Autora: Claudia Andrade
Fonte: Terra

O baiano João Ubaldo Ribeiro foi responsável por uma das mesas de debate mais divertidas da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) até agora. Em pouco mais de uma hora de evento, arrancou gargalhadas do público em diversos momentos ¿ incluindo alguns em que se perdia nas respostas ¿ e ouviu o tradicional “aaaah” de pesar quando o moderador anunciou o fim do bate-papo. Contou histórias, revelou preferências e foi extremamente franco sobre seu processo de criação. Em certo momento, admitiu que a origem dos livros está na encomenda feita pelos editores. “Cheque gera inspiração”, afirmou.

Em seguida, passou a relatar como foi feito o convite para escrever A Casa dos Budas Ditosos. Disse que, inicialmente, foi chamado para escrever sobre a preguiça como pecado. “Eu disse: não faço. Fiquei ofendido. Só porque sou baiano?”. Depois do episódio, pensou em escrever sobre a luxúria, o que acabou ocorrendo. “A fonte de inspiração chegou junto com o contrato. E eu, para não deixar a inspiração se esvair, endossei o cheque e depositei”.

Sobre um de seus principais livros, Viva o Povo Brasileiro, negou ter tido a intenção de “reescrever a história do Brasil do ponto de vista do dominado”, como muitos creem. Contou que a primeira motivação foi fazer um livro extenso, em resposta a um editor que lhe disse que escritores brasileiros só faziam “livrinhos para serem lidos na ponte aérea”. “Eu gostaria de ter uma história mais bonita pra contar, mas a gênese do Viva o Povo Brasileiro foi fazer um livro grande para esfregar na cara do Pedro Paulo (Sena Madureira, então na Editora Nova Fronteira)”, disse. “Não quis reescrever a história do Brasil. Quis escrever um romance bem escrito, caprichado e grosso”, completou, lembrando que chegou a pesar os originais, segundo ele, com 6,7kg.

João Ubaldo afirmou que os rumos da história nem sempre seguem a ideia inicial. “É frequente que eu queira que um personagem morra e ele não morre, que ele case e ele não casa”. E brincou sobre a curiosidade que algumas de suas narrativas despertam no público. “Sempre me perguntam como eu pude descrever tão bem uma cena de sexo entre dois homens (em O Sorriso do Lagarto). Passei a responder que eu treinava com amigos”.

(Des)gosto por Guimarães Rosa
Questionado sobre a influência que teria tido de Guimarães Rosa, especialmente em Sargento Getúlio, João garantiu que “jamais tinha sequer chegado perto” de um livro de Guimarães Rosa na ocasião. E fez uma revelação: quando leu pela primeira vez um trabalho escritor carioca, não gostou. “Devo dizer que ele não está entre os autores de meu maior afeto. Não porque seja menor, secundário, mas porque não me fala nada”.

Para demonstrar melhor esse sentimento, ele descreveu sua tentativa de ler Primeiras Estórias, de 1962. “Eu tenho um ódio mortal a essa palavra ‘estórias’! Queria jogar fora imediatamente. Acabei abrindo em uma página qualquer que dizia: ‘a viagem fora planejada no feliz’. Eu pensei, ‘não dá'”.

Depois de mais uma vez arrancar risadas do público, fez questão de deixar claro: “eu queria diferenciar minha idiossincrasia em relação a Guimarães Rosa da importância dele na literatura brasileira. Eu seria um desvairado se dissesse que ele não teve importância”, concluiu.

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