Autor: Luiz Carlos Merten
Fonte: O Diário de Maringá

Para o leitor da série de livros de J K. Rowling, não há segredo, mas para o espectador que vem acompanhando a saga de Harry Potter desde o primeiro filme (de Chris Columbus, em 2001), é como se toda a arquitetura dramática convergisse para este momento em que Alan Rickman, como Severus, diz ao pequeno bruxo: “Você tem os olhos de sua mãe.”

Algo se passa no rosto de Daniel Radcliffe e esse algo, tênue, misterioso, fornece a chave para o entendimento de toda a série. Não apenas Harry, mas o próprio espectador decifra ali todo o significado da história. E é uma linda história de amor, em que o herói, o verdadeiro herói, tem de trair para servir ao objeto de sua devoção.

O que significa esse momento de fraqueza? O que representam os olhos da mãe? O que representam suas lágrimas? Os anos 2000 consolidaram uma tendência da indústria. Sempre houve, na história do cinema, séries – e algumas muito bem-sucedidas. Duas, em especial, marcaram o período.

“O Senhor dos Anéis”, que Peter Jackson adaptou da saga erudita de J.R.R. Tolkien, e “Harry Potter”. Frodo foi o objeto de adoração de uma geração criada nos mitos celtas. A posse do anel implica escolhas morais – são o tema da série de Jackson. Existem escolhas morais, traições e redenções em Harry Potter. Mas a série, no cinema, não teve um único autor.

Iniciada por Chris Columbus, foi melhorando com Alfonso Cuarón e Mike Newell, mas David Yates, em quatro memoráveis episódios, deu a Potter sua dimensão definitiva. Hogwarts será sempre esse lugar mágico onde jovens poderão escolher e ser escolhidos. Um mundo ameaçado pelo vilão capaz de arregimentar e destruir, Valdemort. Mas Harry, como Frodo ou Neo, de outra série (Matrix), é o predestinado. O tema de “As Relíquias da Morte” é o sacrifício do herói. A sua morte?

Harry é o motor da narrativa, mas Severus, com suas lágrimas, é quem leva o público nessa viagem particular. O oitavo filme não é apenas a conclusão da franquia que rendeu mais de US$ 6,3 bilhões e vendeu 400 milhões de livros. É como se a história chegasse a um porto. As crianças tornam-se adultas, amores consolidam-se.

“Você tem os olhos de sua mãe.” Uma frase desenrola o novelo, esclarece tudo. Mas isso é parte do mistério do filme. O mistério maior é seu fabuloso elenco. As entonações de Alan Rickman e Maggie Smith, a excentricidade de Helena Bonham Carter, a consciência do próprio fracasso por Valdemort , quando ele fica a um passo do seu triunfo.

Filosofia à parte

“Relíquias da Morte”, o oitavo, é maravilhoso, mas talvez não seja melhor que o sétimo. Não importa. Na hora do confronto com Valdemort, Harry reencontra seus mortos, que sempre estiveram com ele.

O que é a vida, o que é a morte? Vamos deixar em paz os críticos. “Matrix”, “O Senhor dos Anéis”, “Harry Potter”. Há scholars capazes de fazer leituras filosóficas profundas a partir do que, para alguns, talvez seja só banalidade.

A varinha das varinhas, agora que encontrou seu dono, pode lhe dar poder ilimitado. Mas Harry, como Frodo, não quer o poder do anel ou da varinha. A beleza daquele final, na ponte semidestruída, ultrapassa a fantasia. Tem a ver com o aqui e o agora.

Yates conseguiu. Nunca se viu tanta gente chorando como na sessão de imprensa de sexta. O último Harry Potter é sobre o crescimento de uma geração.

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