Texto de Carlos Araújo publicado originalmente no Jornal Cruzeiro do Sul

Talvez seja o momento de chamar a atenção para a verdadeira festa literária que interessa e que está ao alcance dos leitores

Agora que a Flip terminou, agora que os escritores convidados se recolheram aos seus lugares de origem no Brasil e em outros países, agora que as reflexões sobre obras e sociedade se perderam nas páginas dos jornais, talvez seja o momento de chamar a atenção para a verdadeira festa literária que interessa e que está ao alcance dos leitores: a abertura de um bom livro na primeira página e a disposição de devorá-lo como quem busca oxigênio para o prazer da respiração.

A Flip é um show. E, como um espetáculo, encanta por todos os seus motivos e interesses, todos legítimos, desde a busca pelos efeitos midiáticos até a melhoria da contabilidade de editores e autores num mercado (o da literatura) ainda tão tímido e com amplo potencial de crescimento no Brasil. Toda festa tem tudo isso. Nesta, ao contrário do que acontece com apresentações de moda e de rock, o objetivo foi atrair leitores e, se possível, agarrá-los pelas unhas, pelos olhos, pelas emoções.
Lá estiveram o norte-americano James Ellroy e o brasileiro João Ubaldo Ribeiro, dois nomes suficientes para garantir o sucesso da Flip, e surpresas como o angolano valter hugo mãe (assim mesmo, com minúsculas), que emocionou o público ao manifestar amor pelo Brasil. Quem não foi a Paraty, independentemente das razões, se beneficiou da cobertura da mídia para pelo menos ter contato com os principais destaques das performances dos autores e tirar lições particulares.
Primeira lição: A Flip já é uma referência no mercado editorial brasileiro e seu modelo deveria se multiplicar pelo País, respeitadas as adaptações para atender às diferentes vocações e possibilidades regionais. No lugar de estrelas internacionais, nada como um encontro em que são convidados autores nacionais e até mesmo os desconhecidos. Literatura também pode ser pop, a exemplo do que sonhava o mineiro Roberto Drummond, autor do clássico “A Morte de D. J. em Paris”.
Segunda lição: a verdadeira festa, aquela que realmente vale a pena, é a possibilidade de abrir um livro de João Ubaldo Ribeiro, que se projetou de Itaparica (BA) para o mundo como autor do nível de Guimarães Rosa, descontadas as diferenças de estilo e humor. Os romances “Sargento Getúlio” e “Viva o Povo Brasileiro”, duas das grandes obras de João Ubaldo, são exemplos que o colocam no primeiro time de toda a literatura.
Terceira lição: uma festa literária não dá conta do imenso leque de grandes autores e obras clássicas, canonizadas ou contemporâneas, que podem dar tanto ou mais prazer ao leitor do que uma viagem ou uma noite no bar. Só para citar os brasileiros, não estavam lá Dalton Trevisan (o recluso Vampiro de Curitiba), Rubem Fonseca (o maior contista tupiniquim das últimas décadas), Raduan Nassar (o reinventor da linguagem narrativa) nem Érico Veríssimo (o segundo maior cronista brasileiro, depois de Rubem Braga, o primeiro). E, para citar um estrangeiro, o argentino Ricardo Piglia (autor de “Respiração Artificial”) também não estava lá.
 
O importante é que esses e outros autores de primeiríssima linha estão ao alcance de todos nós nas bibliotecas, nas livrarias, nos sebos, nas estantes de amigos que emprestam livros (eu não empresto), nos cantos esquecidos da casa. A festa que conta e que consiste na leitura desses livros é uma possibilidade simples, direta, prazerosa. Que não depende de viagem, canseira ou aborrecimentos de última hora.
Atravessar o catatau de mais de quinhentas páginas de “Viva o Povo Brasileiro” é o mesmo que mergulhar numa epopeia que conta outra versão da história do Brasil. Nada mais estranho e desafiante.
Na Flip, João Ubaldo Ribeiro negou que com este livro tenha tido a intenção de reescrever a história do Brasil. Com o seu bom humor de sempre, arrancou risos ao dar uma explicação: “Eu não quis reescrever nada. Quis escrever um romance bem escrito, grande. E grosso.”
Todo esse turbilhão em torno da Flip é um balde de água fria para quem acredita nas profecias catastróficas de morte da literatura e do romance como expressão do homem e da sociedade. Grande literatura (assim como música clássica) é mesmo para poucos. Idêntico processo se dá com a poesia, e nem por isso ela perde a pose ou deixa de ser produzida e renovada a cada geração.
Claro que as teorias mostram que o romance não tem mais a mesma importância que encontrou no século 19 e na primeira metade do século 20. Não há mais Tolstói, Dostoievski, Joyce, Proust, Kafka, Faulkner, Machado de Assis, gênios que sacudiram a arte da narrativa com tal dimensão que provocaram um desafio aos novos autores: como superá-los? Diante deles, muitos, conscientes de que não davam conta do desafio, desistiram de escrever. Felizmente, outros encararam o problema, recolheram-se às suas possibilidades e produziram grandes obras – e “Viva o Povo Brasileiro” é uma delas.
Teorias são feitas para serem aceitas ou rejeitadas. Há os catastrofistas, que vêem morte em tudo e acabam fazendo dessa mania uma espécie de marketing que não leva a lugar nenhum. Meu conceito preferido (e no qual acredito) é de que o romance continua tão importante quanto em outras épocas: ele se renovou, livrando-se do estilo linear de contar histórias, criou novas possibilidades narrativas e de linguagem e ganhou vitalidade. “Viva o Povo Brasileiro”, publicado em 1984, tão recente no tempo histórico, é a comprovação disso. Cada bom livro é uma festa para leitores apaixonados.

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