita sob a forma de uma autobiografia de sua amante.”

Jornal Opção e Revista Bula: Gertrude Stein, ao falar de si, conta a história da arte moderna na França. Conta boas histórias de Apollinaire e Picasso. É um excelente retrato da vida cultural de Paris. Há uma ótima tradução no Brasil.


“Notas Sobre o Camp”, de Susan Sontag (1964)

Guardian: “Sontag sugere que a sensibilidade moderna tem sido moldada pela ética judaica e pela estética homossexual”.

Jornal Opção e Revista Bula: Como tudo, a tese de Sontag é discutível. Mas por que não citar dois livros de Raymond Williams: “Cultura” (Paz e Terra) e “O Campo e a Cidade”? Talvez porque Williamns seja mais denso e menos midiático.

“Mitologias”, de Roland Barthes (1972)

Guardian: “Barthes examina as coisas que nos cercam neste livro espirituoso sobre a criação do mito contemporâneo”.

Jornal Opção e Revista Bula: no seu exame dos “fatos diversos”, Barthes (Todorov seria um seguidor, numa linha relativamente diferente?) é insuperável. Seu pequeno livro é um clássico.

“Orientalismo”, de Edward Said (1978)

Guardian: “Said argumenta que as romantizadas representações ocidentais da cultura árabe são políticas e condescendentes.”

Jornal Opção e Revista Bula: O Guardian quer dizer que Said percebeu que ideologizaram a representação da cultura árabe. Mas o jornal não diz que a interpretação de Said limita a amplitude da obra de alguns autores, como Joseph Conrad. Said tem sido muito criticado nos últimos anos.


“Primavera Silenciosa”, de Rachel Carson (1962)

Guardian: “Conta dos efeitos dos pesticidas sobre o meio ambiente. Lançou o movimento ambientalista em os EUA”.

Jornal Opção e Revista Bula: Trata-se de um clássico científico que se tornou um fenômeno praticamente “pop”. Sua última edição publicada no Brasil contém um excelente posfácio do cientista Edward O. Wilson. O livro mostra que, ao combater a formiga lava-pé, os produtores rurais não conseguiram destruí-la, mas mataram outros animais e contaminam o meio ambiente. Excelente escolha.

“A Vingança de Gaia”, de James Lovelock (1979)

Guardian: “Lovelock revolucionou a percepção do lugar no homem na Terra.”

Jornal Opção e Revista Bula: O livro, editado no Brasil, é excelente. Pode ser discutível, aliás como qualquer outro livro, mas apresenta uma discussão interessante sobre a Terra como uma coisa viva que nós estamos matando.


As Histórias de Heródoto” (c400 a.C)

Guardian: “A história começa com o relato de Heródoto sobre a guerra greco-persa”.

Jornal Opção e Revista Bula: Outro clássico indiscutível. Base mesmo de livros superiores sobre o assunto.

“História do Declínio e Queda do Império Romano”, de Edward Gibbon (1776)

Guardian: “O primeiro historiador moderno do Império Romano voltou a fontes antigas para argumentar que a decadência moral torna a queda dos impérios inevitável.”

Jornal Opção e Revista Bula: Outro clássico do primeiro time. O Brasil ganhou uma tradução excelente, de José Paulo Paes (Companhia das Letras). Pena que seja a versão condensada.

“A História da Inglaterra”, de Thomas Babington Macaulay (1848).

Guardian: “Um estudo do historiador Whig preeminente.”

Jornal Opção e Revista Bula: Numa palavra, clássico. Mas por que não citar, por exemplo, “Rumo à Estação Finlândia”, o notável livro de Edmund Wilson? Todo livro fica datado, até os clássicos, mas a obra de Wilson é uma história importante sobre a vaga socialista.

“Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt (1963).

Guardian: “Relato de Arendt sobre o julgamento de Adolf Eichmann”.

Jornal Opção: O livro da filósofa judia é esplêndido, não resta dúvida. Mas por que não citar “A Destruição dos Judeus Europeus”, de Raul Hilberg?

“A Formação da Classe Operária Inglesa”, de E. P. Thompson (1963).

Guardian: “Thompson virou a história de cabeça para baixo, centrando-a sobre a importância política do povo, ao qual a maioria dos historiadores havia tratado como massa amorfa”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um clássico da historiografia inglesa (saiu no Brasil pela Paz e Terra).

“Enterrem Meu Coração na Curva do Rio”, de Dee Brown (1970) .

Guardian: “Um relato comovente do tratamento dos índios americanos pelo governo dos EUA”.

Jornal Opção e Revista Bula: Uma magnífica história dos índios americanos. Mas pode ser incluído entre os grandes clássicos? Talvez não.

“Tempos Difíceis: Uma História Oral da Grande Depressão”, de Studs Terkel (1970).

Guardian: “Relatos orais da grande Depressão americana”.

Jornal Opção e Revista Bula: Livro não analisado por nossa redação. Pode ser combinado com a leitura de “As Vinhas da Ira”, romance de John Steinbeck? Deve.

“Shah of Shaws”, de Kapuscinski Ryszard (1982).

Guardian: “O grande repórter polonês conta a história do último xá do Irã.”

Jornal Opção e Revista Bula: Hoje, diz-se que o escritor e jornalista Ryszard costumava inventar fatos, quando a história era pobre. Mas era, sem dúvida, um repórter brilhante. O livro sobre Reza Pahlevi é notável.

“A Era dos Extremos — O Breve Século 20”, de Eric Hobsbawm (1994)

Guardian: “Hobsbawm registra o fracasso dos capitalistas e comunistas.”

Jornal Opção e Revista Bula: O marxismo mais ou menos ortodoxo não desvaloriza as análises do historiador inglês Eric Hobsbawm. Seu livro é um clássico moderno.

“Gostaríamos de Informar que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias”, de Philip Gourevitch (1999)

Guardian: “Gourevitch capta o terror do massacre de Ruanda, e os fracassos da comunidade internacional.”

Jornal Opção e Revista Bula: Um grande livro jornalístico.

“Pós-guerra — Uma História da Europa Desde 1945”, de Tony Judt (2005) .

Guardian: “Um relato magistral da história da Europa desde 1945”.

Jornal Opção e Revista Bula: Trata-se da exposição mais brilhante da história da Europa depois de 1945, passando pela queda do Muro de Berlim e a ruína do socialismo. Um equivalente não marxista (mas não de direita) para o trabalho de Hobsbawm.


“O Jornalista e o Assassino”, de Janet Malcolm (1990)

Guardian: “Uma análise dos dilemas morais do jornalismo”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um livro de qualidade. Mas não tem a mesma força de alguns livros de Gay Talese, Tom Wolfe e, mesmo, do Truman Capote de “A Sangue Frio”. Mas ela tem razão: o jornalismo é tão necessário quanto indefensável.

“O Teste do Ácido de Refresco Elétrico”, de Tom Wolfe (1968).

Guardian: “O homem de terno branco segue Ken Kesey e sua banda, Merry Pranksters, nos EUA, inebriados pelo LSD”.

Jornal Opção e Revista Bula: Tom Wolfe, mesmo metido a sabidão, é sempre interessante. Mas, apesar do tema, forte, por que não citar outro livro, “Radical Chique e o Novo Jornalismo”?

“Despachos”, de Michael Herr (1977).

Guardian: “Um relato vívido das experiências de Herr da guerra do Vietnã”.

Jornal Opção e Revista Bula: Jornalismo do primeiro time ao tratar de uma guerra estranha e complexa.


“As Vidas dos Poetas”, de Samuel Johnson (1781)

Guardian: “Biografias e estudos críticos de poetas do século 18”.

Jornal Opção e Revista Bula: clássico é clássico. Johnson era um faz-tudo: prosador, crítico, biógrafo.

“Imagem da África”, de Chinua Achebe (1975)

Guardian: “Achebe percebe ‘O Coração das Trevas’ como um romance racista, que priva seus personagens africanos de humanidade”

Jornal Opção e Revista Bula: Do autor, o leitor brasileiro pode ler “O Mundo se Despedaça”. Joseph Conrad, ao contrário do que diz o escritor, não retira a humanidade dos africanos. Mostra, isso sim, que os europeus, ao tentarem supostamente humanizá-los, cometerem toda sorte de violências. A leitura de Chinua Achebe é redutora.

“Psicanálise dos Contos de Fadas”, de Bruno Bettelheim (1976)

Guardian: “Bettelheim afirma que a escuridão dos contos de fadas oferece um meio para as crianças lidarem com seus medos”.

Jornal Opção e Revista Bula: A análise pode ser forçada (às vezes retira o lúdico e o puramente literário), mas não deixa de ser pertinente. Abriu as portas para outros estudos. 

Godel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid”, de Douglas Hofstadter (1979)

Guardian: “Uma meditação sobre a mente, música e matemática”.

Jornal Opção e Revista Bula: livro sobre o qual não temos referências técnicas, mas que sabemos ser importante.


“Confissões”, de Jean-Jacques Rousseau (1782)

Guardian: “Rousseau estabelece o modelo de autobiografia moderna, com este relato íntimo da sua própria vida”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um livro ímpar. Mas recomendamos que se leia acompanhado do livro “Os Intelectuais”, de Paul Johnson. Há um capítulo corrosivo sobre Rousseau.

“Narrativa da Vida de Frederick Douglass”, de Frederick Douglass (1845)

Guardian: “Uma das primeiras vezes em que a voz de um escravo foi ouvida pela sociedade americana”.

Jornal Opção e Revista Bula: “Um clássico americano”, que, salvo engano, não tem tradução brasileira.

“De Profundis”, de Oscar Wilde (1905)

Guardian: “Encarcerado, Wilde conta a história de seu affair com Alfred Douglas e seu desenvolvimento espiritual”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um livro belíssimo. Mas o leitor deve ter em mente que é a versão de Oscar Wilde. Sugere que, no lugar de seduzir, foi seduzido por Alfred Douglas. Plausível? É, mas sem nuance.

“Os Sete Pilares da Sabedoria”, de T. E. Lawrence (1922)

Guardian: “Conta as façanhas de Lawrence durante a revolta contra o Império Otomano”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um clássico. Mas a própria vida de Lawrence é mais interessante que seu livro. Vale ver “Lawrence da Arábia”, o belo filme do inglês David Lean.

“Minha Vida e Minhas Experiências Com a Verdade”, de Mahatma Gandhi (1927)

Guardian: “Um clássico do gênero confessional. Gandhi relata suas primeiras lutas e sua busca apaixonada pela autoconhecimento”.

Jornal Opção e Revista Bula: Goste-se ou não, Gandhi é um clássico.

“Homenagem à Catalunha”, de George Orwell (1938).

Guardian: “Orwell faz um relato da confusão [ideológica] e das traições na guerra civil”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um relato notável sobre a Guerra Civil Espanhola. Sugerimos, porém, que se leia acompanhado dos livros de Hugh Thomas e Antony Beevor para melhor compreensão da história da batalha que ocorreu na Espanha, de 1936 a 1939, entre a esquerda e a direita. A tradução brasileira é muito boa (Editora Globo).

“O Diário de Anne Frank”, de Anne Frank (1947)

Guardian: “Publicado por seu pai, após a guerra, conta a vida da família Frank que se escondeu na Holanda”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um documento impressionante sobre a perseguição dos judeus pelo nazismo. Um clássico escrito, muito bem escrito, por uma menina — o que resultou num relato vívido e íntimo do mundo dos judeus que se esconderam e morreram na Holanda.

“Fala, Memória”, de Vladimir Nabokov (1951)

Guardian: “Nabokov reflete sobre sua vida antes de se mudar para os EUA em 1940”.

Jornal Opção e Revista Bula: Nabokov era sempre brilhante, mesmo quanto não tinha inteira razão (como na briga com Edmund Wilson por conta de uma tradução de Puchkin). “Fala, Memória” é um de seus livros mais sugestivos. Falta publicar no Brasil sua crítica literária, do primeiro time.

“O Homem Morreu”, de Wole Soyinka (1971)

Guardian: “Um relato autobiográfico das poderosas experiências de Soyinka na prisão durante a guerra civil nigeriana”.

Jornal Opção e Revista Bula: O que Soyinka tem de melhor é sua poesia. Mas suas memórias mostram um mundo pouco conhecido de nós, brasileiros. Na Europa, pelo contrário, Soyinka é mais bem publicado.

“A Tabela Periódica”, de Primo Levi (1975)

Guardian: “Uma visão da vida do autor, incluindo a sua vida nos campos de concentração, como pôde ser visto através do caleidoscópio de química”.

Jornal Opção e Revista Bula: O livro citado é extraordinário. Mas, para uma leitura inicial sobre as histórias de Primo Levi no campo de concentração (e extermínio) de Auschwitz, sugerimos outro livro: “É Isto Um Homem?”. Como José Paulo Paes e Elias Canetti, o magnífico escritor italiano Primo Levi era químico. Curiosamente, depois de muitos anos, na velhice, ele se matou, jogando-se de uma escada.

“Bad Blood”, de Lorna Sage (2000).

Guardian: “Sage destrói a fantasia de família. Conta como seus parentes ‘transmitiram’ raiva, tristeza e desejo frustrado de geração em geração”.

Jornal Opção e Revista Bula: Temos boas referências sobre o livro, mas não podemos apresentar indicações positivas ou negativas.


“A Interpretação dos Sonhos”, de Sigmund Freud (1899)

Guardian: “Freud argumenta que os sonhos detêm a chave para a nossa vida psicológica”.

Jornal Opção e Revista Bula: Impossível discordar da precisa indicação. Mas por que não citar também “O Mistério da Consciência”, do neurologista português radicado nos Estados Unidos António Damásio.


A Geração Romântica”, de Charles Rosen (1998)

Guardian: “Rosen examina a forma como os compositores do século 19 ampliaram os limites da música, e seu envolvimento com a literatura e a paisagem”.

Jornal Opção e Revista Bula: Não resta dúvida de que Rosen é muito importante. Mas vale acrescentar “O Resto é Ruído”, de Alex Ross.


“O Simpósio”, de Platão (cerca de 380 a.c)

Guardian: “Um debate sobre a natureza do amor”.

Jornal Opção e Revista Bula: Não dá para discordar. Platão é o “pai” de quase tudo na filosofia. Mas é estranho que a lista não tenha mencionado Aristóteles, outro “pai” da filosofia.

“Os Meditações”, de Marcus Aurelius (C180)

Guardian: “Uma série de reflexões pessoais, defendendo a preservação da paciência em face do conflito, e o cultivo de uma perspectiva cósmica”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um clássico, culto e preciso. Por que não citar Sêneca?

“Os Ensaios”, de Michel de Montaigne (1580)

Guardian: “Montaigne examina a si mesmo e a natureza humana. Lançou o ensaio como forma literária”.

Jornal Opção e Revista Bula: Montaigne virou pau pra toda obra, mas é, ao contrário do que alguns pensam, um filósofo denso. O estilo aforístico sugere superficialidade. Só sugere. Como Nietzsche, este mais tarde, Montaigne avaliava que é possível dizer muito com pouco. A Martins Fontes traduziu os “Os Ensaios” completos. A Companhia das Letras lançou uma edição (da Penguin) condensada.

“A Anatomia da Melancolia”, de Robert Burton (1621)

Guardian: “Burton examina toda a cultura humana por meio da lente da melancolia”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um clássico que psiquiatras e psicanalistas deveriam ler. O médico e escritor Moacyr Scliar foi um de seus vulgarizadores no Brasil. Inédito em português.

“Meditações sobre Filosofia Primeira”, de René Descartes (1641)

Guardian: “Duvidando de tudo, menos da própria existência, Descartes tenta ‘construir’ Deus e seu universo”.

Jornal Opção e Revista Bula: Descartes merece figurar em qualquer lista de filósofos importantes. Mas por que excluir Pascal?

“Diálogos sobre a Religião Natural”, de David Hume (1779)

Guardian: “Hume coloca a sua fé à prova. Ele examina os argumentos que justificam a existência de Deus”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um grande clássico da filosofia inglesa.

“Crítica da Razão Pura”, de Immanuel Kant (1781)

Guardian: “Se a filosofia ocidental é uma mera nota de rodapé a Platão, Kant, em seguida, tentar unir a razão com a experiência”.

Jornal Opção e Revista Bula: Não seria mais justo dizer que Kant é o Aristóteles do século 18? É possível. Mas é, sim, o filósofo mais emblemático dos tempos modernos.

“Fenomenologia do Espírito”, de Hegel (1807)

Guardian: “Hegel mostra a evolução da consciência”.

Jornal Opção e Revista Bula: Hegel chegou ao Brasil via leitura equivocada do marxismo. Marx teria virado Hegel de cabeça para baixo e demolido seu idealismo. Sem dúvida, um leitura redutora de um filósofo que discutiu filosofia, estética e história de forma muito mais ampla.

“Walden”, de H. D. Thoreau (1854)

Guardian: “Thoreau faz o relato dos dois anos que viveu numa cabana. Examina as ideias de independência e a sociedade”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um livro importante, precursor do ambientalismo contemporâneo. Thoreau escreveu um texto, no século 19, sobre caminhada (a nova moda da classe média brasileira). Mas por que citar este livro, como filosofia, no lugar de “Ética”, de Spinoza?

“Sobre a Liberdade”, de John Stuart Mill (1859)

Guardian: “Mill argumenta que o único propósito para o qual o poder pode ser legitimamente exercido sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra sua vontade, é para evitar danos a terceiros”.

Jornal Opção e Revista Bula: John Stuart Mill: Trata-se de um de seus mais importantes livros de filosofia. Vale a pena ler suas memórias, publicadas no Brasil, nas quais indica como chegou a algumas ideias sobre a liberdade e outros assuntos.

“Assim Falou Zaratustra”, de Friedrich Nietzsche (1883)

Guardian: “Nietzsche proclama a morte de Deus e o triunfo do Super-homem”

Jornal Opção e Revista Bula: Um livro importante do filósofo alemão. Sugerimos a leitura de “Anticristo” e “Além do Bem e do Mal”.

“A Estrutura das Revoluções Científicas”, de Thomas Kuhn (1962)

Guardian: “A teoria revolucionária sobre a natureza do progresso científico”.

Jornal Opção e Revista Bula: Kuhn, ainda que muito questionado, é uma referência sobre o assunto.


“A Arte da Guerra”, de Sun Tzu (c500 aC)

Guardian: “Um estudo sobre a guerra que destaca a importância do posicionamento e a capacidade de reagir às circunstâncias”.

Jornal Opção e Revista Bula: O livro de Sun Tzu se tornou uma espécie de auto-ajuda sobre a guerra e, mesmo, sobre a política. É um clássico. Não seria o caso de incluir Clausewitz?

“O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel (1532)

Guardian: “Maquiavel injeta realismo no estudo do poder. Ele argumenta que o governante deve usar a força para manter a estabilidade, o poder”.

Jornal Opção e Revista Bula: Não há o que discutir. É o clássico dos clássicos, quando se trata de política. Maquiavel “humanizou” a política e a desromantizou. No Brasil, é lido, mal lido, como guia para fazer o mal. Não é. Trata-se de um guia para fazer a boa política. A unificação italiana, em 1861, deve muito às ideias de Maquiavel.

“Leviatã”, de Thomas Hobbes (1651)

Guardian: “Hobbes examina o poder absoluto, a questão dos fortes e dos fracos. Sugere que o Estado existe para evitar que a vida seja ‘detestável, brutal e curta’”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um clássico com a dimensão de “O Príncipe”, de Maquiavel. Talvez mais denso e complexo.

“Os Direitos do Homem”, de Thomas Paine (1791)

Guardian: “Ao defender a Revolução Francesa, aponta a ilegitimidade dos governos que não defendem os direitos dos cidadãos”.

Jornal Opção e Revista Bula: Mais do que uma defesa da Revolução Francesa, uma defesa do Homem. A Revolução Francesa defendia apenas alguns homens, os escolhidos (jacobinos e aliados). A política de direitos humanos, que deve muito a Paine, faz a defesa de todos os homens.

“A Defesa dos Direitos da Mulher”, de Mary Wollstonecraft (1792)

Guardian: “Wollstonecraft argumenta que as mulheres devem receber educação para contribuir para o desenvolvimento da sociedade”.

Jornal Opção e Revista Bula: Uma das primeiras bíblias do feminismo, senão a primeira.

“O Manifesto Comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels (1848)

Guardian: “Uma análise da sociedade e da política em termos da luta de classes, que lançou um movimento político [o comunista] com a declaração de que os ‘proletários nada têm a perder senão seus grilhões’”.

Jornal Opção e Revista Bula: Esse livro de Marx e Engels faz uma defesa despudorada da burguesia como classe social. Não porque os dois quisessem a permanência da burguesia no poder, e sim porque avaliavam que a burguesia, ao derrotar o feudalismo, implantaria o capitalismo e, daí, se chegaria ao socialismo. Um belo livro, sem dúvida, de grande impacto político. Mas da dupla vai permanecer “O Capital”, muito mais sólido como análise das estruturas do capitalismo.

“The Souls of Black Folk”, de W. E. B. DuBois (1903)

Guardian: “Uma série de ensaios sobre a desigualdade sociocultural na América do Sul”.

Jornal Opção e Revista Bula: DuBois é um clássico e, como tal, reverbera até hoje. Ele estudou o pan-africanismo.

“O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir (1949)

Guardian: “Simone de Beauvoir analisa o que significa ser mulher, e como a identidade feminina tem sido definida com referência aos homens ao longo da história”.

Jornal Opção e Revista: Este livro influenciou a luta das mulheres por igualdade.

“Os Condenados da Terra”, de Franz Fanon (1961)

Guardian: “Uma análise do impacto psicológico da colonização”.

Jornal Opção e Revista Bula: Apesar das idiossincrasias do autor, trata-se de um clássico do anticolonialismo. Hoje, é muito criticado. Mas exerceu grande influência, inclusive sobre Sartre.

“O Meio é a Mensagem”, de Marshall McLuhan (1967)

Guardian: “Análise sobre cultura e tecnologia”.

Jornal Opção e Revista Bula: “Pode-se dizer que o canadense McLuhan é um dos precursores da internet. Seu livro permanece atual, embora datado aqui e ali”.

“The Female Eunuch”, de Germaine Greer (1970)

Guardian: “Greer frisa que a sociedade masculina reprime a sexualidade das mulheres”.

Jornal Opção e Revista Bula: O argumento parece óbvio. Mas, como dizia Darcy Ribeiro, o óbvio precisa ser dito e redito para se tornar óbvio e, também, questionado.

“Manufacturing Consent”, Noam Chomsky e Edward Herman (1988)

Guardian: “Chomsky argumenta que a mídia corporativa apresenta uma imagem distorcida do mundo, de modo a maximizar os seus lucros”.

Jornal Opção e Revista Bula: Chomsky é um dos pais das teorias conspiratórias sobre o poder. Não está inteiramente errado ao analisar determinadas questões, por exemplo sobre o poder dos donos da mídia, mas ignora a participação dos profissionais qualificados, como editores, na construção de uma mídia menos ou mais aberta. É como se os jornalistas fossem meros seres alienados ou escravos mentais dos proprietários.

“Here Comes Everybody”, de Clay Shirky (2008)

Guardian: “A vibrante história da primeira revolução da mídia social”.

Jornal Opção: Apesar de sua influência, Clay Shirky tem apenas um livro publicado no Brasil, “A Cultura da Participação” (Zahar).


“O Ramo de Ouro”, de James Frazer (1890)

Guardian: “Uma tentativa de identificar os elementos comuns das religiões do mundo, sugerindo que elas são originárias de cultos de fertilidade”.

Jornal Opção e Revista Bula: Um livro que influenciou, decisivamente, a antropologia moderna. Um clássico.

“As Variedades da Experiência Religiosa — Um Estudo Sobre a Natureza Humana”, de William James (1902)

Guardian: “James argumenta que o valor das religiões não deve ser medido em termos de sua origem”.

Jornal Opção e Revista Bula: O irmão de Henry James era um filósofo-psicólogo importante e vale a pena estudá-lo.


“A Origem das Espécies”, de Charles Darwin (1859)

Guardian: “Darwin mostra a evolução das espécies pela seleção natural. Ele indica como a biologia transformou o nosso lugar no universo”.

Jornal Opção e Revista Bula: O clássico de Darwin pode ser lido como ciência, filosofia e mesmo literatura. Um livro tão influente quanto a Bíblia.

“The Character of Physical Law”, de Richard Feynman (1965)

Guardian: “Uma análise das teorias físicas de um dos maiores teóricos do século 20”.

Jornal Opção e Revista Bula: Richard Feynman, como diz o ‘Guardian’, é um dos mais importantes físicos do século 20 e um dos mais profícuos em termos de escrita.

“A Dupla Hélice”, de James Watson (1968)

Guardian: “Relato de James Watson sobre como ele e Francis Crick descobriram a estrutura do DNA”.

Jornal Opção e Revista Bula: Os estudos sobre o DNA é uma grande revolução, às vezes encoberta por conta das “revoluções” políticas. A descoberta da estrutura do DNA é mais decisiva do que a Revolução Cubana de 1959. Mas qual tem mais destaque na mídia? O livro saiu no Brasil.

“O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins (1976)

Guardian: “Dawkins, revolucionando a biologia, sugere que a evolução deve ser vista a partir da perspectiva do gene”.

Jornal Opção e Revista Bula: Aqui, em alto estilo, o leitor encontrará o cientista, não o panfletário inglês que combate as religiões. O livro foi publicado no Brasil.

“Uma Breve História do Tempo”, de Stephen Hawking (1988)

Guardian: “Hawkins, num livro que se tornou best seller, faz um relato sobre as origens do universo”.

Jornal Opção e Revista Bula: “Hawking chama mais a atenção por causa de sua doença degenerativa. Sobretudo, é um cientista altamente qualificado e, mesmo, polêmico”.


“A Cidade das Mulheres”, de Christine de Pisan (1405)

Guardian: “A defesa do sexo feminino na forma de uma cidade ideal, habitada por mulheres famosas de toda a história”.

Jornal Opção e Revista Bula: “The Book of the City of Ladies” (a tradução de Portugal ganhou o título de “A Cidade das Mulheres”) é um clássico. Que tal citar Balzac e Stendhal como explicadores da sociedade francesa no século 19?

“Elogio da Loucura”, de Erasmo (1511)

Guardian: “Este elogio satiriza a insensatez do homem e ajudou a desencadear a Reforma Protestante”.

Jornal Opção e Revista Bula: “Este livrinho (no tamanho) influenciou praticamente todos os estudos sobre o assunto. Um clássico divertido, inteligente e bem escrito”.

“Cartas Inglesas”, de Voltaire (1734)

Guardian: “Voltaire volta seu olhar aguçado para a sociedade inglesa, comparando-a com a vida do outro lado da ilha”.

Jornal Opção e Revista Bula: Voltaire era brilhante e divertido. Suas cartas contêm tanta filosofia quanto seus livros filosóficos e sua literatura. Mas, ao não citar o estudo de Rousseau sobre a sociedade, prova-se que lista do “Guardian” é bem inglesa mesmo, apesar, é claro, de citar autores de outros países.

“Suicídio”, de Émile Durkheim (1897)

Guardian: “Uma investigação sobre a cultura católica e protestante, que argumenta que o controle social menos vigilante no interior das sociedades católicas diminui a taxa de suicídio”.

Jornal Opção e Revista Bula: Ninguém pode estudar o suicídio sem passar antes pela obra de Durkheim, o filósofo-sociólogo. Ele é um precursor.

“Economia e Sociedade”, de Max Weber (1922)

Guardian: “Uma análise detalhada dos mecanismos políticos, econômicos e religiosos na sociedade moderna. Estabeleceu o modelo para a sociologia moderna”.

Jornal Opção e Revista Bula: Max Weber é o Marx não marxista. Poucos estudaram a sociedade com tanta acuidade quanto Weber. Seu livro mais emblemático é “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, livro seminal (e questionado) sobre a influência da superestrutura (religião) sobre a infraestrutura (a economia capitalista).

“Um Teto Todo Seu”, de Virginia Woolf (1929)

Guardian: “O longo ensaio de Virginia Woolf defende tanto um espaço literal [um quarto] quanto metafórico para as escritoras mulheres dentro de uma tradição machista literária”.

Jornal Opção e Revista Bula: Trata-se de um livrinho excelente de Virginia Woolf. A notável escritora inglesa faz uma incursão rápida pela história e, sobretudo, pela sociologia. Mostra por qual razão as mulheres, em determinados períodos, não se tornavam escritoras. Não tinham, por exemplo, um teto (quarto) todo seu. Algumas mulheres, como George Eliot e George Sand, assinaram seus livros com nome de homem. Não se trata, porém, de um tratado alentado.

“Elogiemos os Homens Ilustres”, de James Agee e Walker Evans (1941)

Guardian: “As imagens e as palavras de Evans e Agee pintam um quadro gritante de vida dos arrendatários no sul dos EUA”.

Jornal Opção e Revista Bula: Notável registro da Depressão dos Estados Unidos por um jornalista-escritor talentoso, James Agee, e um fotógrafo inspirado, Walker Evans. Os textos e as fotografias são maravilhosos. Mostram os EUA empobrecidos. Eles fizeram a viagem em 1936 e o livro saiu em 1941. Pode ser lido junto com “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck.

“The Feminine Mystique”, de Betty Friedan (1963)

Guardian: “Uma exposição da infelicidade sentida por muitas donas de casa na década de 1950 e 1960, apesar do conforto material e uma vida familiar estável”.

Jornal Opção e Revista Bula: Guardadas as proporções, Betty Friedan é uma espécie de Simone de Beauvoir americana. Seu livro é um clássico do feminismo e, até, um registro sociológico de que o progresso material nem sempre leva à felicidade coletiva. Mais: homens e mulheres podem “sentir” de modos diferentes os prazeres proporcionados pelo desenvolvimento.

“A Sangue Frio”, de Truman Capote (1966)

Guardian: “Um relato romanesco de um assassinato brutal na cidade de Kansas. Capote ganhou fama e fortuna com o romance”.

Jornal Opção e Revista Bula: O “Guardian” deveria citar este livro na parte de “jornalismo”. Truman Capote usa técnicas literárias e jornalísticas para contar a história de um assassinato ocorrido no Kansas, Estados Unidos. Pegou a história de onde o jornalismo praticamente havia parado e a recontou. Contribuiu mais para o entendimento do crime do que o jornalismo e a polícia. “A Sangue Frio” é um romance de “não-ficção”, disse Capote.

“Slouching Towards Belém”, de Joan Didion (1968)

Guardian: “Didion evoca a vida na Califórnia em 1960 numa série de ensaios”.

Jornal Opção e Revista Bula: “Joan Didion pode ser definida como a Truman Capote de saia, mas, como escritora e pessoa, era diferente do autor de “A Sangue Frio”. Ela tem um livro belíssimo sobre a morte do marido, “O Ano do Pensamento Mágico’.

“O Arquipélago de Gulag”, de Alejsandr Soljenitsin (1973)

Guardian: “Esta análise de encarceramento na União Soviética, incluindo a própria experiência do autor como um zek, põe em xeque as bases morais da URSS”.

Jornal Opção e Revista Bula: O romance de Soljenitsin é a prova de que a literatura, quando muito bem feita, pode ser lida como história. O escritor russo mostrou o funcionamento do Gulag, o campo de concentração stalinista, como ninguém, nem mesmo historiadores (Robert Conquest é a exceção), havia mostrado antes. É um relato vívido e pavoroso.

“Vigiar e Punir”, de Michel Foucault (1975)

Guardian: “Foucault analisa o desenvolvimento dos sistemas da sociedade moderna de aprisionamento”.

Jornal Opção e Revista Bula: Falem bem ou mal de Foucault, de suas insuficiências e exageros, mas o filósofo deu forte contribuição para questões pouco examinadas por filósofos e sociólogos, como a microfísica do poder (título de outro livro).

“Notícia de um Sequestro”, de Gabriel García Márquez (1996)

Guardian: “Maior escritor colombiano do século 20, narra a história de sequestros realizados pelo cartel de Medellín, então liderado por Pablo Escobar”.

Jornal Opção e Revista Bula: É difícil entender porque este livro é citado na lista. Não está entre os melhores do ótimo escritor García Márquez. Deve ter sido citado porque a droga é um problema internacional. “Guardian” erra: Márquez é o maior escritor colombiano de todos os tempos.


“As Viagens de Ibn Battuta”, de Ibn Battuta (1355)

Guardian: “Maior viajante do mundo árabe medieval estabelece suas memórias de viagens”.

Jornal Opção e Revista Bula: Clássico é clássico. É o caso. É difícil entender porque nenhum livro de Paul Theroux é citado.

“A Viagem dos Inocentes”, de Mark Twain (1869)

Guardian: “Twain fala de suas viagens. Foi um best seller imediato”.

Jornal Opção e Revista Bula: O Segredo de Mark Twain, além de escrever bem e com clareza, era o humor na ponta da língua ou da pena. Edmund Wilson diz que Twain é, em grande parte, responsável pela concisão da literatura americana. Uma espécie de pai de Hemingway.

“Black Lamb and Grey Falcon”, de Rebecca West (1941)

Guardian: “Uma viagem de seis semanas pela Iugoslávia constitui a espinha dorsal deste estudo monumental da história dos Balcãs”.

Jornal Opção e Revista Bula: O livro de Rebecca West não saiu em português. É apontado como um clássico de viagem. Mas pode ser monumental um relato de uma viagem que durou seis semanas? Pode, desde que resultar de pesquisas que ultrapassem a mera viagem.

“Veneza”, de Jan Morris (1960)

Guardian: “Um guia excêntrico, mas explica a grande cidade da arte, história, cultura e pessoas”.

Jornal Opção e Revista Bula: Há uma tradução portuguesa do livro. Jan Morris é apontado como o “rei” da literatura de viagem. Paul Theroux disse dele: “É um dos maiores escritores descritivos da língua inglesa”.

“A Hora dos Presentes”, de Leigh Fermor Patrick (1977)

Guardian: “O primeiro volume da jornada de Leigh Fermor a pé por toda a Europa. Uma brilhante evocação da memória da juventude”.

Jornal Opção e Revista Bula: Autor, salvo engano, inédito em português. É apontado como grande autor de histórias de viagem.

“Danúbio”, de Claudio Magris (1986)

Guardian: “Magris mistura viagem, história, anedota e literatura”.

Jornal Opção e Revista Bula: Claudio Magris é um dos mais brilhantes (e intelectualizados) escritores italianos. Sua literatura pode ser descrita como literatura de viagem? Talvez não. Porque é, para resumir, alta literatura. A viagem, no caso, é um instrumento da literatura. Magris, além de prosador, é um crítico do primeiro time.

“China Along The Yellow River”, de Jinqing Cao (1995)

Guardian: “Um trabalho pioneiro da sociologia chinesa, explorando a China moderna”.

Jornal Opção e Revista Bula: Salvo engano, inédito em português.

“Os Anéis de Saturno”, de W. G. Sebald (1995)

Guardian: “Uma meditação melancólica sobre a efemeridade e decadência”.

Jornal Opção e Revista Bula: Sebald morreu relativamente jovem, mas deixou uma prosa de qualidade. “Os Anéis de Saturno”, traduzido no Brasil, é um de seus melhores romances. Pode não parecer, mas é um romance.

“Passage to Juneau”, de Jonathan Raban (2000)

Guardian: “História da viagem de Raban de Seattle ao Alasca, explorando a arte americana nativa, a imaginação romântica”.

Jornal Opção e Revista Bula: A obra de Raban, embora respeitada, tanto que está na lista do “Guardian”, não mereceu tradução no Brasil.

“Cartas a um Jovem Escritor”, de Mario Vargas Llosa (2002)

Guardian: “Vargas Llosa mostra uma vida de leitura enquanto fala do ofício de escritor”.

Jornal Opção e Revista Bula: Vargas Llosa é sempre um grande escritor e crítico, mesmo numa obra menor, como esta. “O Peixe na Água”, embora fale mais de sua infância e da derrota para Fujimori, na disputa pela Presidência do Peru, é um livro muito melhor. Viajar “neste” (ou com este) livro é muito mais enriquecedor.

Cânone brasileiro não aparece na lista do Guardian

O jornal “The Guardian” estabeleceu um cânone sobre livros de não-ficção que exclui autores e obras de vários países. Do Brasil, por exemplo, não aparece nenhum livro. “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, certamente é mais importante que alguns dos livros arrolados, mas não é citado. “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, é respeitado por sociólogos e antropólogos, mas não mereceu nenhuma menção.

Os outros autores ignorados: Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Schwarz, Antonio Candido (além de crítico literário, é sociólogo), Wilson Martins (autor de uma seminal “História da Inteligência Brasileira”), Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Darcy Ribeiro.

 

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