Aconteceu antes da primeira palavra. Para a jornalista e documentarista Eliane Brum, a experiência de escrever Uma duas, seu recém-lançado livro de estreia na ficção, foi um mergulho de cabeça na “escuridão oceânica do seu dentro”. Numa tarde, sentiu as placas tectônicas se movendo dentro dela. “Era como o tsunami da Tailândia, o terremoto do Japão, uma erupção na Islândia”. Através da palavra, perfurou os mundos que separam a realidade da ficção.

Gaúcha de Ijuí morando atualmente em São Paulo, Eliane iniciou a carreira jornalística no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, onde trabalhou por 11 anos, foi repórter especial da revista Época, e assina atualmente uma coluna no site da publicação. Conhecida pela força do seu texto, ela irrompe na literatura com o mesmo ímpeto que a tornou ganhadora de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem em mais de duas décadas dedicadas ao jornalismo. Também é autora de Coluna Prestes – O avesso da lenda (esgotado), O olho da rua e A vida que ninguém vê – obra esta que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 2007.

Agora, em seu primeiro romance, a autora trata de forma visceral da relação dramática e perversa entre uma mãe e uma filha. Habituada às insanidades que sacodem a realidade, Eliane Brum conta que a experiência perturbadora da escrita literária – essa espécie de possessão que a deixou fora do mundo concreto – mostrou a existência de verdades que só a ficção aguenta.

Você considera jornalistas e escritores como escutadores de histórias – o primeiro tipo, de personagens externos, o segundo, de personagens internos. Para escrever Uma duas, foi preciso esvaziar-se da realidade jornalística para ser preenchida por essa voz interna?

Sou repórter de rua há 23 anos. Considero-me uma “escutadeira” de histórias reais. Sempre me esvaziei para ir ao mundo do outro. Fui preenchida por essas vozes e, hoje, me sinto habitada por uma multidão. Precisava expressar essas realidades para seguir vivendo. É daí que surge a necessidade de fazer ficção – só que em um processo inverso. Enquanto na reportagem me esvazio para ser preenchida pelo mundo do outro, na literatura é uma possessão do meu próprio corpo, da minha própria voz. Só que essa voz vem dos meus subterrâneos. É como se todas as histórias que me habitam passassem agora por um processo inverso. Precisam ser “desfiltradas” para tornar-se ficção.

 

E como foi esse processo?

Completamente diferente do jornalismo e muito mais perturbador. Essa possessão – de mim e por mim – me deixou durante todo o tempo, mesmo antes de começar a escrever, fora do mundo concreto. Comia, escrevia outros textos, namorava, ia ao cinema, mas eu não estava ali. Estava vivendo o tempo inteiro essa ficção. Todo o processo de escrita foi muito doloroso.

 

Mas é possível apontar, em sua literatura, onde a realidade e a ficção se encontram?

A realidade sempre me surpreende, espanta e me tira do chão. Essa é a graça de ser repórter e contar histórias reais. Não seria repórter se essa realidade não me arrancasse do lugar. Na reportagem, o que me interessa é como as pessoas estão sentindo suas vidas. Como elas inventam sentido para suas vidas a partir do caos. A vida é caos e nem sempre tem o sentido que a gente quer dar a ela. Mas há verdades nessa realidade que só a ficção aguenta. Foi por esse motivo que resolvi escrever ficção.

E, de imediato, você mergulha no relacionamento, quase perverso, entre mãe e filha, além de abordar questões polêmicas, como a automutilação. Para um livro de estreia, sentiu algum receio de tocar em temas como estes? Eles foram se impondo e acontecendo da mesma forma que todo o resto. Não era uma escolha, não teve planejamento, não me preocupei em chocar as pessoas. É a verdade que posso contar neste momento, que precisava expressar. São as realidades de que a minha ficção dá conta. Tanto que não mostrei para ninguém enquanto escrevia, pois tinha que ser uma experiência solitária. As pessoas perguntam por que não enviei o livro antes para que amigos fizessem observações, sugestões. Não enviei porque não ia mudar. É a minha voz e pago o preço. Era isso o que eu queria dizer.

Laura, sua personagem, diz que uma palavra nova desordena tudo e que as palavras não são fáceis. Para você, qual foi o preço?

Foi pessoal. Sou incomum como a minha personagem – que não é autobiográfica – e tenho essa literalidade. Sinto as coisas no corpo, sou muito intensa. Então, escrever foi um exercício duro. Quase acaba comigo! Sou disciplinada e escrevia todos os dias pela manhã. Quando terminava, estava fisicamente destruída. Ainda estou me recuperando. Foi uma experiência extraordinária.

 

Mesmo não sendo autobiográfico, você aproxima seu universo ao da ficção, já que a protagonista é jornalista e não deixa de tecer inúmeras críticas. É possível encontrar em sua narrativa a cronista, que ironiza as falhas do sistema de saúde público, as divisões das classes sociais, o faz de conta da sociedade moderna?

A ideia não era transformar o livro em crítica social, mas as críticas aparecem como acontece no decorrer da vida. Não se separa a vida da ficção, ela faz parte. Fui influenciada por tudo o que vivi e ouvi e não saberia separar. Sou tudo isso.

 

Você intercala as vozes narrativas. Como chegou a essa estrutura?

O projeto inicial era que o livro só tivesse uma narradora, a Laura (a filha). Um dia acordei, antes do amanhecer, com a voz da mãe em minha cabeça, dizendo que a história não era bem assim e que ela tinha o direito de contar sua versão. Pensei: estou ficando louca! Continuei escrevendo com uma única narradora, mas essa segunda voz não me deixou mais em paz. Ela se impôs e mudou minha narrativa.

 

É correto afirmar que, em seu romance, a literatura se transforma praticamente em personagem?

A impossibilidade da palavra talvez seja mais um personagem. É o que amarra essas duas mulheres que se amam e se odeiam. É um livro sobre a relação de uma mãe e uma filha, mas, também, é um livro sobre a palavra e sobre a insuficiência da mesma para dar conta da vida. É um livro que lida também com as possibilidades da literatura. Essa questão das fontes [gráficas] diferentes que foram utilizadas no livro mostra como, para mim, a palavra tinha que ter um corpo. Por isso, cada voz narrativa [três] tem o seu próprio corpo.

 

Aliás, na voz dos personagens, você cita Flaubert, Clarice Lispector, Kafka, Hemingway, Vinicius de Moraes e outras referências. Quais foram suas influências literárias?

Não sei se sou íntima de algum escritor. Acho fundamental para a leitura que a gente não seja íntima do autor. A literatura exige estranhamento. Mais do que propriamente os escritores, teve papel fundamental para mim a leitura, o que ela significou. Aprendi a ler aos 7 anos de idade, quando me alfabetizei na escola. A partir daí, a vida se torna impossível. Não tenho nostalgia da infância – achava a infância um inferno, que viver era muito doloroso. Ainda acho doloroso, mas na infância mais. E os livros aparecem como uma possibilidade de continuar viva, de seguir existindo. Descobri que, através deles, posso entrar em um novo mundo. Talvez, por isso, para tudo o que me acontece, procuro resposta nos livros. Desde a infância leio vorazmente, leio para viver. A única vez que parei de ler foi para escrever esse romance, porque não conseguia. Pegava um livro e largava. Pegava outro e largava também. Percebi que não conseguiria ler enquanto não terminasse de escrever, o que foi aterrorizante. Agora que terminei, voltei. Leio por prazer e por necessidade.

 

Em Uma duas, você diz que escritores são como deuses. Eles criam um mundo em que podem viver e do qual podem escapar pela porta dos fundos. Quando a narrativa passou a ter esse “poder” em sua vida?

A primeira vez que descobri que a narrativa é poderosa eu tinha 4 anos de idade. Sou de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul e fui filha temporã. Meus pais trabalhavam de manhã, de tarde e de noite. A mulher que cuidava de mim era muito amarga, dura, me colocava debaixo da mesa e dizia: “Fica aí”. Mas essa mulher se transformava quando escutava novela de rádio. Ela me chamava pra cozinha – uma cozinha bem pequena – pra ouvir e, por um momento, com aquela história de ficção, se tornava suave e carinhosa. Essa memória ficou em mim. Só anos mais tarde fui pensar sobre ela e percebi que foi ali que comecei a entender como a narrativa é poderosa e transformadora.

 

Pensando nos seus livros anteriores e em sua própria trajetória no jornalismo, você acha que a relação com os leitores mudará? Essa nova relação com o público preocupa de alguma forma?

Tenho muita curiosidade de saber como os meus leitores, que estão habituados às reportagens e colunas, lerão essa outra voz, que é muito diferente. Foi um risco que quis correr e, claro, dá medo. Sei que não dá para controlar o que as pessoas irão pensar e dizer e como vão entender meus personagens. Mas isso também é bom. Digo sempre que a melhor parte do jornalismo é ir pra rua e não saber o que vai acontecer. E com a literatura também é assim: não sei o que vai acontecer. Meu compromisso é que essa é uma verdade para mim.

 

Você é cronista do site literário Vida Breve, em parceria com o José Castello e outros expoentes. Para você, a internet foi uma espécie de “tubo de ensaio”?

Passei a escrever o Vida Breve em um momento em que estava muito incomodada com essa necessidade de ter outra “voz”. É um lugar muito prazeroso, de experimentação. E é importante, porque foi ali que comecei a usar essa voz, experimentar, ainda que de forma diferente.

 

Fazendo uma analogia com seu romance, Rio Grande do Sul parece ser o “útero” da literatura nacional contemporânea. Como a região influenciou sua escrita?

Sou particularmente fascinada pela literatura oral, especialmente a do Norte e do Nordeste. Tenho certeza de que a nossa literatura será muito mais rica quando essa oralidade puder se expressar pela escrita. A escuta dessas histórias começa no Rio Grande do Sul. Sou uma “escutadeira” desde pequena, antes mesmo de me tornar jornalista. Parte da minha família é da roça, de pequenos agricultores da região de Ijuí, e foi lá que comecei a escutar as histórias deles, as da minha avó. O que o Rio Grande do Sul me deu, e sou muito gaúcha neste sentido, é uma apropriação de horizonte. Descobri em vários momentos da minha vida que tinha que ter um pampa dentro de mim. Quando a vida estava muito dura, tinha que olhar para dentro e entender que não há muros, não há limites. Sou muito ligada ao lugar de onde veio a minha família, apesar de achar que sou meio estrangeira em todos os lugares, talvez estrangeira em minha própria casa, no meu próprio corpo, estrangeira comigo mesma.

 

Qual foi a melhor história que ouviu, profissionalmente ou não?

São muitas histórias. Mas, em Barreiro, o lugarejo rural onde meu pai nasceu, começou algo que para mim é muito importante. Meu pai é o único da família dele que estudou. E estudou na escola rural dessa comunidade, com uma professora que se chamava Luzia de Figueiredo Neves, filha de um coronel com uma escrava. Em todos os dias de finados, ele – filho de analfabetos – levava a mim e aos meus irmãos ao cemitério de Ijuí, para que colocássemos flores no túmulo da sua primeira professora e lembrar que foi ela quem tirou nossa família da cegueira, nos dando acesso às letras. Ela deu a luz ao meu pai, aos seus filhos e netos. Todas as gerações da minha família enxergarão por causa dessa mulher. Até hoje, vou uma vez por ano e levo flores para ela. Vou ser enterrada nesse lugar, onde já comprei meu túmulo!

 

Laura, sua protagonista, se pergunta por que escreve. Devolvo a pergunta: por que Eliane Brum escreve?

Escrevo para poder viver. Escrevo porque pra mim não existe vida fora da palavra.

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