Texto de Mayara de Araújo publicado originalmente no Diário do Nordeste

Escritores-cineastas brasileiros debatem o gênero policial que sai dos livros e invade o cinema e a TV. Literatura de forte apelo visual, a ficção policial mantém uma interação constante com outras linguagens

Cena de "O Cheiro do Ralo", baseado no romance de Lourenço Mutarelli, o filme teve roteiro do escritor Marçal Aquino: "A literatura deve se deixar contaminar por tudo o que diga respeito à vida"

Uma das prazerosas particularidades dos livros é permitir ao leitor uma série de construções imagéticas ao longo da narrativa. Em outras palavras, montamos a história na nossa cabeça, idealizamos personagens, cenários, ações. Contudo, certos gêneros ou estilos ampliam esse “efeito visual”, praticamente pondo o leitor dentro do enredo, como parte da história. Daí para tornarm-se quadrinhos, roteiros de filme ou de seriados basta um passo.

Tal qual um palíndromo, fazendo o percurso contrário, também há sentido: nos quadrinhos, filmes e seriados também se encontram enredos que bem poderiam ser livros, suporte em que a obviedade das imagens daria lugar ao mistério a ser desvendado pela imaginação, e a quantidade de páginas, muito menos restritiva que a duração de um filme, permitiria muito mais entrelinhas e desfechos.

Fato é que alguns gêneros dialogam mais com outros suportes. E a literatura policial é um deles. Revirando o passado, um bom exemplo é o personagem “The Shadow”, originado em revistas, mas transportado para o rádio e o cinema, nos anos 30, e para os livros posteriormente. Ainda hoje, literatura policial, quadrinhos e audiovisual se retroalimentam, marcando mutuamente suas identidades.

Dois escritores policiais brasileiros são bons exemplos dessa interação: Braz Chediak, um aficionado por literatura policial e cinema; e Marçal Aquino, que fez um longo caminho: de jornalista policial para roteirista do seriado “Força Tarefa”, da Rede Globo. Ambos, além da escrita de romances policiais, tiveram experiências com a montagem de filmes e minisséries do gênero.

Definições

Braz Chediak foi diretor e roteirista de alguns filmes marcantes de uma produção marginal brasileira, protagonizada por nomes da literatura e do teatro, como Plínio Marcos e Nelson Rodrigues. Braz dirigiu, entre outros, “Navalha na Carne” e “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, ambos do primeiro; e “Bonitinha, mas Ordinária” e “Perdoa-me por me traíres”, de Rodrigues.

Para ele, a literatura policial possui uma estrutura dramática bem definida, com forte apelo visual, talvez por isso migre tanto para as telas. “Essa estrutura presente nos romances do gênero também está no teatro, por exemplo. Quem primeiro estudou e definiu essa base, por sinal, foi Aristóteles, ainda na Grécia, mas foi muito bem explorada também por Dostoievski”, explica Chediak.

Segundo ele, seu interesse por romances policiais surgiu, inclusive, nos cinemas. “Quando pequeno, vi a adaptação de ´O Falcão Maltês´, de Dashiell Hammett, e fiquei louco para ler o livro. Comprei assim que saiu a tradução para o português e, de lá pra cá, não parei mais de ler policiais”, relembra.

Marçal Aquino, escritor de prosas como “O Amor e Outros Objetos Pontiagudos”, vencedora do Prêmio Jabuti de 2000, e “O Invasor”, levado aos cinemas posteriormente, concorda que a literatura deva se deixar tocar por outras linguagens, mas alerta: “Literatura é literatura, roteiro é roteiro. É importante não confundir as duas coisas. São reinos de linguagens muito distintos”. O que ele aponta como uma dificuldade inerente ao processo de transporte do texto literário para o roteiro é o encontro de um “ponto de equilíbrio”: “Uma vez definido o campo em que literatura e roteiro dialogam, o resto é trabalho físico, de escrita mesmo”, afirma Marçal.

Brasil e crime

Há algo, no entanto, com que ambos concordam: as peculiaridades da literatura policial brasileira, difícil de definir. “Nem tudo o que possui violência é romance policial. Existem livros que são muito mais documentais do que policiais”, afirma Braz Chediak.

Diante disso, está posta a polêmica, interessante quando se considera um cenário recente de filmes brasileiros sobre o submundo do crime, do tráfico e da corrupção policial baseados em livros. Seria o apogeu da literatura policial brasileira, que se retroalimentaria, num processo intenso com o cinema?

Partindo da premissa defendida por Chediak, um bom exemplo é “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, que deu origem ao filme homônimo e ao seriado global “Cidade dos Homens”. Há marginalidade, tráfico, crime e até polícia, mas não é necessariamente policial. Braz vai além, afirmando que inclusive “Elite da Tropa” não seria parte do gênero, mas sim um dossiê, uma ficção documental.

Segundo Marçal Aquino, a questão primordial é que o gênero no Brasil teria lá suas peculiaridades, que precisariam ser consideradas na discussão. “A literatura policial brasileira tem uma série de particularidades, que, no fundo, refletem como é a realidade do crime por aqui. Então o que temos são histórias mais criminais do que policiais propriamente ditas, aquelas que acenam para o modelo clássico. Certas coisas daqui são incomparáveis porque são próprias do crime brasileiro”, elucida.

Sua experiência como repórter de polícia influenciou, inclusive, sua escrita, ajudando-o a perceber, em partes, como essas idiossincrasias do crime brasileiro funcionam. “No meu caso, acredito que serviu para eu me interessar por alguns personagens e por determinadas situações. Acima de tudo, tem a coisa do olhar para o real, que eu exercitei nessa época”, detalha.

A experiência de Marçal como repórter, assim como a trajetória de Chediak no cinema, ajudaram a forjar o estilo literário de ambos, daí a importância do diálogo constante entre linguagens. Pois, como diria Marçal: “A literatura deve se deixar contaminar por tudo que diga respeito à vida”.

Filmes de Chediak

Perdoa-me por me traíres (1980)

O Grande Desbum… (1978)

Os Mansos (1976)

Eu dou o que ela gosta (1975)

O roubo das calcinhas (1975)

A navalha na carne (1974)

Banana Mecânica (1974)

Dois perdidos numa noite suja (1971)

O matador profissional (1969)

Noite do meu bem (1968)

As sete faces de um cafajeste (1968)

Juventude e ternura (1968)

Os viciados (1968)

Lei do cão (1967)

Mineirinho vivo ou morto (1967)

Livros de M. Aquino

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (2005)

Famílias terrivelmente felizes (2003)

Cabeça a Prêmio (2003)

O Invasor (2002)

Faroestes (2001)

O amor e outros objetos pontiagudos (1999)

As fomes de setembro (1991)

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